Sem investimentos, Transnordestina deixa malha ferroviária de Alagoas sucateada
Modelo de transporte ferroviário está abandonado; trilhos e estações estão tomados pelo mato
A greve dos caminhoneiros, além de criar um caos na economia nacional, na vida dos brasileiros expôs a crítica situação da malha ferroviária do País. A de Alagoas foi abandonada pela empresa Transnordestina, que com a extinção da Rede Ferroviária Federal S.A- RFFSA - ganhou a concorrência para recuperar a malha regional, construir 1,8 mil quilômetros de ferrovia e interligar de trem o Porto de Pecém (CE) ao Porto de Suape (PE). Depois de 10 anos, existem apenas 600 quilômetros de ferrovia.
Tudo em um só lugar.
Receba notícias da GazetaWeb no seu WhatsApp e fique por dentro de tudo!

Já a Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) anuncia investimento na modernização da infraestrutura de 36 quilômetros que atende os trens de passageiros que transporta mensalmente 270 mil pessoas, em média 15 mil passageiros/dia, de segunda a sábado.
Leia também
Atualmente existem oito composições de VLTs (Veículos leves sobre Trilhos), um trem especial (composição com uma locomotiva e seis vagões antigos conhecido como o trem do sururu) que transporta passageiros e pequenas mercadorias, mais duas locomotivas e uma locomotiva "Maria Fumaça". A CBTU promete mais investimentos que possibilitarão ao trem de passageiro ter outra estação no Shopping Maceió. O novo projeto conta hoje com 50% dos recursos necessários, algo em torno de R$ 60 milhões.

Quanto à interiorização do trem de passageiros sonhada por milhares de alagoanos, não existe nenhuma previsão e nem projeto, afirma o superintendente da CTBU no Estado, Marcelo Aguiar.


Cabo Bebeto promete independência na Assembleia: "Pauta ruim terá meu cofronto"

Após eleger segunda cadeira do PL, Cabo Bebeto quer levar direita às câmaras municipais

Cabo Bebeto anuncia giro por Alagoas para ampliar votação de Flávio Bolsonaro

Cabo Bebeto espera que JHC anuncie apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno
Ao completar 164 anos, a malha ferroviária nacional esta sucateada e vagões deterioram ao longo dos trilhos. As estações foram dilapidadas e se transformaram em ponto de comércio, estão ocupadas por prefeituras e/ou famílias de sem teto. No interior do Nordeste, a maioria das estações e oficinas da RFFSA está tomada por mato. Algumas desapareceram.
Os setores produtivos e o governo federal perceberam, durante a paralisação dos caminhoneiros, a necessidade de mudar a triste realidade das ferrovias. Voltaram a discutir a retomada dos investimentos no modal ferroviário na mesma proporção do rodoviário. Avaliaram que, até agora, com o processo de privatização de Rede Ferroviária, 60% do que ainda resiste liga nada a lugar nenhum.

Um dos maiores exemplos é a Transnordestina, que ligaria o Porto do Pecém (CE), ao Porto de Suape (PE), num percurso que traria investimentos para as malhas dos estados, num percurso de 1.728 quilômetros. A obra até agora não anda e tem apenas um trecho de 200 quilômetros. O mesmo acontece com a ferrovia Norte-Sul, criada em 1987 com a promessa de estar concluída em 2000. Hoje, dos sete trechos previstos, há apenas dois em operação e sem previsão de novos investimentos.
A ferrovia Norte-Sul é um projeto "lendário" do Brasil, concebido com a ambição de ligar a Amazônia ao porto gaúcho de Rio Grande, cobrindo 4.155km. A obra avança lentamente. E nem mesmo o que é entregue pode ser considerado pronto. O trecho de Palmas a Anápolis (GO) foi inaugurado em maio de 2014 pela ex-presidente Dilma Rousseff, desde então, fez apenas duas viagens de carga. Em abril de 2015, foram transportadas 18 locomotivas da VLI, empresa que opera a ferrovia no trecho entre Açailândia (MA) e Palmas, os 719 km que estão realmente funcionando.
A malha de Alagoas, se tivesse recebido investimento da Transnordestina, funcionaria como elo de corredor de cargas, como ocorria no passado. Mas, os trilhos estão sucateados e os vagões enferrujam abandonados. Até o final dos anos 70, os trens serpenteavam o interior do Estado com cargas e passageiros. A produção de açúcar e melaço chegava até o Porto de Maceió pelos trilhos e aquecia a economia das cidades do Sertão, Agreste e Zona da Mata.

Os trilhos ainda estão lá, demarcam terrenos que pertence à antiga Rede Ferroviária Federal S.A. - RFFSA. Os antigos trabalhadores e passageiros contam histórias saudosistas do tempo em que os ônibus intermunicipais ou interestaduais eram para os "ricos". Hilda Maria da Silva, de 67 anos, casada, seis filhos, oito netos e quatro bisnetos, viaja constantemente de Murici para União dos Palmares, São José da Lage, Rio Largo, Maceió e até Recife. Dois filhos dela trabalhavam no serviço de manutenção de linhas de trens.
Há mais de 20 anos, o marido e os filhos ficaram desempregados. Sem condições de pagar aluguel, ela foi morar com a família na estação abandonada de Murici. Hilda não é a única a morar numa estação de trens. Hoje, mais de 60% do imóvel da Rede Ferroviária estão esquecidos, tomados pelo mato, alguns ocupados pelo poder público municipal e/ou por famílias de sem teto.
"Depois que os trens deixaram de trafegar, a estação ficou abandonada. Aqui era ponto de tráfico de drogas. Sem condições, decidi limpar parte da estação e ocupei com a família. Um antigo superintendente da Rede entendeu nosso drama e permitiu que a gente permanecesse aqui". Na antiga estação, moram as filhas de Hilda: Aliane e Alciara Bezerra da Silva e netos. Elas lembram do tempo que pegavam corona nos trens que transportavam açúcar para Maceió. "Murici era uma cidade alegre e movimentada por causa dos trens", disseram as donas de casa.

