ONDE INVESTIR BILHÕES?

Quase metade dos municípios está em situação de emergência, mas o governo não tem um projeto de desenvolvimento

Em plena quadra invernosa, o governador Renan Filho decretou situação de emergência em 42 municípios alagoanos, do Agreste ao Sertão. É alegada a “redução drástica das chuvas”, gerador de dificuldades no abastecimento d’água para consumo humano e animal.

O que parece à primeira vista uma situação bastante curiosa, na verdade evidencia algo trágico que vem sendo alertado: a falta de um plano de desenvolvimento integrado para Alagoas, como disse o deputado Inácio Loiola, em entrevista à Gazeta. “A prioridade é água e o uso racional das potencialidades, principalmente no nosso Sertão”, sustenta o parlamentar, que também é engenheiro agrônomo.

Sobre o alerta em torno da prevenção e defesa contra eventos hidrológicos críticos e de origem natural, como estiagens prolongadas, há até legislação em Alagoas que nos remete a 1997. É o caso da lei que trata sobre a política estadual de recursos hídricos.

Portanto, não há como o governo justificar a inação nesse campo do abastecimento d’água às comunidades situadas nos municípios em “situação anormal”, como diz o governador. Comparando dados oficiais, é possível constatar o descompromisso governamental com a causa, que realimenta a cada ano a indústria dos carros-pipa.

Em 2015, no primeiro ano de governo, Renan Filho decretou situação de emergência em 36 cidades do Agreste e Sertão. Como se o tempo tivesse parado, o decreto atual repete a história do drama que se sucede na vida do sertanejo, agora agravado pelo acréscimo de mais municípios vitimados por uma crise hídrica que parece não ter fim.

No ano passado, além da pandemia, a falta d’água representou um ingrediente a mais de desespero na vida dos alagoanos das mesmas cidades sempre afetadas pela seca. A única coisa que mudou nessa triste e recorrente paisagem foi o avanço do Canal do Sertão, a maior obra hídrica do governo federal em Alagoas, que já dispõe de mais de 120 km de água acumulada em sua calha - até o município de São José da Tapera.

Enquanto o Canal do Sertão avança, suas obras complementares não saem do papel. É aí que tem fundamento a crítica segundo a qual o governo Renan Filho não possui um projeto de desenvolvimento. Se há bilhões em caixa para operar “areia, cimento e pedra”, então por que não aportar recursos nos projetos dependentes do Canal do Sertão? E as adutoras obsoletas, qual a razão de não terem sido renovadas?

Sobre o Canal do Sertão, seria bom que o instagram oficial registrasse o abandono praticado pelo Estado. O matagal já toma conta de suas margens. Em Água Branca, já é possível visualizar raízes de árvores invadindo a calha do segmento concluído e sem uso efetivo da água disponível.

Muito além do asfalto, espera-se que os bilhões tão alardeados sejam direcionados para projetos que emancipem os alagoanos, com o fim da emergência e a garantia de água, projetos inclusivos, postos de trabalho e qualidade de vida para todos.