AINDA MAL NA FITA

Estudos recentes atestam a continuidade das disparidades e a falta de ação do governo na área do desenvolvimento humano

Em 2015, no início do governo Renan Filho, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada publicou a edição anual do Atlas da Vulnerabilidade Social. Ao investigar o acesso de pessoas aos bens e serviços que caracterizam o bem estar de vida do ser humano em sociedade, o IPEA

constatou que Alagoas estava mal na fita.

Passados cinco anos da gestão estadual, no final de 2019 e ainda antes da crise imposta pela pandemia, um estudo elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, tendo o IBGE como base de dados, apontou Alagoas como Estado detentor da maior desigualdade de renda do País.

Paramos no tempo antes mesmo dos reflexos produzidos pela grave crise sanitária, quando as estatísticas já expunham, entre outras, uma crueldade contra os jovens alagoanos de 18 a 24 anos: 34% deles encontravam-se desempregados, bem superior à média nacional de 27%.

Agora, o IPEA, ao expor uma análise acerca do desempenho do mercado de trabalho em meio à Covid-19, mostra Alagoas ostentando a quarta maior taxa de desemprego no País, com 20% dos alagoanos em idade de trabalhar fora do mercado. É um percentual muito acima das

médias do Nordeste e do Brasil.

Já outro estudo sobre “Os impactos da pandemia na economia alagoana”, de autoria do professor Cícero Péricles, com selo da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da UFAL, explicita dados que bem demonstra a crise em segmentos econômicos tradicionais – e anterior à Covid-19. Pelo IBGE, as áreas de comércio e serviços obtiveram, respectivamente, taxas negativas de 5,5% e 2,4%.

A renda média do trabalho em Alagoas gira em R$ 1.623,00, bem abaixo da média aferida no Brasil e ainda inferior ao valor nordestino. O drama da pobreza social alagoana pode ser sintetizada no número de pessoas inscritas no CadÚnico e no programa Bolsa Família: 1,7 milhão de pessoas recebem benefícios, correspondendo a 52% dos alagoanos.

Com dados atuais, o estudo do professor desvenda a falta de uma efetiva política de produção de alimentos em Alagoas. Enquanto o Estado ocupa apenas 85 mil hectares com plantação de cereais, leguminosas e oleaginosas, Sergipe, nosso vizinho e menor do País, possui o

dobro de área cultivada.

Assim como antes do governo Renan Filho, continuamos dependendo da importação de gêneros de primeira necessidade, principalmente de Pernambuco, Sergipe e Bahia. O governo não conseguiu avançar com a agricultura familiar, geradora de renda e postos de trabalho.

Se não conseguimos nos emancipar da produção de alimentos cultivados por outros Estados, também permanecemos dependentes dos programas de transferências de renda e dos aportes federais em Alagoas. Nem mesmo dispondo do Fecoep como instrumento, o governo do Estado foi capaz de implantar uma efetiva rede de proteção social, sobretudo para amparar a pobreza extrema.

Enquanto os dados e os estudos acadêmicos demonstram o empobrecimento da ampla maioria da população, o governo não esconde que dispõe de generoso caixa para ‘areia cimento e pedra’, em detrimento de iniciativas voltadas para o desenvolvimento humano e a inclusão social.

Portanto, seguimos mal na fita.