TRAPALHADA COLEGIADA

Após dois anos, saldo do Consórcio envolve o factoide da Sputnik V e a maracutaia dos respiradores fantasmas

Constituído em 2019, “para ser instrumento jurídico, político e econômico de integração”, o Consórcio Nordeste chega aos dois anos de existência com um saldo negativo, fracassando no cumprimento de seus objetivos.

Em vez de se converter numa ferramenta de gestão para atrair investimentos e dinamizar as compras conjuntas dos Estados nordestinos, transformou-se num biombo burocrático, sem transparência e sob suspeição, sendo inclusive alvo de investigação.

No “site” oficial do Consórcio está explicado que a assembleia geral dos governadores nordestinos é a instância máxima de deliberação. Desatualizado, ainda apresenta Luciano Barbosa como vice-governador e Rafael Brito, titular da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

Dos trinta “press releases” expedidos até hoje pelo Consórcio Nordeste, nenhum deles traz qualquer menção ou explicação acerca da malfadada operação de compras de respiradores pulmonares.

Na mais recente contabilidade da tal “governança colegiada”, destaque para R$ 626 mil, que estão inscritos como “restos a pagar não processados”. Além disto, a despesa pela emissão, só este ano, de mais de sessenta passagens aéreas e do pagamento de uma folha mensal a oito funcionários, totalizando valor superior a R$ 150 mil.

Excluindo o quase nada, sobraram dois malfeitos monumentais: primeiro, a decisão de importar 37 milhões de doses da vacina Sputnik V, fabricada pela Rússia. Uma bola fora do Consórcio, no afã de se contrapor ao governo federal. Não deu certo, pois a Anvisa não obteve acesso aos estudos referentes ao desenvolvimento desse imunizante.

Já o segundo malfeito tratou da importação de 300 respiradores pulmonares, no valor de R$ 50 milhões. Dinheiro antecipado de equipamentos que nunca chegaram.

A operação gerou recomendação das Cortes de Contas de Estados do Nordeste para suspender a transação, virou CPI no Legislativo do Rio Grande do Norte e denúncias na imprensa por suspeita de maracutaia. Em assuntos controversos, a “governança” do Consórcio adotou o silêncio como padrão.

É bem possível que a conduta silenciosa do Consórcio - em relação à compra da Sputnik V e dos respiradores fantasmas - tenha sido importada do governo Renan Filho, que sempre se distancia das perguntas advindas de quem pratica o verdadeiro jornalismo.

Ainda ao estilo, Renan Filho mobilizou a mídia e anunciou com estardalhaço a compra da Sputnik V. Chegou a recomendar pressa aos deputados na aprovação do projeto, que o autorizou a assinar o contrato. Como a aquisição da vacina russa ficou no papel, então não passou de um factoide palaciano. Sobre o lote de respiradores, houve pagamento antecipado de quase R$ 5 milhões, o tamanho do prejuízo ao erário.

No segundo aniversário do Consórcio, o governo emudeceu, como se fosse possível desvincular-se das perdas causadas pela trapalhada da tal “governança colegiada”. De resto, uma recomendação formal do Parlamento alagoano para o Estado se desvincular do Consórcio, em razão dos danos causados a Alagoas, com a complacência do governo.