Filme aborda impactos da chegada de resort em cotidiano da Barra de Santo Antônio

“Progresso”, do cineasta argentino Eloy González, quer inspirar a convivência “do novo com o velho” para garantir a sobrevivência das tradições locais

Não é apenas um hotel. A partir dele, estradas hão de brotar. Por elas, carros, gentes e histórias hão de trafegar. Nesse trânsito, amores, costumes e outras tantas narrativas nascerão e morrerão. Então, não é apenas um hotel, mas um marco inevitável de mudança. “Um progresso que chegou tarde por aqui” - argumenta o cineasta argentino Eloy González, que essa semana iniciou as filmagens de “Progresso”, um filme de ficção, mas que quer registrar o que foi, é, além de um tanto do que será a Barra de Santo Antônio, no litoral alagoano, após a construção de um resort de proporções faraônicas.

Radicado na Barra de Santo Antônio, González conta dois outros longas-metragens e adianta, em seu melhor portunhol, que, assim como em “Diamantis” (2017) e “Ilha da Crôa” (2020), “Progresso” também vem do olhar inquieto que, há 15 anos, se apaixonou pelo paraíso misterioso que é Alagoas. Não é um filme antiprogressista, “pelo contrário”, afirma o diretor, “é um documento importantíssimo e histórico, que registra o processo de transformação cultural, turístico e social que vive a cidade com a construção do hotel. O passado vai tomar um novo valor para refletir sobre a palavra ‘progresso’”.

O diretor se refere ao maior investimento turístico da história recente de Alagoas. Em Barra de Santo Antônio, um resort, que custará R$ 150 milhões, está em construção e deve ser inaugurado em meados de 2022, quando o filme também será lançado. O empreendimento, com seus 518 quartos, já mudou e deve transformar para sempre a paisagem da Praia de Carro Quebrado, além de mudar a rotina dos habitantes do município. Tudo isso se funde na ficção alegórica de Eloy para refletir sobre o que é progresso e como ele pode conviver ou destruir identidades.

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“Desde meu último filme, ‘Ilha da Crôa, paraíso perdido’, mantive o interesse de falar sobre uma ilha afundada há trinta anos e sobre uma praia paradisíaca [Carro Quebrado] privatizada em 2020 e que gerou o desmatamento da Mata Atlântica para o avanço da cana-de-açúcar. Era também sobre o pouco carinho dessas mudanças com a história da cidade”, relata o cineasta, antes de afirmar que “Progresso” é uma “contradição” em relação ao filme anterior.

“’Ilha da Crôa, paraíso perdido’ foi realizado durante a pandemia, com um pensamento mais apocalíptico. Hoje, vivemos momentos históricos muito importantes, a pandemia está acabando e a reestruturação do espaço e do tempo traz mudanças econômicas, políticas, sociais e culturais que precisam da nossa consciência no presente. Refleti muito sobre esses acontecimentos e percebi que era necessário capturar esse tempo com o cinema”, defende.

E assim ele fez.

TRAP E QUADRILHA

No filme, Vinícius vive entre o sonho de trapstar e as histórias do avô, um tradicional quadrilheiro - Foto: Divulgação

“Progresso” conta a história de Vinícius, um cantor de trap de 20 anos que mora com o avô, um velho quadrilheiro da cidade, e sua mãe evangélica. Além de alimentar o sonho de ser um trapstar, o rapaz trabalha como servente de pedreiro na construção de um grande hotel na Ilha da Crôa. Quando chega em casa, cansado do serviço, ele adormece no sofá enquanto o avô lhe conta histórias de outros tempos. “A relação entre eles dois será um contraponto entre o passado, com a cultura de quadrilha do avô, e o presente, com a cultura trap do neto”, explica González.

Bem no estilo do livro “As mil e uma noites”, o filme explora os sonhos do jovem trapeiro para falar da vida na Barra de Santo Antônio de décadas atrás, quando o cenário era composto por casas de palha cercadas pela mata fechada. Também será possível visitar a construção da igreja de Nossa Senhora da Conceição e do Cruzeiro Bom Jesus dos Navegantes - consequências das passagens dos holandeses por Alagoas.

No filme, a vida sem ponte ganhará as telas. E o diretor conta empolgado que ter uma canoa como meio de transporte rende boas histórias. Também veremos a intimidade complexa de personagens aparentemente simples, como pescadores e cortadores de cana, crocheteiras, além dos muitos turistas e estrangeiros que já passaram pela cidade litorânea de Alagoas e deixaram alguma coisa. “Enquanto vivemos as aventuras nos sonhos do jovem Vinícius, a construção faraônica do Hotel Vila Galé avança, cada vez mais rápido”, explica o diretor, que também assina o roteiro do longa. Um dia, Vinícius voltará do trabalho na obra e encontrará seu avô morto. O mais, seria spoiler.

A ficção, explica Eloy González, fala da convivência do progresso com a memória diante de mudanças inevitáveis, da convivência do velho e do novo, do que podemos chamar de herança. Apesar de crítico do progresso pelo progresso - como evidenciado em trabalhos anteriores - ele enxerga a construção do hotel como uma mudança de vida para os habitantes de Barra de Santo Antônio, algo que dará autonomia ao comércio local e “mais dignidade e oportunidades”. O custo histórico, ele analisa, vai depender da maneira com que lidaremos com a chegada do empreendimento. “Como um mar, em torno da ensolarada ilha da vida, o progresso canta noite e dia sem fim”.

