Djavan lança 'D', álbum escrito em Alagoas e que celebra o amor e a esperança

Em entrevista exclusiva, artista fala do processo de composição, música com filhos e netos e show em Maceió

Ainda criança, na porta de casa, em Maceió, Djavan aproveitava o colo da mãe para ouvir histórias e contemplar constelações. Veio dela, conta o alagoano, o amor pela natureza e pela vida, no embalo da musicalidade que dona Virgínia Viana exibia. Ele também acompanhava a progenitora, que era lavadeira, até à beira do rio, onde ouvia na voz dela as canções que tocavam na rádio. Assim, ia tateando, descobrindo a vida, seus dissabores e delícias, entendendo devagar que tudo viraria música.

Esse exercício de contemplação e sede de viver e cantar guiam a festa de romance e esperança que é ‘D’, 25º álbum de Djavan. O disco já está disponível em todas as plataformas digitais e traz 12 faixas, que acabam por desnudar o artista de hoje, que — aos 73 anos, 40 de carreira, e consagrado como um dos maiores nomes da música brasileira de todos os tempos — insiste em experimentar e rejeita a ideia de parar de compor.

Morando no Rio de Janeiro desde os 23 anos, Djavan revela que para construir ‘D’ (Luanda Records/Sony Music) foi preciso voltar para casa. Metódico, compôs quase todas as melodias no Rio, a partir de junho de 2021, mas veio para Alagoas, em janeiro de 2022, escrever as letras das canções, batizadas pelo céu, o sal e o sol de Maceió — e de Milagres, onde o artista mantém uma casa de praia.

O álbum, uma espécie de bodas de prata do artista, chega como uma ode aos novos dias, ao fim do tempo lúgubre que paira sobre o Brasil há alguns anos, chega como uma proposta à felicidade e à construção de um mundo novo após a pandemia de Covid-19. É ainda um convite para decifrar Djavan, seus pensamentos artísticos e suas metamorfoses. O título-enigma, ‘D’, nasceu das conversas entre Djavan e Giovanni Bianco, designer brasileiro de presença internacional (já trabalhou, por exemplo, com Madonna), diretor criativo e responsável pela capa e pela direção dos clipes do novo álbum.

Djavan canta com filhos e netos na última faixa do álbum 'D' - Foto: Gabriela Schmidt

Produzido e arranjado por Djavan, a obra traz uma impressionante safra de canções, todas com a marca indiscutível do autor: melodias sinuosas, harmonias ricas, encontro de diversos gêneros e ritmos, e o pop djavânico que não poderia faltar. Há, inclusive, hits instantâneos, como “Num mundo de paz”, uma melodia irresistível sobre base de funk tradicional, as baladas “Primeira estrada” ou “Quase fantasia”, a folk “Iluminado”. Há, também, algumas canções das mais sofisticadas que Djavan fez na vida. Em canções novas, “D” parece conter todas as vertentes da criação de “D”javan.

“ÊH, ÊH!” E “ILUMINADO”

Duas das faixas do novo álbum tiveram origens distintas das outras dez. O samba “Êh, Êh” e “Iluminado”.

Feito em parceria com Zeca Pagodinho, “Êh, Êh!” foi lançado por Alcione em 2014. Djavan sentiu vontade de mostrar também a sua maneira de fazer essa música. Então, o autor de “Flor-de-lis” e “Fato consumado”, com seu jeito próprio de fazer samba, recria, no “D”, essa faixa, que é feita para quem gosta de curtir o violão de Djavan.

Já “Iluminado”, que desponta como terceiro single de “D”, foi composta na praia, diante do mar de Alagoas, com filhos e netos, todos reunidos. A melodia nasceu em Djavan a partir de uma batida de ukulele que sua filha Sofia fazia na praia. Em pouco tempo, a canção estava pronta, música e letra, simples, praiana, solar – “Tudo é possível/Como um dia de sol/É jogar o anzol/Esperar/Pra ver o que vem”. Djavan acha que é a canção mais popular do disco e lhe proporcionou um velho sonho: gravar com todos os filhos e netos músicos, dos mais velhos e já profissionais Flavia Virginia, João e Max Viana, aos filhos mais novos Sofia e Inácio, e os netos Thomas Boljover e Lui Viana.

Em clima de Dia dos Pais, o clipe de "Iluminado" foi lançado ontem (14). Confira.

UM JOVEM DE 73 ANOS

Nada de Parkinson. Havia quem afirmasse que o artista sofria com a doença, mas Djavan, agora, nega o rumor e explica que os tremores que tinha na cabeça se deviam ao chamado tremor essencial, uma disfunção causada pela carência de sono. Ele diz que está melhor e que não sente peso algum com a idade, faz tudo que sempre fez.

