O PASSADO CONDENA

Pacote de bondades, no apagar das luzes do gestor e em ritmo eleitoreiro, não apaga da memória do funcionalismo as humilhações sofridas

Faltando poucos dias para esgotar seu prazo de permanência no comando do governo de Alagoas, Renan Filho resolve encaminhar um pacote de projetos de lei ao Parlamento direcionado aos servidores.

De olho na desincompatibilização exigida pela lei eleitoral, reitera sua súbita preocupação em relação à agilização da tramitação das matérias, que visam à correção de tabelas, reposição de salários e reestruturação de diversas carreiras do funcionalismo estadual.

Toda a celeridade palaciana do momento, em relação aos pleitos dos servidores estaduais, no fechar das portas da atual gestão, contrasta completamente com a postura adotada pelo governador Renan Filho, desde 2015.

Em regra, no curso desse tempo, as representações do funcionalismo só conseguiram trocar alguma palavra com Sua Excelência, a muito custo, quando furavam o séquito governamental, em algum evento fora dos muros do Palácio.

Em meio a esse frenesi de um governante com caneta esvaziada, vale rememorar passagens da insossa e distante relação oficial com as categorias do serviço público de Alagoas, em ritmo de “O passado condena”, numa alusão ao drama policial, produzido em 1971.

Para começar, vale revisitar o site do Sinteal, a entidade representativa dos profissionais da Educação, e reler a nota de julho de 2018: “O governador Renan Filho demonstra não estar preocupado com a merecida valorização dos servidores públicos. Sem nenhum diálogo com as lideranças sindicais”, segue o texto, para depois completar: “e o desrespeito é ainda maior quando se trata da Educação”.

Em 2019, até a paciência da CUT de Alagoas já havia esgotado – e olha que se trata de uma entidade composta por dirigentes politicamente alinhados com o governo Renan Filho. Em frente à SEFAZ, a manifestação cutista de solidariedade aos servidores, sufocados pelo arrocho salarial, chegou a revelar que o governo reconhece, em seu próprio balanço, o fato de ser o que menos gastou com pessoal nas últimas duas décadas.

E quem não se lembra da Lei Renan Filho, como ficou celebrizada a ofensiva do governador contra os servidores de Alagoas, especialmente os humildes aposentados e pensionistas do Estado, que foram submetidos ao desconto de 14% em seus vencimentos?

Antes mesmo de tentar corrigir o grave erro cometido, pela imposição de 14% de desconto, o governo tungou R$ 80 milhões dos minguados vencimentos dos servidores, cujos recursos nunca foram ressarcidos aos prejudicados pela sanha arrecadadora governamental.

Em quase oito anos de gestão, o governador cometeu injustiças contra os servidores mais humildes do Estado, ignorando perdas acumuladas pela inflação e precarizando a prestação de serviços à sociedade. Ao apressar-se com uma espécie de pacote de bondades, em ritmo eleitoreiro, pensa ele que as humilhações sofridas pelo funcionalismo do povo cairão no esquecimento.