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“Inverno cripto”: por que a crise da FTX se espalhou pelo mercado

Alta volatilidade dos ativos digitais e dependência do mercado de recursos que estavam na corretora explicam contágio, dizem especialistas

Há menos de um mês, a FTX, até então a segunda maior corretora de cripto do mundo, estava avaliada em US$ 32 bilhões (R$ 166,2 bilhões). O patrimônio do empresário e investidor Samuel Bankman-Fried, dono da exchange, era estimado em US$ 16 bilhões (R$ 83 bilhões). Em poucos dias, a empresa mergulhou em uma crise sem precedentes que a levou à falência com uma velocidade espantosa, o que contaminou grande parte do mercado global de criptomoedas.

A nova versão do chamado “inverno cripto” – período em que as cotações de criptomoedas caem de forma expressiva, levando a perdas enormes para os investidores que possuem esses ativos em carteira – vem sendo marcada por quebras de empresas, pânico sobre perdas generalizadas, corrida por saques e incertezas em relação ao futuro.

“A volatilidade desses ativos é naturalmente grande, com altas vertiginosas e baixas muitas vezes ainda mais rápidas”, explica Isac Costa, professor do Ibmec e sócio do Warde Advogados, em entrevista ao Metrópoles. “Há um ditado de que o mercado sobe de escada e cai de elevador. No caso do mercado cripto, ele sobe de elevador e cai de montanha russa.”

“Uma das maiores destruições de valor da história”

A descida dos criptoativos pela montanha russa foi impulsionada pelo colapso da FTX, que desencadeou uma crise em escala global.

No início de novembro, uma reportagem publicada pelo site CoinDesk revelou que a FTX passava por uma delicada situação financeira. O balanço patrimonial da Alameda Research (empresa-irmã da FTX) tinha 75% de ativos não líquidos – que não podem ser negociados rapidamente.

Os outros 25% desses ativos eram compostos pelo token FTT, um tipo de criptoativo emitido pela própria FTX. Ficou claro que a companhia teria de vender muitos desses tokens no mercado, o que derrubaria a cotação do ativo.

Quando a reportagem foi publicada, a corretora sofreu uma corrida de saques. A situação piorou depois que o CEO da Binance, Changpeng Zhao, afirmou que também venderia todos os tokens emitidos pela concorrente que estavam em sua carteira, o que correspondia a mais de US$ 2 bilhões (R$ 10,3 bilhões).

Na prática, a FTX quebrou após utilizar dinheiro dos clientes em operações de crédito e acumular um passivo estimado em US$ 10 bilhões (R$ 51,9 bilhões) com cerca de 1 milhão de credores, inclusive brasileiros. Com a corrida por saques, as cotações desabaram e o ativo derreteu.

O episódio causou uma crise de confiança generalizada no mercado cripto, o que vem afetando também cotações de ativos que não estão relacionados ao caso FTX.

“No caso da FTX, houve uma das maiores destruições de valor da história em termos de escala. Esse valor era exagerado. Está claro que a empresa não tinha condições de valer US$ 32 bilhões”, aponta Isac.

“O problema da FTX foi que os recursos depositados pelos clientes eram emprestados pela empresa e investidos ao seu bel-prazer. Eles dispunham livremente desses recursos”, explica o professor do Ibmec. “O modelo de negócio consistia em alocar os recursos dos próprios clientes em alguns projetos cripto e fazer com que esses recursos voltassem para a FTX para que, a partir daí, eles saíssem de novo e fossem emprestados novamente, criando uma espiral positiva, uma máquina de imprimir dinheiro. Isso funcionaria perfeitamente desde que as pessoas continuassem confiando na FTX e você não tivesse uma corrida de saques.”

Efeito dominó

Segundo Isac, o mercado de criptomoedas se contagiou pela derrocada da FTX por causa do “elevado grau de dependência” de alguns projetos cripto dos recursos que estavam depositados na corretora.

“Esses recursos passaram a estar indisponíveis em razão da insolvência da companhia deflagrada por uma corrida de saques”, afirma. “O peteleco inicial foi a reportagem do CoinDesk, que tirou o véu e mostrou a farsa. As pessoas entraram em pânico, começaram a tentar tirar o dinheiro e descobriram que não havia dinheiro. Numa situação como essa, a única coisa que se pode fazer é fechar a porta da loja.”

