Treinador da primeira divisão portuguesa é acusado de assédio sexual

Federação Portuguesa de Futebol deve abrir sindicância para apurar o comportamento de Miguel Afonso, atual treinador do Famalicão, por denúncias da época em que dirigia o Rio Ave

Um escândalo no futebol feminino de Portugal deve levar a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) a abrir uma sindicância para apurar as denúncias de assédio sexual contra o treinador Miguel Afonso, do Famalicão, da primeira divisão do país.

Reportagem do jornal "Público" revelou que diversas jogadoras do Rio Ave, time dirigido pelo treinador na temporada 2020/21, o acusaram de assédio constante na época, incluindo envio de mensagens de teor abusivo às atletas, algumas entre 18 e 20 anos na ocasião. Ainda de acordo com o "Público", a FPF levará o caso adiante através do seu Conselho Disciplinar.

As denúncias de assédio sexual no futebol feminino têm se tornado mais rotineiras, em diversos países. Em outubro do ano passado, o início do Campeonato Feminino dos EUA foi adiado após uma reportagem do site "The Athletic" apontar uma série de denúncias contra o então treinador do North Carolina Courage, Paul Riley, que foi demitido logo após o caso. Na sequência, jogadoras trouxeram à nota outros casos na Austrália e na Venezuela.

A reportagem do jornal português cita o caso de uma jogadora de 19 anos que recebeu uma mensagem do treinador perguntando se ela gostava "de mulheres ou de homens". A atleta em questão tinha acabado de ser contratada, e logo descobriu que não era a única a receber comentários de teor íntimo.

- Perguntava-me várias vezes o que eu achava dele, se tinha algum aspecto físico que me atraísse. Chegou ao ponto de me pedir vídeos, dizendo que gostaria de ver meus movimentos corporais - contou a jogadora na reportagem.

Outra jogadora contou que o treinador lhe telefonava insistentemente para falar sobre assuntos alheios ao futebol, e só parou depois que os pais da jovem, a seu pedido, ouviram uma das conversas.

- Contei que meus pais tinham conhecimento destes contatos e ele parou.

Depois disso, a jogadora começou a perder espaço na equipe do Rio Ave, deixando de ser relacionada para partidas até acabar retornando à base. Situação parecida viveu uma terceira jogadora, que contou ao "Público" que seu namorado confrontou o treinador a respeito do teor das mensagens, e Miguel Afonso se desculpou dizendo se tratar de brincadeiras.

Miguel Afonso, de 40 anos, disse ao "Público" que não sabe "onde querem chegar com isso e que tipo de conversas são essas". Em nota oficial, o Rio Ave confirmou que "teve conhecimento de alguns comentários circunstanciais relatados por atletas, relativamente a alegadas abordagens despropositadas do treinador", mas que este, ao ser confrontado com o assunto, negou as acusações.

Ainda segundo a nota do Rio Ave, o assunto não teve seguimento "a pedido das atletas" e afirma que "ao longo da temporada (...) não foi realizada qualquer queixa formal e oficial de nenhuma atleta junto das autoridades".

Miguel Afonso deixou o Rio Ave após a campanha de 2020/21, mas o clube não relaciona a demissão às denúncias de assédio, apenas diz que "a gestão de grupo e as metodologias não eram consensuais e adequadas, não estando reunidas as condições para a continuidade do técnico".

O treinador foi contratado no dia 6 de setembro desse ano pelo Famalicão, que também em nota oficial disse que "não tem conhecimento de nenhuma acusação ou denúncia às entidades competentes que recaia sobre o técnico Miguel Afonso".