Drag queens de Alagoas se inscrevem em possível versão brasileira de Rupaul's Drag Race e refletem sobre a cena local

Artistas falam sobre o espaço que têm localmente e também dos impactos do programa norte-americano na arte drag alagoana

Há 17 anos na noite, Lavínia Burtner acompanhou gerações de drag queens alagoanas passarem pelos palcos e explorarem a inspiração que vinha do programa Rupaul’s Drag Race, reality norte-americano que vem ganhando versões ao redor do mundo. Ela mesma bebeu dessa fonte e, com o anúncio de que a produtora do programa está em busca de uma queen brasileira, entrou na corrida para, quem sabe, provar que as artistas alagoanas têm carisma, singularidade, coragem e talento.

As inscrições estão abertas até o dia 26 de agosto e diversas drags de Alagoas já afirmam que estão no páreo. Em um formulário de 59 perguntas, as interessadas em participar da possível versão brasileira do programa devem compartilhar informações sobre suas trajetórias, características da personalidade e habilidades, como cantar, dançar, dublar, maquiar e costurar. Além disso, as drags também enviaram um vídeo, seguindo as orientações da produção.

Luidson Evaristo, que dá vida à Lavínia Burtner, conta que já se inscreveu e que participar da versão brasileira do programa seria coroar uma trajetória de superação e força.

“Antes de ser Lavínia, eu era um menino afeminado, que amava maquiagem, moda, dança e tudo que chamasse atenção dos outros, foi através da arte drag que eu canalizei todas as energias em um ser só. Assim me encontrei na vida e na arte”, conta.

Lavínia Burtner é inspiração para drags da nova geração e também está no páreo pela coroa - Foto: Felipe Miranda

“A possibilidade de estar no reality, além de ser uma realização pessoal, pois sou apaixonada pela Mama Ru e todo seu império, seria a chance de mostrar o poder da queen alagoana para o mundo. Inspirar jovens a lutarem por seus sonhos, incentivar mais seres a serem livres e felizes, espalhar muito amor e alegria através do meu talento”, afirma Lavínia.

Experiente na cena, ela diz acreditar que o programa terá uma representante de Alagoas, visto que o estado é considerado uma potência nacional entre as drag queens brasileiras.

“A versatilidade de gêneros e estilos das queens alagoanas é algo imenso. Temos vários artistas com potencial para competir. O cenário drag alagoano é vasto e qualificado, temos de hostess à cantoras, meu bem, aqui tem arte drag pura, somos um grupo imenso, indo do litoral ao sertão, de brilho, luxo e fixação”, afirma a drag.

Liderando uma nova geração de drag queens em Alagoas, Maju Shanii também se inscreveu para a possível versão BR do programa. Ela diz que a arte drag local foi diretamente influenciada pelo reality e que as drags de Alagoas têm potencial para brilhar na competição.

Maju Shanii tem um trabalho musical autoral e pondera sobre desafios da cena local - Foto: Woulthamberg Rodrigues

Interpretada pelo ator Erick Hanon, Maju Shanii nasceu em 2015 e apresenta nos palcos e boates performances ao vivo, com músicas autorais. O ator deu vida à Maju impulsionado pelo programa norte-americano.

“O programa impactou diretamente na forma como se faz drag mundialmente. A minha estética de drag é muito baseada em algumas drags do programa, porque foi lá que tive meu primeiro contato com a arte drag. Então, Rupaul’s Drag Race é uma grande referência para todas as drags e segue reverberando. Em Alagoas não seria diferente”, diz.

Pronta para competir, ela já pesa os desafios que vai encontrar e o impacto da versão brasileira na cena drag.

“Acho muito importante um programa como esse, que vai dar visibilidade nacional e internacional às drags brasileiras. Algumas drags, principalmente do Norte e Nordeste, ainda não têm tanta visibilidade, até porque há uma supervalorização do Sul e do Sudeste. Eu acho que não me daria bem na competição, mas não custa nada tentar”, revela.

“Eu chegaria no programa assustada. Porque tem algumas skills [habilidades] que a competição exige e que eu não tenho, como costurar e fazer penteados em perucas. Acho que eu teria receio desses desafios que envolvessem costura e penteado. Além de ser drag queen, eu sou ator, sou bailarino clássico e canto. Acho que essas habilidades, talvez, me trouxessem mais facilidade em alguns desafios, como o Snatch Game, e o de composição musical. Teria medo num primeiro momento, mas no decorrer dos episódios eu ia pegar o jeito desse processo. Mas, principalmente, eu iria curtir a experiência e o momento, além de aproveitar a oportunidade de mostrar meu trabalho”, detalha Erick Hanon.

CENA LOCAL É SUBESTIMADA

Artistas buscam por mais espaço, independente de reality internacional - Foto: Cortesia

Outra drag da nova geração que está inscrita na seletiva é Athena, que defende que a cena local é repleta de talentos não descobertos. “Alagoas tem algumas dificuldades, muitas pessoas ainda não têm uma mentalidade aberta para a arte e outras questões que envolvam a comunidade LGBTQIAPN+. Apesar disso, tenho muitas vivências positivas e histórias pra contar. As oportunidades boas ainda são escassas, mas acho que essa situação tende a melhorar”, diz ela.

