Grupo leva arte e transforma Praça da Faculdade, no Prado, em circo a céu aberto

Trupe se apresenta toda segunda-feira e toma conta do lugar com palhaçaria, malabares, equilibrismo, acrobacias, dança e música

"O circo, para mim, remete à infância. Sou do interior do Estado e lá o único contato que eu tinha com a arte era por meio do circo. Lá não tinha cinema, não tinha teatro, a música não era de qualidade, mas, à época, sempre tinha os circos itinerantes que passavam pela cidade. É realmente nostálgico lembrar disso. Depois que cresci e enveredei pelo campo das artes cênicas, fiz questão de me aproximar do circo para que a arte circense continue, para que a palhaçaria tenha continuidade, assim como toda a magia envolvida. Eu preciso do circo", a narrativa é de Magnun Angelo, que, junto com outros artistas, idealizou o grupo Bora Circar. Em Maceió, a trupe leva os encantamentos do circo principalmente para a famosa Praça da Faculdade.
Durante as noites de segunda-feira, a praça, localizada no bairro do Prado, nem parece a mesma. Enche-se de "magia". É malabares de um lado, palhaçaria do outro, equilibrismo, acrobacias, música, dança. Tudo o que o circo tem direito, ou melhor, quase tudo, pois todo o espetáculo é a céu aberto e de graça. Espetáculo esse que os artistas preferem chamar de encontro. 
E é justamente por meio desse encontro que a arte acontece em sua forma mais democrática. Ela é manifestada no espaço público, local onde inevitavelmente a comunidade transita e que é ocupado por todas as classes sociais. 

Grupo se apresentou na Feirinha Cool durante os fins de semana de janeiro - Foto: FOTO: arquivo pessoal

O grupo é despretensioso no que diz respeito a retorno econômico, está interessado mesmo em fazer arte e promover cultura; uma verdadeira resistência nos tempos atuais.
E eles são receptivos. Convidam a população para ser não apenas o público, mas, em especial, para participar e a aprender as modalidades circenses. "Com a nossa frequência durante às segundas-feiras no espaço público, lá na Praça da Faculdade, as pessoas que já frequentam o local e os moradores da região começaram a aparecer para participar, seja aprendendo a manipular os malabares, seja assistindo ao grupo ou treinando as técnicas circenses. Assim percebemos que os nossos objetivos iniciais se tornam concretos", cita Wanderlândia Melo, também uma das idealizadoras.
"Às crianças se aproximam com mais facilidade, porque chama a atenção e elas não têm esse medo nem limite de chegar e conversar com o outro. Já o adulto acaba criando uma barreira maior", acrescenta Magnun.

O grupo convida a população a interagir e a aprender a arte do circo  - Foto: FOTO: arquivo pessoal

O Bora Circar tem pouco menos de um ano de existência e não possui um número fixo de integrantes, ele "é do tamanho das pessoas que aparecem". Tem o pessoal que o idealizou e os que "estão de passagem", parte desses últimos são artistas de rua que passam por Maceió e rapidamente se integram à rotina do grupo.
"Artistas de rua se conhecem muito facilmente", cita Wanderlândia, explicando que essas pessoas comumente trabalham nos sinais e tem como estilo de vida a liberdade e o amor pela arte. Atualmente, além dos alagoanos, participam das reuniões do Bora Circar artistas da Argentina, Pernambuco, Bahia e Minas. 
Como já é de conhecimento geral, no Brasil, a arte de rua não garante nem o sustento da própria manifestação. Apesar de o Bora Circar não ter como objetivo o retorno financeiro, após as apresentações em eventos nos quais são convidados a intervir, eles passam o "chapéu" e o público contribui se quiser e com quanto puder. 

Bora Circar recebe convites para intervir em eventos  - Foto: FOTO: arquivo pessoal

No entanto, diversos integrantes do Bora Circar, e que também fazem parte de outros grupos artísticos nas mais diversas modalidades, trabalham unicamente com a arte e "penam" para conseguir o retorno financeiro. Para muitas pessoas, a manifestação artística ainda não é considerada um trabalho.
"É difícil. Tem muita gente que não vê a arte como meio de trabalho, enxergam de maneira estranha. Inclusive, é comum agirem com discriminação. Quando eu faço malabares no sinal me pedem currículo, me mandam ir arrumar um emprego. Ignoram a arte e o que ela representa. Ignoram que ela pode ser um trabalho, ignoram os gastos com figurino e maquiagem, ignoram a nossa produção. Mas tem gente que só pela reação que esboça faz valer toda a nossa dedicação. O sorriso e o abraço que nos dão são realmente gratificantes", disse Henrique Nagope, outro dos idealizadores do grupo, artista visual e estudante de Teatro. 

Integrantes do Bora Circar durante encontro na Praça da Faculdade - Foto: FOTO: arquivo pessoal

"A maioria de nós vem do teatro e todos nós temos afinidade com o circo. Já treinávamos separadamente e aí o que fizemos foi nos juntar para termos um pouco mais de força e de organização, para que assim pudéssemos fortalecer ainda mais a cena cultural do nosso Estado. Porque tem muitas capitais pelo Brasil onde os circenses treinam, trocam ideias e ensinam; e a gente tem esse mesmo objetivo. As pessoas que encontrarem a gente treinando e se interessarem podem chegar junto que a gente vai fazer uma iniciação com prazer", explica e faz o convite Magnun.
Entre os tantos contos e feitos do grupo talvez o mais interessante a ser destacado seja o fato de que os integrantes do Bora Circar, pelo menos os que estão desde o início, nunca trabalharam em um circo "de verdade", aquele de lona. Para todos eles, porém, o circo é uma inspiração de manifestação artística pela pluralidade e interação que é permitido. 
Para quem ainda não conhece o pessoal do Bora Circar, além de poder encontrá-los na Praça da Faculdade toda segunda-feira, outra oportunidade acontece neste final de semana, quando a trupe estará na Feirinha Cool, na Praça das Aroeiras - Ministro Freitas Cavalcanti, na Ponta Verde. O Bora Circar se apresenta unicamente no sábado, às 18h. O evento promove o consumo consciente e é regado de arte e cultura. Para contatar o grupo, acesse o perfil do Instagram clicando aqui.