A cada quatro dias, 5 crianças são vítimas de violência doméstica em Alagoas
De janeiro a junho deste ano o IML realizou o atendimento de 247 casos
"As crianças são espelhos de seus pais e certamente vão virar adultos de acordo com tudo o que receberam na infância", é o que disse Gabriella Brandão, mãe de dois filhos e blogueira no blog Dicas Pais e Filhos. Em Alagoas, centenas de crianças vivem uma infância marcada por traumas, por dor e com exemplos que podem afetar o futuro. Isso porque, a cada quatro dias, pelo menos 5 crianças de 0 a 12 anos sofreram algum tipo de agressão no estado. Os dados alarmantes são referentes ao número de atendimentos realizados pelo o Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps) do Instituto de Medicina Legal (IML).
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Segundo dados apresentados pela Perícia Oficial de Alagoas (Poal), 247 crianças foram atendidas pelo Naps no primeiro semestre deste ano. Um crescimento de 43 casos em comparação com o ano anterior. Em 2015 foram 204 atendimentos. De Janeiro a Junho de 2016 foram registrados 124 atendimentos de crianças que sofreram algum tipo de lesão corporal e 123 vítimas de abuso sexual, havendo ou não a penetração.
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A assistente social do Naps, Sonaly Freire, diz que diariamente recebe crianças vítimas de violência, mas que ainda há muitos casos desconhecidos. Muitas têm medo de denunciar, são ameaçadas. Outras, não têm noção do que está acontecendo, do que aquele ato representa. Ela explica que grande parte dos abusos são cometidos pelos próprios pais. Em segundo lugar, são os parentes próximos - tios, avôs - ou conhecidos da família. A convivência, a relação de autoridade e a proximidade traumatizam ainda mais as pequenas vítimas.
"Muitos desses atos acontecem sob ameaça. O pai ou padrasto comete o abuso sexual e, ao terminar, diz que se ela [a criança] contar para alguém vai matar a mãe, o irmão, ou até a própria vítima. Isso a deixa amedrontada, inibindo qualquer possibilidade de denunciar o abuso", explica.


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Ainda de acordo com Sonaly, a maioria dos casos que chegam no IML são denúncias feitas à Polícia Militar e ao Conselho Tutelar, que são as entidades que realizam o primeiro contato. "Geralmente a mãe, o pai, a avó, algum parente próximo desconfia de que algo de errado está acontecendo. Ao ter uma confirmação, ou conseguir alguma prova, procura a polícia ou o Conselho Tutelar para denunciar o caso e pedir que as devidas providências sejam tomadas", conta.
Em muitos casos de abuso sexual ou de agressão física, a mãe só descobre após um certo tempo. Outros casos, a própria mãe comete o crime ou protege o parceiro.
Durante a entrevista com a assistente social, mais um caso chegou para atendimento do Naps. Era um menino de apenas 10 anos que sofria agressões físicas praticadas pelos pais. A avó, que levou a criança para o atendimento, disse que já desconfiava dos maus tratos, mas nunca havia flagrado algo.
"Eu desconfiei desde o ano passado, mas não tinha provas do que estava acontecendo. De repente ele ficou calado e começou a ir mal na escola. Até que fugiu de casa e veio morar comigo. Ele já havia furtado um relógio numa tentativa inconsciente de chamar a atenção. Eu não sabia mais o que fazer", disse a avó, que preferiu não se identificar.

Segundo a conselheira tutelar, Valmênia Santos, a população passou a ter mais confiança no trabalho desenvolvido no Conselho Tutelar, e por isso o órgão é o primeiro local a ser procurado para denúncias de violência contra crianças.
"Muitas pessoas nos procuram para denunciar casos em seus bairros. Com os conselheiros elas se sentem seguras e acolhidas. É mais fácil para uma mãe, uma avó, um familiar ir até o Conselho Tutelar mais próximo, do que ir até uma delegacia, onde pode passar horas pra ser atendido", disse.
Atualmente, Maceió é dividida em 10 regiões administrativas, onde 5 conselheiros atuam em cada uma delas, para atender melhor a população.
Reincidência
Entre tantos casos registrados na capital alagoana, na última semana, um chamou a atenção da sociedade. Um homem de 30 anos foi preso no município da Barra de Santo Antônio acusado de abusar sexualmente de uma criança de apenas 5 anos. O detalhe é que ele já havia sido preso anteriormente, julgado e condenado pelo mesmo crime. Na ocasião, a violência foi contra uma garota de 10 anos. O acusado estava em liberdade condicional há seis meses.
Segundo a Polícia Civil, a mãe da vítima denunciou Fábio Leôncio da Silva, de 30 anos, que era vizinho da família. Ele teria levado a garota para a própria casa e cometido o estupro. Um primo da vítima teria visto quando ela foi levada pelo acusado e retornou com R$ 2. Ele procurou a mãe de criança, que estava chegando do trabalho e contou o ocorrido. A vítima começou a chorar ao ser questionada sobre a origem do dinheiro.
O Naps
Sonaly Freire explica que o Naps possui uma equipe de psicólogos e assistentes sociais que recebem a denúncia e realizam um trabalho com a criança para tentar obter qualquer tipo de informação. O local é repleto de brinquedos - adquiridos por meio de doações - para criar uma ambiente familiar e estimular as vítimas a ficarem livres.

Segundo Sonaly, às vezes, é necessária a utilização de brinquedos lúdicos para estimular a criança a relatar o que aconteceu.
"Tentamos realizar uma abordagem suave, pois não podemos causar mais nenhum trauma à ela. Se for necessário, utilizamos bonecos e entramos no mundo da imaginação para conseguir que ela nos relate o que aconteceu. Na maioria das vezes, o trabalho dura horas", explicou.
A assistente social conta que após essa etapa, uma das mais importantes a ser realizada é o exame que comprove a agressão física ou o abuso sexual. Sonaly explica que há toda uma preparação para que a criança se sinta à vontade de realizar os exames.
"Se necessário utilizamos os próprios brinquedos e explicamos, de uma forma didática, como se dará aquele procedimento. Ela já chega ciente do que vai acontecer e não terá medo. Mas, de qualquer forma, estaremos ao lado dela para passar conforto e segurança", contou.
Após a realização do exame de conjunção carnal ou corpo de delito, se constatado, a criança é encaminhada para o Hospital Geral do Estado (HGE), ou o Hospital Hélvio Auto, ou Maternidade Santa Mônica, para que receba medicamentos necessários para prevenir quaisquer doenças sexualmente transmissíveis, uma possível gravidez, e para o tratamento de lesões.
A Secretaria de Direitos Humanos possui um Disque Denúncia para casos de violência doméstica. Através do número 100, a pessoa pode realizar uma denúncia anônima.