“Entrar no RuPaul’s significaria uma oportunidade há muito aguardada, a oportunidade de viver através da arte, ou pelo menos a oportunidade de tentar. Representaria um passo na minha carreira e na representatividade drag brasileira como um todo que, até então, era apenas um sonho”, completou Athena.

Para Maju Shanii, a cena local é subestimada e tem uma tradição de arte drag, mesmo com muitas artistas pagando para trabalhar.

“Alagoas tem nomes muito emblemáticos quando se fala da arte drag. Poderia citar várias, como a Lavínia Burtner, que, pra mim, é uma das grandes artistas drags que a gente tem, que muito me influencia como artista e pessoa. Não só a mim, mas muitos artistas drags da nossa geração. Tem também a Paty Maionese, a Hagatta Laser, Melissa Vogue, Lalacra Nox, Rebecca BigMac. Também temos muitos artistas novos, uma das que eu queria citar é Leviathan,uma drag incrível, de um segmento que não tem aqui na cidade, o Clubber, e é um ponto muito forte pra ela”, aponta Shanii.

“A arte drag é vista de forma ambígua em Alagoas. Espero pelo dia em que a arte drag seja extremamente valorizada em Maceió e no estado. Ainda somos subvalorizados, os cachês são baixos, ser drag em Alagoas é basicamente pagar para ser artista. Óbvio que essa não é a realidade de todas, mas é da grande maioria”, continua.

“Ser artista drag vai além do financeiro. Tem amor envolvido. É por isso que eu e tantas outras continuamos. Ser drag é um instrumento político e modificador da sociedade. Tem a ver com afetividade, eu sou artista porque eu amo, porque eu nasci pra ser artista. Ser Maju Shanii é algo que eu amo, eu faço porque eu amo e porque eu sou”, finaliza Erick Hanon/Maju Shanii.

EXPECTATIVA

Zatara diz que usa arte drag para provocar discussões e levantar bandeira da luta por liberdade - Foto: Reprodução/Instagram

Drag, DJ e gamer, Kassandra Zatara, interpretada por Kalvin Monteiro, surgiu em 2017. Ele vem utilizando da arte para lutar contra as violências sofridas pela população LGBT+ e diz que se inscrever na seletiva é mais um passo em direção ao reconhecimento e o respeito.

“É através da arte que me permito lutar pelos direitos LGBTQIAP+ e quebrar estigmas que a sociedade tem acerca dessa arte e dos artistas. Precisamos ter coragem pois somos linha de frente nessas batalhas. Um dos principais desafios atualmente é a desvalorização da nossa arte e também da cultura em geral”, conta Kassandra.

“Acredito na possibilidade e torço muito para que seja escolhida uma de nós. Entregamos arte de qualidade com poucos recursos, tirando dinheiro do nosso bolso para sustentar nossa arte, e merecemos reconhecimento. Por isso, apoio que todas as drags de Alagoas se inscrevam e possam levar nossa história adiante”, concluiu.

O cabeleireiro Rauny, de 27 anos, dá vida a drag Alejandra Moican Vortex. Ele relata que a arte drag chegou em sua vida em 2013, quando expôs ao mundo seu sonho.

Drag comanda banda de ritmos regionais e fala em versatilidade e torcida - Foto: Cortesia

“Antes de me tornar drag queen eu era um adolescente tímido. Em 2013, a escola em que estudei anunciou um show de talentos, então vi nessa oportunidade a minha chance de dar vida a uma arte que sempre sonhei em exercer. Alejandra representa toda força que eu preciso pra enfrentar meus medos e minhas dificuldades, quando me transformo sinto que posso ser quem verdadeiramente eu sou e enfrentar tudo que vier. Ser drag me ajudou a superar meus traumas pessoais e me encontrar”, diz Rauny.

Em 2021, Alejandra conquistou os títulos de drag oficial de Alagoas e da Marcha LGBTQIA+. Ela diz que pretende entrar no Rupaul’s Drag Race para consolidar sua trajetória.

Animada com a possibilidade de embarcar no mundo dos realitys, Gina Kynnors é mais uma drag alagoana inscrita na seletiva do programa. Recentemente, a artista representou as drag queens alagoanas no palco do São João de Maceió, onde cantou com a banda Quadrilhão.

“Sou uma artista que se renova a cada momento em que se apresenta, a cada aparição, são 12 anos levando muita alegria e ousadia, com performances que vão da comédia ao emocional de quem assiste”, conta ela.

“É de extrema força ser queen e se posicionar em diversos lugares, ser forte e mostrar que também estamos e temos espaços. Alagoas é um portal de artistas incríveis, com potencial diferenciado para tudo, vamos simbora correr atrás da coroa, nos unir e representar o nosso estado, independente de quem for selecionada, a torcida está formada e pronta”, finalizou.