O que ele também faz, aliás, é sucesso entre as mais diversas gerações, inclusive entre os mais jovens. Recentemente, o artista atingiu a marca de um bilhão de reproduções no streaming. No dia 10 de setembro, Djavan se apresenta no Palco Mundo do Rock in Rio, onde, afirma, fará um show de grandes sucessos com novos arranjos.

Em março de 2023, o artista deve desembarcar em Maceió com a turnê do novo disco. É um desejo, diz ele, iniciar a tour de ‘D’ em sua terra natal.

Do seu sítio na região serrana do Rio de Janeiro e solar como o disco novo, Djavan fala sobre o processo de criação do álbum, da relação com Alagoas e com a família, sobre a pandemia e o tempo. Na entrevista concedida por telefone, ele também discorre acerca da parceria inédita com Milton Nascimento e diz que não vai parar sua busca incessante por surpreender a si mesmo a cada trabalho.

Djavan tem 73 anos e 40 de carreira - Foto: Gabriela Schmidt

Você tem processos muito específicos quando se trata dos seus discos. Como foi a produção de ‘D’, as idas ao estúdio, as composições?

Djavan. Comecei a compor o disco em junho de 2021. Compus seis ou sete canções e comecei a gravar em outubro. Deixei algumas para fazer quando vem aquela inspiração com os instrumentos, músicos, engenheiros etc. Toda aquela atmosfera de gravação é inspiradora. Gravei o disco basicamente, quase todo, gravei oito canções, até janeiro de 2022, quando saí de férias e fui pra [São Miguel dos] Milagres. Escrevi as oito letras das 8 canções que estavam gravadas. Esse é o meu processo. Eu primeiro gravo, primeiro faço a música, com a harmonia, gravo, faço os arranjos e quando tá tudo pronto é que eu vou botar a voz. É quando eu faço a letra. Eu trouxe, aí de Milagres, oito letras prontas. Cheguei aqui, comecei a gravar em fevereiro e foi até abril, faltavam quatro canções. Fis e, em abril, o disco estava pronto.

Então, esse tempo que você passou em Alagoas trouxe frutos para a composição do álbum?

Maravilhosos. Foi muito bom. Quando eu fui praí em janeiro, eu pensei “vou escrever pelo menos umas três letras, se eu escrever três letras, eu tô salvo”. Escrevi oito, foi inacreditável! Alagoas me deu uma inspiração enorme.

Podemos dizer que o clima de Alagoas acabou casando com a ideia de construção de um mundo mais romântico e esperançoso que vemos no disco?

Eu acho que o solar das letras, o solar do álbum, se deve muito a isso, essa coisa livre, aberta que eu vivi aí nas minhas férias. Eu já tinha a intenção de escrever sobre um futuro luminoso. Induzir as pessoas a pensar positivamente sobre o futuro. O lugar onde eu estive fazendo contribuiu muito para isso.

A gente estava vivendo um período de muito obscurantismo, a pandemia trouxe muita tristeza, negatividade. Eu queria justamente o oposto, queria um trabalho que trouxesse luz e uma mensagem de otimismo para as pessoas, queria dizer para as pessoas que se nós estamos tristes não quer dizer que será assim para sempre.

Falando em pandemia, como foi o período de isolamento? Aquele momento impulsionou essa ideia do álbum?

2021, quando eu comecei a compor, estava em plena pandemia e fiz tudo como mandava o figurino. Fiquei isolado, ora aqui no Rio [de Janeiro], ora no sítio, pela região serrana, e um período que eu fiquei também em Maceió. Sempre isolado, sempre de máscara, sempre guardando todos os protocolos que eram recomendados pelos médicos. Foi um momento difícil, a gente ficar sem comunicação praticamente, tudo on-line, cansou. Chegou um momento que perdeu o valor essa coisa de comunicação on-line, que é tão profícua, tão importante. Como era só isso que a gente tinha, acabou ficando pesado, ficando chato. Está passando, ainda não acabou, mas está quase indo pro final. É preciso, ainda, que se tenha todos os cuidados, eu ainda uso máscara, lavo as mãos, uso álcool em gel o tempo todo. Não dá pra lutar contra o óbvio. Saúde é tudo.

“D” é um disco pop. Dito isso, você não abriu mão dos seus arranjos caprichados e complexos, assim como as harmonias, digamos, difíceis. O que isso representa para você?

