Projeto resgata histórias de 50 personalidades da literatura alagoana

Do primeiro livro ao primeiro movimento literário, "Vultos da Literatura Alagoana" é uma iniciativa da Academia Alagoana de Letras

Mesmo que em uma conversa informal, Alberto Rostand Lanverly, presidente da centenária Academia Alagoana de Letras (AAL), faz questão de repetir solenemente: “A missão desta casa é iluminar”. Para ele, essa também é a premissa do projeto ‘Vultos da Literatura Alagoana”, que estreia neste sábado (25), no Youtube e nas redes sociais da AAL, e traz luz às histórias e obras de personagens alagoanos que, por vezes, são esquecidos ou ignorados no estrelado céu de Alagoas.

Serão 50 dias e 50 histórias. Assim como nos outros oito projetos virtuais que a entidade lançou desde o início da pandemia do novo coronavírus, a iniciativa ocorrerá por meio de vídeos pré-gravados, lançados de segunda a sexta-feira, às 10h - com exceção da estreia, que ocorre neste sábado. O acesso é gratuito.

Em tom conversacional, os vídeos trarão histórias contadas por membros da Academia Alagoana de Letras e por outros reconhecidos literatos do estado, como Péricles Brandão, Homero Cavalcante, Cacá Diegues e Raquel Rocha. Personagens importantes na aventura literária alagoana - e que são desconhecidos pelo grande público - figuram na extensa lista de personalidades escolhidas a dedo, que inclui: José Maria de Melo, Moreno Brandão, Mendonça Júnior, Bráulio Leite, Manoel Diegues, Costa Rego, Dias Cabral e Judas Isgorogota.

“O objetivo é levar notícias e a memória alagoana para os alagoanos e para todo o mundo. Tem coisas que nem eu mesmo sabia, como a história de Judas Isgorogota, que na verdade se chamava Rodrigues de Melo”, adianta Lanverly.

Agnelo Rodrigues de Melo (1901 - 1979) foi um escritor alagoano de origem humilde e que teve que enfrentar o ego e o poderio de outros escritores da sua época para firmar-se como intelectual. Ele publicou 15 livros, 1 novela e ainda 5 livros infantis.

Com menção honrosa até na Academia Brasileira de Letras, alagoano Judas Isgorogota enfrentou resistência dos contemporâneos locais - Foto: Arquivo AAL

“Ele tinha facilidade para escrever e fazia poesias para distribuir, o que chamou a atenção de importantes nomes da época, como o Jayme de Altavila (o pai). Ele pensou que não teria futuro aqui e, de repente, sumiu de Maceió”, relata o presidente da AAL, empolgado.

“Certo dia, Jayme o encontrou numa rodoviária no Recife. Judas estava trabalhando em um restaurante e guiando turistas. Jayme já sabia das qualidades do colega, então disse que ele se organizasse e voltasse para Alagoas. - Me procure! ele falou”, continua Lanverly.

Ao retornar para Alagoas, Jayme Altavila conseguiu um emprego para Rodrigues de Melo, que trabalhou como corretor em um jornal da época. “Isso já faz 100 anos. Com o tempo, o jornal permitiu que Judas fosse publicando seus poemas, o que despertou a ira de um confrade nosso, o escritor Rodriguez de Melo” - completa Alberto Rostand Lanverly.

A semelhança no nomes dos escritores fez com que o intelectual Rodriguez de Melo começasse a difamar Agnelo Rodrigues de Melo, que acabou ganhando o pseudônimo de Judas Isgorogota, que, hoje, possui até uma menção honrosa da Academia Brasileira de Letras (ABL).

“São histórias como essa, de homens e mulheres que fizeram história por meio da literatura e que, muitas vezes, as pessoas só conhecem porque dão nome a uma rua ou avenida”, reclama Rostand.

O primeiro livro de um alagoano

É o nono projeto em formato virtual desenvolvido pela AAL, que se adaptou às limitações da pandemia - Foto: Reprodução

Até o século 18, o ensino em Alagoas ficou a cargo dos preceptores e padres-mestres, estes ensinavam somente aos filhos das famílias mais abastadas, que, posteriormente, acabavam enviando os rapazes para concluírem os estudos em algum renomado centro educacional fora do estado. Essa história se repete, como relata o presidente da AAL, e explica a demora para que um movimento literário autêntico surgisse em terras alagoanas.

Foi somente em 1754 que frei João de Santa Ângela publicou, em Lisboa, seu livro de sermões e poesias; é a primeira obra de um alagoano de que se tem notícia.

“Ele nasceu em Santa Maria Madalena do Sul, hoje Marechal Deodoro, em 1705. Em 1754 colocou no papel um livro inspirado na obra de outro padre, Beato João Duns Escoto”, conta Rostand Lanverly.

O livro do padre alagoano foi tão bem aceito pela sociedade da época que, um ano depois, em 1755, frei João de Santo Ângelo (como também era chamado) escreveu a Oração Panegírico-fúnebre na morte do fidelíssimo e augustíssimo Rei D. João V, por ocasião da morte do rei de Portugal.

“Foi o precursor das letras para o estado de Alagoas. E há outras histórias de pioneirismo no projeto Vultos da Literatura Alagoana. Temos a história de Eunice Lavenére, a primeira mulher na Academia Alagoana de Letras, de Heliônia Ceres, que teve seus livros recomendados para vestibulares por muitos e muitos anos, além de Guimarães Passos, o primeiro alagoano a ingressar na Academia Brasileira de Letras”, conta o presidente da AAL.

“Queremos que pessoas de todas as idades se identifiquem com um personagem, uma personalidade alagoana. Que veja-os por perspectivas diferentes. Teotônio Brandão Vilela, por exemplo, foi um escritor comparado ao romancista Murilo Mendes, mas enveredou pela política e acabou ficando mais conhecido somente como político”, continua.

Projetos na pandemia

É o 9º projeto em formato digital lançado pela Academia Alagoana de Letras desde o início da pandemia do novo coronavírus. No ano passado, a instituição lançou iniciativas como o “Alagoanidades”, que discutia a identidade alagoana, e este ano convidou jovens escritores para integrar a conversa sobre literatura, no projeto “Dois dedos de prosa e poesia”.

“Envolvemos mais de 200 pessoas nesses projetos, mobilizamos pesquisadores e cumprimos esse objetivo: oferecer conhecimento e sabedoria às pessoas. Todos foram excelentes, mas eu noto que este está causando uma expectativa maior”, revela o presidente da AAL.

Os vídeos de todos os projetos estão disponíveis no Youtube da Academia, onde também serão lançadas as produções do “Vultos da Literatura Alagoana”.

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