No início desta semana, a plataforma de crédito de criptomoedas BlockFi entrou com um pedido de proteção contra falência nos Estados Unidos, dias depois de ter suspendido saques em meio ao caos gerado pela quebra da FTX.

A BlockFi informou que tem cerca de US$ 257 milhões em caixa (R$ 1,3 bilhão) e mais de 100 mil credores, além de ativos e passivos que podem chegar a US$ 10 bilhões (R$ 51,9 bilhões).

A empresa tem ainda cerca de US$ 355 milhões (R$ 1,8 bilhão) em criptomoedas atualmente congeladas na FTX. O valor se soma a outros US$ 671 milhões (R$ 3,4 bilhões) em empréstimos à Alameda Research.

Segundo um relatório divulgado pelo Morgan Stanley no dia 30 de novembro, desde a falência da FTX o mercado “está reavaliando o valor de todos os tokens emitidos por projetos” e verificando “se eles foram usados ​​como ativos para alavancagem”. Outro relatório, da Bernstein, apontou que, desde que estourou a crise da FTX, cada vez mais usuários vêm preferindo armazenar seus ativos digitais em carteiras privadas, em vez de recorrer a corretoras.

Também entrevistada pelo Metrópoles, a senadora mexicana Indira Kempis Martínez, entusiasta das criptomoedas e autora de um projeto de lei que transforma o bitcoin em moeda de curso legal no México, afirma que a crise da FTX e o abalo causado no mercado podem até fortalecer o debate sobre a regulamentação das moedas digitais – nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que regulamenta os serviços vinculados ao mercado de criptoativos no Brasil.

“Isso abre a porta para as pessoas fazerem perguntas sobre por que esses casos acontecem e como evitá-los. A lamentável ‘má publicidade’ pelo menos chama atenção para nossa agenda”, diz a senadora. “Com todos os riscos, devemos nos antecipar discutindo o que o Estado deve fazer e não apenas reagir quando esse tipo de situação acontece.”

Volatilidade “natural”

Para Isac Costa, a grande volatilidade dos criptoativos é intrínseca ao próprio mercado cripto. As causas são diversas. “Há vários motivos para essa volatilidade. Você não tem fundamentos econômicos claros para determinar os preços, fica ao sabor das forças de demanda e oferta, que são muito sensíveis. Para o bem e para o mal, os preços sempre reagem com exagero. A volatilidade é natural tanto na alta quanto na baixa para essa classe de ativos”, afirma o professor do Ibmec.

Segundo Isac, a crise atual não é a primeira – e não significa que o mercado cripto esteja fadado a um inverno permanente. “Desde que o mercado cripto começou a ter expressões monetárias, com o bitcoin tendo cotação expressa em dólar, já tivemos diversas crises. Essa não seria a primeira bolha do mundo cripto. O que se discute hoje é se vai ser a última”, diz.

“O que muda nesse mercado em relação às outras bolhas que conhecemos é que, aparentemente, ele consegue ressurgir. É muito incomum o mercado perder até 80% do seu valor e não ser fadado ao esquecimento”, destaca Isac.

Indira classifica a turbulência atual no mercado cripto como “normal”. “São ciclos que acontecem desde o início. É algo que depende da oferta e da procura. Agora, acho que as dúvidas ou medos das pessoas não são sobre a conversão, mas sobre a oferta”, afirma. “Golpes sob esquemas perversos levam muitos a tirar conclusões precipitadas. Justamente por isso, é preciso trabalhar na proteção dos usuários, mas o resto são ciclos do mercado, como acontece em praticamente tudo que tem valor.”

Será um longo “inverno”?

Um relatório da corretora Coinbase divulgado no dia 15 de novembro projetou que o atual “inverno cripto” pode ser mais longo do que se previa inicialmente. Segundo o boletim, a falência da FTX “não ajudou a melhorar o sentimento dos investidores em relação a essa classe de ativos”, o que representou um “revés para a indústria” cripto.

“A recente turbulência do mercado e a ausência de grandes compradores deixaram a classe de ativos vulnerável, estendendo potencialmente um já longo inverno cripto”, dizem os analistas da Coinbase.

“É difícil fazer profecias, mas a duração desse inverno prolongado está fazendo com que as pessoas percebam que o mercado cripto não é só você apostar que o número vai subir ou cair”, explica Isac. “Quando a maré baixa, você consegue ver quem está nu. Isso ajudou a desvendar quais são as empresas que não se mantêm de pé, como era o caso da FTX. Eram projetos que estavam calcados simplesmente na especulação.”