Editoras independentes de Alagoas apostam em autores locais e representatividade

Mercado competitivo e dificuldade para distribuir livros: conheça duas empresas alagoanas que buscam se destacar no meio editorial

Correndo por fora, editoras independentes apostam em autores alagoanos e em novas experiências envolvendo seus lançamentos, que priorizam escritores e escritoras alagoanas e valorizam a diversidade. Duas dessas editoras, a Sapatilhas de Arame e a Trajes, encerraram o ano passado com diversos lançamentos e realizações, mas ainda enfrentam um desafio: a distribuição.

A Sapatilhas de Arame, fundada e tocada pela artista gráfica, editora e realizadora audiovisual Bruna Teixeira (Bruca), existe desde 2014. A empresa sempre foi o grande guarda-chuva em que a artista conseguiu desenvolver seus projetos. Em 2016, ela queria publicar seu livro, mas não encontrava uma editora viável. Foi quando resolveu apostar e definir-se como editora independente. Deu certo.

“Foi a autopublicação que nos firmou e firmou a linha editorial da Sapatilhas de Arame. Ano passado, editamos quatro projetos, temos mais um para sair em breve. Ao todo, são seis publicações”, explica Bruca.

Entre os livros lançados pela editora independente está o inédito ‘Segunda Pele’, de Isis Florescer, que é o primeiro livro publicado por uma mulher trans em Alagoas. Além dele, a Sapatilhas também foi a responsável pela nova edição do livro ‘Concerto em Dor Maior’, do alagoano Otávio Cabral. Os lançamentos estão à venda no site www.brucateixeira.com.

“Já editei três livros de poesia e, nos três, é possível ver uma parte gráfica muito rica, além de um audiobook, uma aposta minha na experiência dos leitores”, explica Bruca, que afirma que a Sapatilhas de Arame também é uma maneira de lutar por mais inclusão no mercado editorial.

Livro "Segunda Pele", de Isis Florescer, chega acompanhado por audiobook que traz autora declamando poesias - Foto: Divulgação

“A Sapatilhas tem um atravessamento LGBTQIA+ e de Direitos Humanos. Então, buscamos as vozes trans, travestis, as vozes lésbicas, ou, por exemplo, vozes como Otávio Cabral, que é um homem idoso. Nosso interesse é publicar vozes de corpos que falam além das palavras, falam com suas existências. Isso dificilmente é possível em grandes editoras”, afirma Bruca.

Outro diferencial da editora é a preocupação com a interação e manuseio dos livros publicados. Em um álbum de figurinhas sobre pinturas rupestres de Olho D’água do Casado, interior de Alagoas, a Sapatilhas de Arame acrescentou um QR Code que direciona o leitor para uma visita virtual às pinturas originais. Nos livros supramencionados, os audiobooks trazem os próprios autores declamando suas poesias.

“Eu nunca quis propor, enquanto editora, que o papel fosse somente um depósito de letras e palavras. Quando o autor chega até mim, começa o meu trabalho. Como também sou artista gráfica, sou eu quem desenvolve a diagramação, o projeto, a capa, a partir das palavras é que começa a invenção do livro”, reflete Bruca Teixeira.

“Tem sempre um diferencial da textura do papel, a gramatura, a cor desse papel, ou a montagem dele. Afinal, o próprio Segunda Pele, da Isis, mostra uma montagem diferente, foi um projeto desafiador. Um dos livros, feito com a ilustradora alagoana Ana Noronha, traz as ilustrações destacáveis. O leitor pode tirar dali e fazer um quadro, por exemplo”, continua a editora.

TRAJES

Editora Trajes exibe catálogo de escritores alagoanos ou radicados no Estado - Foto: Reprodução/Site Trajes

A Trajes, editora independente idealizada por Nando Magalhães, Luiz Roberto Farias e Nilton Resende, deu seus primeiros passos em 2015, foi formalizada em 2017 e somente em 2019 comemorou seu primeiro lançamento, a versão reeditada do (já) clássico alagoano “Diabolô”, do próprio Nilton Resende. De acordo com Nando, a ideia era criar algo que mudasse fundamentalmente a relação autor-editora.

“Queríamos que pudesse dar mais autonomia para os autores no processo de publicação, sendo economicamente mais justo, mas também, que tivéssemos um processo editorial mais atento, com um olhar mais próximo e efetivo”, explica o empresário.