ENTREVISTA

Cineasta argentino mora em Alagoas há 15 anos e diz que, ao chegar, se sentiu transportado aos anos 1960 - Foto: Divulgação

O diretor conversou com o Caderno B, da Gazeta de Alagoas, e deu detalhes da produção em andamento e a relação dessa proposta com a história de Alagoas, que chama de seu lugar, apesar de ter nascido na Argentina.

Gazeta de Alagoas. Você nos disponibilizou o argumento do filme e, confesso, fiquei surpreso com sua reflexão sobre o progresso. Você pode falar mais sobre isso?

Eloy González. Desde o século 15, as histórias do Brasil e seus povos estão eternamente entrelaçadas aos portugueses. Hoje, como se o tempo fosse circular, em pleno século 21, os portugueses do Hotel Vila Galé redescobrem a cidade e chegam com o maior investimento já visto em Alagoas. A cidade vive uma festa, colocando as coisas em ordem. As pessoas estão entusiasmadas, com esperança de ter uma vida melhor, deixarão para trás a falta de emprego e as dificultades. Se escuta falar sobre o hotel que chega, sobre o progresso, e junto a isso a pandemia lentamente vai finalizando. Mas esse passado daquela ilha de pessoas simples, com poucos carros e uma grande rusticidade local não continuará. O progresso vai levar tudo e vai trazer outra realidade que ainda não conhecemos. Por isso, acho que, além da ficção, vou fazer do filme um importante documento histórico, registrando o que vai mudar e nunca mais voltará. É inevitável.

Eu vejo a mudança como definitiva e é apenas o começo, concorda? Mas eu sei que você é um militante pelo patrimônio cultural. Como isso tudo se relaciona?

Você está certo. Essa grande construção faraônica não vai parar aqui. Ela traz consigo outros hotéis e rodovias conectando cidades. É o final de uma era. O interessante é que aqui esse avanço chegou tarde. Eu pisei na Barra de Santo Antônio pela primeira vez em 2005, ainda não tinha a ponte, se atravessava de canoa. Todo mundo na ilha já aguardava a chegada desse primeiro grande progresso. Naquele momento, eu conheci um lugar detido no tempo, como se eu tivesse viajado aos anos 1960, sem carros, praticamente, sem internet, com varias árvores de frutas e coqueiros pelas ruas, uma igreja construída em 1753 e não muito valorizada. Naquela época, lembro que conheci um cruzeiro construído pelos holandeses em 1900, era uma montanha de lixo. Hoje está sendo valorizado. Resgatado. Um detalhe não menor, as ruas de paralelepípedos são, nas belas cidades culturais, como Olinda, em Recife, as ruas mais bonitas. Aqui, infelizmente ainda é muito diferente. Então eu quero, hoje, através do cinema, falar que além de o progresso ser imparável, podemos manter essa cultura viva. Não podemos perder o valor de nosso passado, nossa arquitetura nas praças, nossas árvores históricas, as ruas e fachadas antigas.

Como tem sido o processo de gravação e de recrutamento do elenco? Os atores são da própria cidade?

As gravações serão por etapas. Já filmamos uma parte na construção, com o ator principal, um jovem cantante de trap que trabalha no hotel. Agora, começarão as cenas dentro da cidade, com as outras histórias que compõem o filme. Aqui na cidade não tem atores profissionais, eu já estou acostumado a trabalhar com não-atores e refletir suas realidades ou parte delas, já que sempre inicio com uma história real da pessoa e vou mudando seu relato para entrar numa espécie de ficção documental. A ideia central do filme chega e junto com ela já o que eu quero falar para a sociedade. Aí, naturalmente vão aparecendo as personas e com ela os personagens. Como eu moro aqui, é só “pescar” essas cenas que eu preciso, estar sempre atento. Eu, originalmente, venho do teatro. Um ponto fundamental no teatro é tomar distancia nas situações reais para depois recriá-las. E aqui em Barra de Santo Antônio, cada dia é uma aventura nova. As filmagens serão finalizadas junto com a obra do Hotel Vila Galé.

No pré-roteiro, observei certas dualidades. Quadrilha/trap, passado/presente. É uma provocação sobre o embate entre gerações?

Não. Ao contrário. O trap aqui é um estilo marginal, ainda não é aceito como em outras partes do mundo, onde os cantantes de trap são, por exemplo, os que têm mais visualizações nas redes sociais, os que mais músicas vendem. Muitos são estrelas internacionais. Aqui, o Hip-hop e o Trap se relacionam com a delinquência, porém o trapero é um poeta, um sonhador, um artista. Neste mundo globalizado, já não podemos falar de cultura, temos que falar de culturas. A quadrilha, por exemplo, é uma dança do passado que pode ser esquecida com esse progresso que chega. Logo, a ideia é fazer conviver essas duas culturas, que se conectam pelo simples fato de uma estar chegando e a outra “indo embora”, talvez não. Esperamos que não.