Isso obedece a minha busca pela diversidade sem abrir mão dos valores musicais que me formaram. Eu tenho uma formação musical que abrange todos os elementos que eu uso nas minhas músicas, nas minhas gravações. São os arranjos que eu faço usando novas texturas, novas ideias musicais. Na questão da letra, estou sempre buscando um elemento novo, um formato diferente. Enfim, é uma busca incessante, eu não vou parar nunca de querer surpreender a mim mesmo a cada trabalho que eu faço.

Justamente por conta da precisão da sua obra é que a gente se pergunta, acerca dessa sua primeira colaboração com Milton Nascimento, por que agora?

Antes tarde do que nunca. Eu também achava estranhíssimo nunca ter feito nada. Todo mundo passou a achar também e falar comigo, pedir. Eu fiz essa música usando um tema igual ao que a gente sempre observou, um tema comum para nós dois, e ele adorou. Veio, cantou, gravou a música comigo, depois fizemos o clipe e foram momentos lindos que a gente viveu. Eu sou grato por ter conseguido fazer isso. Vou ser grato pra sempre por ter conseguido essa parceria com ele.

Aos 73 anos, como é a sua relação com o tempo, com a idade?

Idade é uma questão de saúde. Você tem saúde, você não tem o peso da idade. É irrelevante que idade você tem. Você só pensa realmente nisso quando não tem saúde. Quando você tem saúde, você vai vivendo como sempre viveu. Eu vivo, hoje, do mesmo modo que eu vivi sempre, fazendo as mesmas coisas, com a mesma disposição. E isso é o que vale.

Como vai a sua saúde?

Vai ótima. A minha saúde, graças a Deus, é muito boa.

Na música ‘Iluminado’, que encerra o ‘D’, você canta com seus filhos e netos. Como foi criar ao lado deles?

A gente, de vez em quando, canta em casa, se reúne, toca, mas nunca tinha feito isso “na vera”, gravar. Eles entraram definitivamente na gravação. E deu vontade de fazer isso agora. Eu escrevi uma música objetivando o otimismo, um futuro, a luminosidade, a positividade, e achei que fazer isso com eles, dizer isso com eles, seria importantíssimo. Trouxe eles, fiz os arranjos, cantamos e ficou lindo. É um momento muito bonito.

A sua música atravessa gerações, e não tem sido diferente com a geração atual. Como você enxerga esse abraço dos jovens de hoje ao seu trabalho?

Isso é o maior incentivo que se pode ter. Tenho mais de 40 anos de carreira, continuo reunindo em volta de mim, do palco que eu frequento, uma plateia bem diversificada, do ponto de vista social, racial, religiosa, gente muito diversificada. Tem gente de qualquer tipo, o que me agrada muito. É por isso que eu consigo manter-me conectado com as gerações atuais, como sempre estive. Eu acho que isso vem graças à diversidade do trabalho. Eu acho que a diversificação do meu trabalho faz com que meu público também seja diverso e se mantenha assim sempre.

Nesses 40 anos de carreira, realmente, você não se repetiu, nem revisitou a própria obra. Qual a importância disso para você?

É ver que você não está fazendo papel de poste. Não está parado num canto. (risos) Não, você está se movimentando, está caminhando para frente. Eu acho que caminhar para frente é tudo. Você tem que visar o futuro e caminhar em busca dele.

Retornando ao álbum, já tem planos para uma turnê? E quando é que você vem a Maceió?

Bom, eu tenho planos para turnê. É o seguinte, não sei nem se eu posso dizer, mas eu vou dizer mesmo assim. A turnê vai começar em março de 2023, dia 31, provavelmente. E eu pretendo iniciar essa turnê aí em Maceió. Eu pretendo que isso seja possível, eu vou trabalhar para concretizar esse meu intento. Se isso acontecer, eu vou ficar muito feliz.

Pensa em um projeto com a participação dos seus filhos e netos?

A gente não pode assegurar, porque todo mundo trabalha, todo mundo tem uma agenda pesada, alguns moram em São Paulo, então eu não contaria muito com isso não. Mas, se acontecer, vai ser bom.

Para finalizar, este é o seu 25º álbum, é um marco. O que isso representa para você?

É algo bonito, que mostra que eu trabalhei muito. São anos dedicados à música, a compor, a gravar, a arranjar. É uma celebração de uma carreira que está aí, no Brasil e no mundo, e de tudo isso que eu adoro fazer. Eu estou na profissão certa, trabalho com prazer, de verdade, a música me dá muita felicidade. Então, de modo geral, é um momento simbólico que me enche de alegria e vontade de trabalhar ainda mais.

Artista veio a Alagoas escrever letras de quase todas as canções do álbum - Foto: Gabriela Schmidt