Dose dois urgente

Em nome da vida e da economia, é hora de um mutirão para resgatar 150 mil alagoanos do atraso no ciclo vacinal

“Hoje, graças ao esforço mundial de vacinação que permitiu a erradicação da varíola, os médicos formados nas últimas décadas só conhecem essa doença por meio de ilustrações de livros antigos. E os menores de 40 anos não têm nem mesmo a marca da vacinação”.

O relato faz parte do livro “Recusa de vacinas – causas e consequências”, lançado em 2013 pelo infectologista Guido Levi, três anos antes do início da queda progressiva da cobertura vacinal no Brasil, que alcançou o pior momento no ano passado, já em plena pandemia da Covid-19.

Antes da pandemia, há dois anos, o Ministério da Saúde já apontava nove tipos descontinuados entre dez vacinas necessárias às crianças com até um ano de vida. A queda vacinal motivou o reaparecimento do sarampo, por exemplo, doença já considerada erradicada pelos esforços do passado.

A descontinuação da política de efetiva aplicação de antígenos é um ato imprevidente que avançou a partir de 2015, com risco de retorno de doenças já controladas. Quem não se lembra do sofrimento das crianças acometidas pelo vírus da poliomielite, cujo controle foi conquistado por planejamento de campanhas de vacinação?

Agora, com as estatísticas aferindo o recuo da pandemia pela ação comprovada das vacinas, percebe-se um movimento preocupante no meio da população: o aumento da legião de pessoas que resolveram atrasar ou renegar a segunda dose contra a Covid-19.

No Brasil, são quase nove milhões de pessoas que não retornaram aos postos para o fechamento do ciclo vacinal. Nesta condição, Maceió já registra mais de 26 mil moradores, enquanto o Estado já soma cerca de 150 mil alagoanos que estão indiferentes à segunda dose.

Antes dessa tragédia ainda vivida por todos, a OMS já elencava a “hesitação em relação às imunizações” como um entre os dez maiores desafios da saúde pública global. Como combater a pandemia de “fakenews” sobre as vacinas, que propaga o vírus da desinformação pelo mundo afora?

Para resgatar o gigantesco exército de desgarrados da segunda dose no País, que já equivale à população do Ceará, é preciso o engajamento de todos. O Ministério Público do Rio de Janeiro, por exemplo, já entrou na luta, expedindo recomendações às prefeituras, no sentido da “busca ativa” de pessoas que não compareceram aos postos na data marcada para a segunda dose.

Em Alagoas, já está passando da hora de ocorrer uma efetiva articulação das autoridades e instituições, em todos os níveis, com vista ao resgate de quase cinco por cento da população. São alagoanos desguarnecidos em sua imunização, uma vez que não completaram o ciclo vacinal.

No âmbito local, cabe uma intensa campanha, um mutirão em nome da vida e da economia, conjugando as diversas instâncias de poder, as representações da sociedade, o setor produtivo, os estudantes e a classe trabalhadora.

Eis a responsabilidade do poder público: convocar a inteligência criativa, mobilizar a indústria, o comércio e o setor de serviços, realizar a busca ativa, sugerir promoções e trabalhar o convencimento dos que foram vitimados por falsidades disseminadas pelas redes sociais. Afinal, ninguém merece o retrocesso a essa altura dos acontecimentos.