INQUÉRITOS E VIDAS

Polícia judiciária envelhecida, investigações emperradas e o silêncio do governo diante de vidas que buscam justiça

Bem antes da pandemia, a Gazeta vem apurando a situação vivenciada pelo aparato de Segurança Pública do governo de Alagoas. Não necessitou grande esforço de reportagem para se chegar à conclusão de um processo contínuo de precarização do contingente de policiais disponível para realizar as atividades inerentes à área.

O governo Renan Filho - célere na construção de Cisps, tão frágeis e caros quantos suspeitos - passou longos anos com olhar indolente em relação ao contínuo e natural envelhecimento das Polícia Militar e Civil.

No caso da Polícia Civil, além do quadro resumido de agentes, é também lamentável constatar a existência de poucos delegados, a ponto de um responder por diversas delegacias, como se assim fosse possível qualificar o processo de investigação e as demandas da sociedade.

Em janeiro do ano passado, já se sabia que as delegacias estavam abarrotadas de inquéritos policiais emperrados. Estimavam-se em milhares de peças investigativas incompletas e paralisadas.

E ainda houve a trágica conclusão de que a maioria dos crimes praticados em Alagoas não consegue ser esclarecida. Praticamente, os casos rumorosos, de ampla repercussão, são os que evoluem e chegam à Justiça.

No último mês de março, a Gazeta retomou o tema, ao ter acesso à surpreendente estimativa de 50 mil inquéritos paralisados nas delegacias alagoanas. O número cresceu exponencialmente no curso do governo Renan Filho, pelas razões mencionadas.

Já em maio, a promotora Karla Padilha, que trata do Controle Externo da atividade Policial e Tutela da Segurança Pública, informava acerca das prioridades elencadas e dos requisitos indispensáveis em inquéritos policiais. Da parte do Palácio, reinou uma espécie de silêncio obsequioso, padrão também repetido pelo imediato da SSP.

Agora, quando a Gazeta publica a mais recente pesquisa do Instituto Sou da Paz, em que o governo de Alagoas não informou seus dados sobre esclarecimentos de homicídios, a 62ª Promotoria de Justiça da Capital, sob responsabilidade Karla Padilha, tem conhecimento de que boa parte dos inquéritos acerca de crimes violentos, letais e intencionais não aponta nem autoria.

Se não há boa vontade na liberação de estatísticas que confrontam a propalada eficiência oficial, talvez a pista para entender o que está acontecendo esteja simplesmente na linha das prioridades palacianas. É fato o corte de 90% das despesas destinadas à informação e inteligência na área da Segurança Pública de Alagoas, conforme constatou o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, versão 2021.

Diante das recomendações efetuadas pela promotora Karla Padilha, o governo Renan Filho e a SSP preferem o padrão governamental de ignorar a gravidade dos fatos. Como ter inquérito policial de qualidade, célere e municiado de informações sem condições investigativas?

Enquanto não há resposta, prevalece a agonia de milhares de alagoanos, que, muito além de um número constante em inquéritos, significam vidas clamando por justiça.