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Com eutanásia assinada, belga dá adeus com bronze: "Realizei sonho"

Marieke Vervoort havia dito que ainda pretende aproveitar tempo que lhe resta. Atleta de 37 anos sofre de doença degenerativa incurável

Os dias que viveu no Rio de Janeiro ficarão guardados como algumas das memórias mais especiais para Marieke Vervoort. A belga de 37 anos competiu na Paralimpíada sabendo que aquela seria sua despedida das pistas de atletismo. Após a prata da semana passada nos 400m, ela conquistou a medalha de bronze nos 100m da classe T52, neste sábado. A atleta, que assinou os papéis da própria eutanásia em 2008, agora encerra oficialmente um capítulo vitorioso de sua história de muita dor, mas também de glória.

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- Meu objetivo foi ter duas medalhas para encerrar minha carreira e eu realizei meu sonho. Consegui uma prata e um bronze no Rio. Eu estou muito, muito feliz, mas essas medalhas têm dois lados para mim. Por um lado, tenho a alegria de finalizar minha carreira com duas medalhas, estou muito orgulhosa por isso. Do outro, bate uma tristeza: "Ah, não, essa foi a última corrida na cadeira de rodas na minha vida". É bem difícil esse sentimento, fica preso aqui na minha garganta. Dói um pouco. Mas agora é hora de aproveitar, beber uma boa taça de champanhe. As bolhas sobem e você nem sente mais dor (risos). Eu fico rindo o tempo todo - disse a belga

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FOTO: Reuters

Na final dos 100m para cadeirantes, fez o tempo de 20s12 - seu melhor na temporada-, ficando atrás apenas de Michelle Stilwell, do Canadá (medalhista de ouro com o tempo de 19s42) e da americana Kerry Morgan (prata com 19s96).

Longe da modalidade, Marieke ainda pretende aproveitar o tempo que lhe resta ao lado de seus amigos e familiares. Apesar de deixar o mundo do atletismo, ela quer praticar um outro esporte que lhe dá "sensação de liberdade" e fazer algumas "coisas loucas".

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- Quando estiver em casa, vou aproveitar mais ainda. Terei mais tempo para meus amigos e família. Quando estava treinando para a Paralimpíada, não podia dar atenção. E vou me dedicar  outras coisas que quero fazer. Tenho uma enorme lista de desejos. Mas sei que meu próximo esporte, que já pratiquei duas vezes, é o paraquedismo indoor, que te dá uma sensação de liberdade, onde você não precisa de uma cadeira de rodas. Nunca pensei que fosse possível fazer isso. É maravilhoso, você se sente livre como um pássaro e não precisa treinar duro todo dia. Minha mente diz: "Continue treinando, continue correndo", mas meu corpo diz: "Não!". E eu preciso ouvir meu corpo, porque se eu continuar, vou regredir. Quero fazer tudo sem pressão agora e curtir cada coisinha. Dinheiro e materialismo não me dizem nada, mas me considero muito rica por ter muitos amigos que estiveram do meu lado nos momentos ruins e bons.

Fora isso, a belga ainda tem o desejo de criar um museu com seu apelido "Wilemie" (uma junção do diminutivo de Marieke, seu nome, com "Wheel", do inglês, roda, por ser cadeirante). Ela espera que a questão da legalização da eutanásia passe a ser discutida no Brasil com seu exemplo, já que, segundo ela, a sensação de ter os documentos assinados é de liberdade.

- Quero fazer coisas loucas sim. Já fiz bungee jump de 60m, mas agora vou pular de uma ponte de 80m sobre a água. Quero voar com um caça F16. O mais importante que quero é ter um museu com meu nome para inspirar outras pessoas. Escrevi um livro, colecionei todos os jornais em que apareci, todas as fotos que tiraram de mim, todos os vídeos de programas de TV e até meu carro, quando a hora chegar para a eutanásia, vou colocar lá.

Apesar de ter passado pela questão burocrática e assinado os documentos necessários para a eutanásia, ainda não foi definida a data de seu adeus. Marieke sofre de uma doença degenerativa incurável e com diagnóstico até hoje incerto. Por anos, a condição lhe causou inúmeros prejuízos físicos.

A doença surgiu com uma inflamação no pé aos 14 anos, mas logo o problema se alastrou para os joelhos e, aos 20, ela já dependia de uma cadeira de rodas para se locomover. Além de ter os membros inferiores completamente paralisados, ela possui apenas cerca de 20% da visão e sofre de dores insuportáveis.

A Bélgica legalizou a eutanásia em 2002, tornando-se 12 anos mais tarde o único país no mundo no qual não existe limite mínimo de idade para tomar tal decisão. Além das conquistas do Rio, ela ganhou duas medalhas nos Jogos de Londres 2012, nos 100m e nos 200m.

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