Mulheres são maiores vítimas de relacionamentos abusivos, diz psicóloga

Segundo profissional alagoana, quem sofre abusos tem dificuldade de identificar sinais

Este é um cenário que você já deve ter visto: alguém que se distancia depois de começar o namoro, muda o comportamento, parece ter perdido a vida própria em prol de outro, que acaba não tendo a simpatia de quem se importa com a vítima. Apesar de ser um cenário genérico, o exemplo é típico de quem se encontra num relacionamento abusivo - e é sobre isso que a Revista Maré desta semana fala a partir de agora. 
O assunto não é novo, mas persiste na sociedade. É só olhar ao seu redor que você percebe alguém apresentando esse comportamento. Nem sempre é por causa de um namoro, claro, e cada relacionamento tem suas próprias questões. O fato é que não é simples estar numa situação como essa, como conta a técnica em enfermagem Mannuelle Santos, de 26 anos, que passou seis anos e meio numa relação abusiva. 
"Eu não enxergava como um relacionamento tóxico, porque, para mim, estava ótimo. Quem estava de fora é que via que não era normal. Depois de uns anos, eu realmente concluí que era absurdo o que acontecia. Eu não tinha vida própria. Eu estava oprimindo tudo o que eu gostava de fazer e não conseguia ser eu mesma. Não podia mexer no telefone, porque diziam que eu estava num romance com outra pessoa. Eu não poderia sair porque sempre era motivo de briga. Mesmo assim, após muito tempo, fui percebendo que aquilo não estava certo, e fui notando o quanto eu estava incomodada", relata. 
O constante incômodo foi o que a despertou, mas esse não foi o único motivo que fez Mannuelle notar que algo realmente não ia bem naquele namoro. "O que me acordou realmente foi o fato de todas as vezes a pessoa com quem eu estava repetir as mesmas desculpas e eu saber que não mudaria. Conversava muito com uma amiga que sabia de toda a trajetória, dizia que era um relacionamento abusivo, só que eu não conseguia compreender. Tinha baixa autoestima e achava que não ia conseguir outra pessoa, que não ia ser do mesmo jeito. Foi muito complicado", expõe. 
A amiga em questão, Layane Patrícia, também conversou com a Revista Maré sobre o assunto e aconselhou as pessoas que podem estar num relacionamento como esse. "Eu, como amiga dela, percebia que aquilo não estava sendo saudável, estava exagerado. Então, me senti no direito de conversar e pedir para que ela observasse mais as atitudes da pessoa com a qual estava convivendo. A dica que eu dou para as pessoas que estão passando por isso é ter consciência dos sinais de uma relação de abuso: essa pessoa priva você de fazer as coisas que geralmente fazia? Priva de sair com os seus amigos? Faz joguinhos amorosos para você sentir culpa? Você sente que não está sendo você mesma, aceitando papéis que não fazem parte da sua identidade apenas para agradar o outro? Acho que o diálogo é fundamental", pontua. 
Como ajudar 

Psicóloga diz que crenças pessoais atrapalham nesses casos - Foto: FOTO: Arquivo Pessoal

A orientadora explica que não é fácil para quem sofre os abusos detectar os sinais, visto que os relacionamentos costumam ter muitas compensações no começo. "A percepção é muito difícil inicialmente, porque, no início, um namoro tem muitas gratificações. A vítima vai criando consciência de forma gradual. E é difícil, porque a mulher, às vezes, cresce ouvindo a mãe dizer que é assim mesmo, que se casou tem que aguentar. As crenças religiosas acabam atrapalhando, além das questões políticas também, como a falta de rigor na lei de proteção à mulher, entre outros fatores". 
Bruna ainda aponta maneiras de apoiar uma vítima de uma situação como essa. "É importante mostrar que a pessoa não tem culpa, que há outras possibilidades. Ela não está presa. Estar perto, esclarecer crenças que às vezes cerceiam sua liberdade e a fazem aceitar coisas que não deve, realmente mostrar que existe mais vida do que o que ela conseguiu enxergar até então, além de se oferecer para ir com ela fazer algum registro na polícia, caso haja agressão física. Estar ao lado de quem passa por um relacionamento abusivo é muito importante para ajudar a pessoa a se livrar daquilo", diz.