Até agora, a Trajes publicou cinco títulos: Diabolô (contos, do Nilton Resende), Travessia e Sopro (poemas, do Bruno Ribeiro), Azul como um Rottweiler (poemas, do Milton Rosendo), Fantasma (romance, do Nilton Resende) e A Mecânica das Pontes (romance, da Brisa Paim).

O empreendimento editorial possui dois selos, o Trajes Lunares, voltado para a publicação de obras ficcionais e poéticas, especialmente as produções de autores alagoanos (ou radicados em Alagoas) contemporâneos; e o Trajes solares, que publicará obras científicas e acadêmicas, com um olhar especialmente voltado para a elucidação daquilo que, para Nando Magalhães, podemos chamar de “Cultura Alagoana”.

“Neste último serão publicadas teses, dissertações e ensaios, contemporâneos e clássicos, minuciosamente editados para que alcancem também públicos diversos e não-especializados”, explica o editor.

DESAFIOS

Bruca Teixeira, editora da Sapatilhas de Arame - Foto: Cortesia

Trabalhar com arte, de acordo com Bruca Teixeira, é naturalmente desafiador. Para ela, o ano de 2021, quando artistas puderam ter acesso ao financiamento proporcionado pela Lei Aldir Blanc, provou que o mercado criativo de Alagoas precisa apenas do incentivo certo e, esse incentivo, não é apenas financeiro.

Tanto para a Trajes quanto para a Sapatilhas de Arame, o maior desafio está na distribuição. “Conversei com Isis (autora) para fazermos o lançamento na Livraria Leitura. Isso, para nós, significava a ocupação de um espaço tradicional que não recebe editoras independentes alagoanas. Um dos meus pleitos, lá na livraria, com a gestora, foi justamente esse: como é que a gente faz para ter uma prateleira e vender nossos produtos?”, questiona Bruca.

De acordo com a editora, grandes livrarias possuem uma política que exclui as editoras independentes, Segundo ela, uma livraria que atua em Maceió cobra R$ 1 mil mensal e 50% do valor de capa para “apenas expor o livro na prateleira”.

“O custo é totalmente inviável pra qualquer editora independente. Então esse é o nosso grande gargalo, a distribuição”, afirma Bruca.

“Esses espaços que, minimamente, poderiam dar abertura para distribuirmos em Alagoas, são inviáveis. Os únicos títulos que nós temos na Livraria Leitura, por exemplo, são os da Graciliano Ramos, que é uma editora de Estado, que não conta. É massa que esteja lá, mas é uma voz muito seletiva”, opina a editora. “Temos publicações empacotadas, espera desse nó da distribuição desatar”, conclui.

Nando Magalhães, editor da Trajes Editora - Foto: Acervo Pessoal

Nando Magalhães, da Trajes, confirma o problema como um desafio do segmento. Ele explica que, atualmente, a editora utiliza as redes sociais e a loja virtual, no site www.trajeseditora.com.br, para vender. “Evidentemente, grande parte das nossas vendas está concentrada em Alagoas; entretanto, temos observado a presença de compradores de todas as regiões do Brasil, especialmente do sudeste”, informa Nando.

“Temos livros à venda em livrarias no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entretanto, no geral, percebemos que a negociação com livrarias atualmente, e especialmente para editoras de pequeno porte – como a nossa -, é financeiramente penosa, basicamente pagamos para ter os livros expostos nesses espaços. Impressionantemente, em Alagoas ainda não conseguimos negociar com livrarias para que vendam nossos livros”, diz o editor.

Apesar dos desafios, as editoras planejam mais lançamentos para 2022 e comemoram a recepção do público.

“A editora tem se mostrado autossustentável. Ou seja, isso quer dizer que através das nossas vendas (e pré-vendas) o processo de publicação tem sido possível sem trazer prejuízos tanto para a editora, quanto para os autores envolvidos”, adianta Nando Magalhães, da Trajes.

“É preciso evidenciar que esse contexto é possível porque contamos com parcerias e colaborações que tornam esse processo como um todo mais barato. Além disso, nós, da editora em si, não somos remunerados pelo trabalho que investimos em cada publicação. Entretanto, acreditamos que este é um projeto que a longo prazo tende a tomar uma dimensão na qual esse retorno financeiro seja efetivo”, conclui o editor independente.