Aventura de alagoanos que navegaram de Maceió ao Rio de Janeiro em jangada completa 100 anos

Para homenagear o centenário da Independência do Brasil, pescadores se aventuram no mar em uma embarcação feita com seis paus e uma vela

Era um domingo comum do calendário — não fosse pelo povo que lotava o bairro da Pajuçara. Concentradas ali, naquele 27 de agosto de 1922, as pessoas vibravam pela coragem e se despediam de quatro simples pescadores que, um século atrás, partiam de Maceió rumo ao Rio de Janeiro, na época capital do Brasil. O meio de transporte era o mesmo usado na lida, no dia a dia da pesca: uma jangada de seis paus e uma vela, construída por eles mesmos e batizada de “Independência”.

Naquele período, o fim da velha República era anunciado com entusiasmo, o país respirava ares de mudança, esperança e orgulho. Era o ano da Semana de Arte Moderna de São Paulo e da Revolução dos 18 do Forte de Copacabana. Era o ano do centenário da Independência do Brasil, que agora completa 200 anos.

Foi nesse contexto de revolução e festa que Umbelino José dos Santos, 45 anos e mestre da jangada, natural de Passo de Camaragibe; Joaquim Faustilino de Sant’Ana, 41, de Barra de São Miguel; Eugênio Antônio de Oliveira, 25, e Pedro Ganhado da Silva, 36, ambos de Coruripe, empreenderam a extraordinária aventura que os transformaria nos Jangadeiros Alagoanos.

A épica jornada integrou as homenagens que as Colônias de Pescadores realizaram como contribuição aos festejos do centenário da Independência. Os jornais da época estampavam que cada um daria o que tivesse – Alagoas tinha suor e coragem de sobra. A multidão aplaudia.

Apenas dois dias antes, na sexta-feira, 25, Homero Galvão, então presidente da Colônia Cooperativa dos Pescadores Z-01 “Almirante Jaceguay” [ativa até hoje em Maceió], conseguiu autorização do capitão dos portos, Antônio Veira Lima, e do governador do Estado, Fernandes Lima, para a partida dos bravos nautas. Era hora de partir.

Passava das 11h da manhã quando deixaram a capital rumo ao Sul do Brasil. A pequena jangada “Independência” desafiava a crença no sucesso da empreitada e fez com que todo o País voltasse suas expectativas para a epopeia alagoana.

No dia 1º de setembro, os jangadeiros foram avistados pela barra do Rio São Francisco, adentrando o litoral sergipano. Ao chegar na Bahia, no entanto, entre 8 e 16 de setembro, enfrentam a primeira tormenta, perdem a vela, vão à deriva. Rebocam a jangada a nado, “arribam” em Camumu, onde os moradores os acolhem, doam provisões, roupas e fé. O jornal A Noite de 23 setembro anunciava: “Sabe-se, agora, o paradeiro da jangada Independência”.

“Terminou, com uma notícia muito grata, a inquietação que reinava pelo desaparecimento da jangada Independência, na qual pescadores alagoanos vêm fazendo o ‘raid’ Maceió-Rio. Batidos por um tremendo temporal, os pescadores tiveram de arribar em Camumu, porto da costa baiana, depois de terem lutado com a procela e perdido todas as provisões. Só quando lhes foi impossível prosseguir, e com a vida em perigo, eles deliberaram arribar”, dizia trecho da notícia, que ainda relatava que o governador da Bahia, ao saber da situação, telegrafou ao intendente da cidade para que proporcionasse “tudo quanto for preciso para que os pescadores possam concluir seu percurso oceânico”.

Era o primeiro, mas não o último temporal que os navegantes enfrentariam. Em 25 de setembro aportaram em Ilhéus, após uma grande tempestade; chegaram a Porto Seguro em 7 de outubro; no Espírito Santo, no dia 23; e, finalmente, despontaram no litoral carioca, no dia 12 de novembro; e na Baía de Guanabara, em 2 de dezembro, após 98 dias no mar e nove violentas tempestades. Guiando-os, apenas uma velha bússola.

Aventura de alagoanos em jangada completa 100 anos - Foto: Arquivo

Com a pele queimada por um sol de três meses e quatro dias ao mar, os pescadores foram recebidos na Inspetoria de Portos e Costas e, depois, pelo presidente Artur Bernardes (1875 – 1955), no Palácio do Catete. Assediados pelos jornalistas e aclamados pelo povo, os lobos do mar apresentaram uma carta assinada pela direção da Colônia Cooperativa dos Pescadores, de Maceió.

“Temos a honra de apresentar-vos nossos portadores, os quatro bravos tripulantes da jangada Independência. Pescadores profissionais, pertencentes a esta colônia. Receba estes nossos companheiros como o contingente valoroso dos pescadores de Alagoas que, nada podendo oferecer para a comemoração do maior feito político da nossa história, contribuem com as fadigas e sacrifícios desses quatro heróis que, espontaneamente, se vão arriscar na travessia procelosa do Atlântico. Trate-os como merece o seu feito e pela boa intenção que os guiou a essa gloriosa jornada”, dizia trecho da carta assinada por Homero Galvão (presidente), Manoel Paulo Silva (secretário) e Agenor Vieira (tesoureiro).

O RETORNO

De volta a Maceió a bordo do vapor Santos, os bravos nautas vestiam uniformes de reservistas da Marinha de Guerra, portavam medalhas de ouro e estavam cobertos por flores. Desembarcaram em um escaler da Escola de Aprendizes Marinheiros e, em terra firme, no dia 21 de dezembro de 1922, foram recebidos por autoridades, barcos e por uma multidão, todos embalados por música e fogos de artifícios, na enseada de Jaraguá.

Essa é a história de uma viagem com quatro pescadores, nove tempestades e mais de dois mil quilômetros percorridos em alto-mar. Eles, no entanto, não foram os únicos a enfrentar o mar por patriotismo. Diversas embarcações ganharam o Atlântico rumo ao Rio, para participar da Exposição da Independência. No entanto, somente nove embarcações eram de pesca. O “raid dos pescadores” foi composto por três botes do Rio Grande do Norte, uma baleeira de Sergipe, um saveiro da Bahia, um bote de Santos, duas canoas do Paraná e, para completar, a jangada de Alagoas – a mais frágil e artesanal embarcação e o mais extraordinário “raid” de quantos se fizeram para comemorar o Centenário –, como informou o jornal A Noite, na edição de 2 de dezembro de 1922.