A estação de Branquinha foi arrastada pela cheia do Rio Mundaú, em 2010. "Só sobraram os trilhos", lamenta Manoel Tibúrcio Filho, de 41 anos. Quando era criança, ele costumava viajar com os pais para Maceió e União dos Palmares. "Era uma viajem fantástica e barata. Conheci muitas cidades de Alagoas viajando de trem. Antigamente não tinha van. O ônibus era muito caro e a gente que trabalhava na lavoura só podia viajar de trem", conta.
Hoje, para se deslocar de carro para União, Manoel paga R$ 5 e para Maceió R$ 11. "Se tivesse o trem, seria bem mais barato e não teria o perigo de ficar preso no protesto dos caminhoneiros", brincou Manoel.
A estação de União dos Palmares passou boa parte do tempo abandonada. Agora é ponto comercial. Os trilhos que resistiram à última cheia estão retorcidos e enferrujados. Situação semelhante ocorre em São José da Lage.
Abandonados também estão os trilhos que ligam Maceió aos municípios de Atalaia, Viçosa, Quebrangulo e Palmeira dos Índios. Na estação de Palmeira, funciona um centro cultural e a nova gestão municipal tem projeto para reativar um trecho de 33 quilômetros de linha férrea até o município de Quebrangulo, terra natal do escritor Graciliano Ramos. O projeto já está em Brasília e quer estimular o turismo cultural na região. Mas quando vai sair do papel? Ninguém sabe.
No início de 1850, O imperador D. Pedro II modernizava o Brasil com a luz elétrica, telefonia e quatro anos depois importava da Inglaterra a tecnologia do transporte ferroviário. A partir daí, o País trocou o transporte de carga no lombo do burro pelo transporte nos trilhos dos trens. A economia cresceu, junto com ela a malha que interligava as regiões e promovia o crescimento das cidades com transportes de passageiros e de cargas. Em Alagoas, as grandes usinas construíram trechos próprios e tinham suas próprias locomotivas, a exemplo das Usinas Serra, Utinga Leão, Bititinga entre outras. Tudo começou a ser desarticulado no período JK (1956 e 61), para favorecer a indústria automobilística que chegava ao País.
O Brasil abandonou a Rede Ferroviária Federal S. A- RFFSA - e apostou no modelo de economia norte-americano ao incentivar o crescimento da indústria de automóveis de cargas e de passageiros. Assim, expandiu também as rodovias. Mas, até hoje, a manutenção das estradas não acompanha o crescimento do setor.
Em maio de 2007, a lei federal 11.483 oficializava a extinção da RFFSA, que se resume hoje a trilhos enferrujados, estações abandonadas e provocou falência das pequenas cidades, sobretudo as nordestinas, que tinham economias aquecidas com o vai e vem dos trens. O Brasil de junho de 2018 é um dos poucos no mundo com dimensão continental que promoveu o desmantelamento do modal (modos ou modelo) ferroviário.
Os governos democráticos também não deram bola para o setor. Apesar de conhecer, tecnicamente, a vantagem do trem para o território brasileiro, o Ministério dos Transportes destinou em 10 anos (2007 e 2017) R$ 88,8 milhões no modal rodoviário. Ainda conforme a Confederação Nacional dos Transportes ( CNT), no mesmo período foram investidos R$ 15,8 milhões na malha ferroviária nacional. A estatística do Ministério dos Transportes confirma também que 61% das cargas brasileiras são trasportadas pelas rodovias; 21% pelas ferrovias; 14% pelo modal aquaviário (mar e rios) e apenas 1% utiliza transporte aéreo no escoamento.
Isto ocorre no País que tem 1,8 milhão de quilômetros de estradas (1.735,44 quilômetros) dos quais apenas 213 mil quilômetros são pavimentados. O Brasil não copiou.
O superintendente da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) em Alagoas, Marcelo Aguiar, reconhece que a malha ferroviária nacional e, particularmente, a deste estado, foi esquecida e as faixas de domínios (margens das linhas e das estações) invadidas. Ele percebe também falhas nas concessões para as empresas encarregadas de retomar o projeto de recuperação das ferrovias. "A gente percebe, por exemplo, a situação da malha Transnordestina que se arrasta há 20 anos. O projeto previa a ligação do Porto de Pecém (CE) ao Porto de Suape (PE) e hoje liga nada a lugar nenhum. A malha está restrita a operação de uma linha". O restante está abandonado.
Em Alagoas, a situação da ferrovia que também seria para o transporte de carga é de sucateamento. Exceto o trecho compartilhado de 36 quilômetros da Companhia Brasileira de Trens, que foi recuperado nos últimos oito anos. Antes da cheia de 2010, havia projeto de reativação também dos trens de carga e da malha até o Porto de Maceió. Mas, não evoluiu.
A cheia piorou a situação das malhas de Alagoas e Pernambuco, que ficaram imprestáveis. A de Sergipe também ficou danificada. Na malha ferroviária urbana da região metropolitana de Maceió, mais de 13 quilômetros tiveram que ser reconstruídos.
Neste período, a Transnordestina abandonou definitivamente a malha de Alagoas.
