Nativos digitais abrem mão da vida offline para experimentar o 'novo'
Gazetaweb conversou com jovens conectados; 'minha vida seria incompleta sem o celular', diz estudante
O silêncio passa a ocupar todos os espaços da sala, quarto, cozinha, banheiro, pátios de escola. O diálogo, a conversa e o bate-papo não fazem mais parte do cotidiano dos jovens, é coisa do passado. Será que o mundo agora é dos nativos digitais, e não mais dos imigrantes digitais? A resposta para isso é comprovada em uma simples roda de amigos onde dois, três, cinco conversam pelo whatsapp, a centímetros de distância. E eles não precisam se olhar. Para quê, se a rede social assume esse papel? Alguns falam até na chamada "demência digital".
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Nesta semana, a reportagem foi atrás dos nativos digitais em escolas de Maceió para conhecer um pouco mais a nova realidade que transforma a vida da juventude, para o bem ou para o mal. Letícia, Manuela e Lucas são alunos do Colégio Marista e fazem parte deste público. Letícia Soares, 16 anos, que admite ser dependente de meios eletrônicos, afirma que o ano passado foi a pior época de sua vida pessoal e de estudante, quando a interação era zero, o que travava confusões intensas dentro de casa. Na hora do almoço, ela escondia o celular no bolso e não sabia se comia, se olhava para o pai ou se mexia no aparelho.
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"Eu me prejudiquei bastante. Não conversava com minha família, não prestava atenção nas aulas, ficava em recuperação, vivia sem comunicação pessoal, totalmente alheia. Atualmente, mexo muito no celular, mas não a ponto de me prejudicar. Para mim, a vida real está acima da virtual. É preciso viver bem, enxergar o mundo à sua volta e perceber que o contato real com as pessoas é essencial", comentou Letícia.

Manuela Ramalho, 15 anos, também considera que a realidade é mais importante do que o universo digital. Questionada sobre o seu desempenho na escola, a adolescente afirma ser dependente da internet, mas por diversas causas, como pesquisar tudo que lhe interessa. "Mesmo nesta dependência, consigo separar as coisas, pois, quando estou conversando com as pessoas em um determinado local, largo o celular porque considero uma falta de respeito com o outro. Minha dependência é quando estou sozinha, aí não paro de navegar. Já me prejudiquei nos estudos, mas hoje, sei os meus limites".


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Por sua vez, Lucas de Aguiar, 14 anos, pondera que o mundo virtual deve ser separado do virtual. Ele se diz um viciado em meios eletrônicos, mas que sabe como usá-los. "Acredito que o jovem deve aproveitar tudo o que é novo sobre redes sociais, aplicativos, sites de pesquisa, mas sabendo até onde pode ir. Para mim, o celular representa diversão e não acho que a vida online deva estar acima ou abaixo do mundo real. Penso que os dois estão no mesmo patamar. Digo que minha vida seria incompleta se não existisse tudo isso".
'Denominação pesada'

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Gazetaweb
conversou com a vice-diretora do Marista, Maria Rozimeire Monteiro. Ela pontuou que o termo "demência digital" é pesado. A vantagem do jovem conectado, e não, alienado, segundo afirma, é o envolvimento com o universo de informações à sua disposição; porém, as desvantagens são mudança no comportamento do estudante, como falta de socialização e impaciência com os seus.
Segundo a pedagoga, a escola precisa trabalhar o sentimento de afetividade, e nada melhor do que desenvolver projetos culturais. Além disso, é preciso haver regras por meio de um regulamento.
"É necessário um olhar especial para os nativos digitais, porque podemos extrair muito deles, mas também, frear tamanha necessidade. Atualmente, vivemos um conflito entre imigrantes digitais e nativos digitais. Para fazer com que os jovens migrem do mundo online para o offline, desenvolvemos um projeto há três anos chamado Intervalo Interativo, às quintas-feiras, explorando atividades culturais com os próprios alunos, o que vem ajudando na socialização e trabalhando a vocação do alunado. Também temos um regulamento que não permite o uso do celular na sala de aula, a não ser que seja de cunho pedagógico, quando o professor precise utilizá-lo. São várias regras com punições, como conversar com família, advertência e punição. Só neste ano, sete alunos já foram punidos", explicou a vice-diretora.

O Colégio Contato também possui regulamento para limitar o uso dos meios eletrônicos pelos alunos. De acordo com o diretor, Ernesto Stadler, cerca de 20% dos alunos já desrespeitaram as normas. "É uma forma de trabalhar o uso dos aparelhos aqui no colégio, porque observamos uma conexão desenfreada dentro e fora da sala de aula. O lado educativo é importante, mas é preciso ter cuidado para o jovem não se desligar do mundo", expõe Ernesto, falando que a proibição é apenas na sala de aula ou em todo o colégio, em dia de prova.
"Já teve aluno que trouxe o celular no dia da prova e, antes de entrar no colégio, deixou com um vizinho que nem conhecia. Também tivemos um pai aqui que não achou interessante a apreensão que fizemos de um aparelho e disse que compraria outro para o filho. Mesmo assim, se o menino viesse a desrespeitar novamente as regras, iríamos guardar o outro. Nossa política é para o bem do aluno, e não querendo prejuízo nem afrontamento".

Outros conectados
João Pedro, Giulia e Maria Clara - alunos do Colégio Contato - também são adeptos das redes sociais e tudo o que há de aplicativo e outros dispositivos. Eles não abrem mão de navegar todo dia, seja por 10 minutos, 1 hora ou 10 horas. Alguns conectados a outros meios, como João Pedro Assunção, 15 anos. O garoto diz ser "vidrado" em vídeo games, mas alega que o uso desenfreado não o atrapalha em nada.
"Sou muito ligado a vídeo game porque gosto demais, sem falar que tira o meu estresse, inclusive em semana de prova. É inevitável porque a gente já nasceu neste mundo tecnológico", disse João.
Na visão de Giulia Maranhão, 16, sua vida seria mais complicada sem os meios eletrônicos. "Não tentei nunca me separar nem dar um tempo mínimo. Inclusive, fico agoniada quando o celular já começa a tocar. Uso o celular umas seis horas por dia, mas não de forma ininterrupta. Mesmo com este costume, acho válido este regulamento da escola porque é preciso limitar as coisas", disse Giulia.
Também entrevistada, Maria Clara, 16 anos, frisou que não consegue estudar direito, porque acaba se distraindo. "Já fiquei em recuperação, de castigo. Antes era pior, mas preciso me desligar mais", comentou a estudante.


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