Black Friday indica Natal mais fraco do que o previsto, diz CNC

Em setembro, a CNC havia estimado uma alta de 3,8%, em termos reais (descontada a inflação), para as vendas natalinas de 2021, na comparação com o ano passado. Essa projeção tende a ser revisada para baixo em breve

O economista Fabio Bentes, da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), avalia que o desempenho da Black Friday neste ano sinaliza um Natal mais fraco para o comércio do que o previsto inicialmente.
"A Black Friday funciona como um termômetro", afirma. Neste ano, o dia foi marcado por lojas vazias e negócios mornos no online, cenário bem diferente de outros anos, quando cenas de multidões nos estabelecimentos se espalhavam nas ruas.
Em setembro, a CNC havia estimado uma alta de 3,8%, em termos reais (descontada a inflação), para as vendas natalinas de 2021, na comparação com o ano passado. Essa projeção tende a ser revisada para baixo em breve, de acordo com Bentes.
Em 2021, a entidade estima uma queda de 6,5% para as vendas da Black Friday no Brasil em termos reais. É a primeira retração projetada em cinco anos, desde 2016.
"A inflação é a grande vilã. É a principal responsável pela projeção de queda", indica Bentes. "Com a inflação, os juros vêm subindo para o consumidor", completa.
Foram quase 5,4 milhões de pedidos online até as 16h, segundo monitoramento da Neotrust, empresa especializada em dados de vendas virtuais. O volume é praticamente igual ao registrado no mesmo período no ano passado. O faturamento estava em R$ 3,7 bilhões, 5% acima do contabilizado em igual período de 2020.
O resultado preliminar, no entanto, não considera o efeito da inflação. Em outubro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) aumentou 1,25%, maior para o mês desde 2002. Em 12 meses, o acumulado alcançou 10,67%. Trata-se da maior marca desde janeiro de 2016 (10,71%).
Nesta sexta-feira (26), o BC (Banco Central) informou que a taxa média de juros no Brasil para empréstimos subiu 2,2 pontos em outubro, frente a setembro, para 32,8% ao ano. É o maior nível desde o início da crise de coronavírus, quando o percentual estava em 33,3% ao ano.
Bentes explica que, além de ter diminuído o poder de compra do consumidor nos últimos meses, a pressão inflacionária também aumentou os custos de operação do varejo. O impacto nas lojas desafiou descontos mais agressivos nesta Black Friday, segundo ele.
Em 2021, uma das particularidades que chamaram atenção de analistas foi o interesse de parte dos consumidores por promoções de itens básicos, como alimentos, bebidas e produtos de higiene. Eles apareceram nos relatórios dos primeiros dias de promoção do Reclame Aqui.
Conforme Bentes, essa busca pode ser associada, em parte, à crise econômica. É que, em tempos de aperto no bolso, o consumidor tenta encontrar preços mais acessíveis de mercadorias de primeira necessidade, enquanto os gastos com bens de valor maior são travados.
"O que está por trás disso é o temor do consumidor de comprometer ainda mais sua renda com prestações. Ele sabe que, se pisar no acelerador agora, os próximos meses podem ser difíceis. O cenário de inflação não vai ser revertido no curto prazo."