Conheça Felipe Ruiz, engenheiro com MBA pelo MIT e sócio-fundador do Ações Garantem o Futuro

Para ele, 'um país forte se faz com um mercado de capitais forte'

"Um país forte se faz com um mercado de capitais forte", diz Felipe Ruiz, sócio-fundador do AGF.

Apesar da bolsa de valores estar novamente sob os holofotes, principalmente depois de ter atingido a marca recorde de 2,7 milhão de CPFs cadastrados em novembro de 2020, infelizmente não há muitos motivos para comemorar. Mesmo com o crescimento no número de investidores individuais e com o aumento expressivo no volume negociado, outros indicadores mostram que o desenvolvimento do mercado tem ficado abaixo das expectativas nos últimos anos.

Um exemplo disso é o número de empresas listadas. Em queda desde 2007, quando atingiu um pico de 405 no total, a quantidade de empresas na bolsa registrou há pouco tempo atrás (agosto de 2019) o menor patamar da série histórica: 326 companhias listadas. Se levarmos em conta que somente pouco mais da metade apresenta liquidez, esse universo é reduzido ainda mais, para cerca de 200 empresas no máximo. Em 1997, pouco mais de 20 anos atrás, um total de 557 empresas tinham suas ações listadas na Bovespa.

Para efeito de comparação, Israel possui uma área equivalente à do estado de Sergipe e conta com aproximadamente 420 companhias listadas na sua bolsa local. Na Coréia do Sul são pouco mais de 2.000 empresas e, na Índia, cerca de 5.000.

Outra evidência é também o baixo volume financeiro da bolsa. Nos últimos dez anos, o giro financeiro médio da Bovespa ficou próximo a U$S 3 bilhões por dia. Esse é um volume muito timido quando comparado a outros mercados similares ou quando consideramos a disponibilidade de capital de grandes investidores globais, principalmente institucionais, como os fundos de pensão. Para se ter uma ideia, o giro médio diário das ações da Apple na Nasdaq representa sozinho mais que o dobro da média da bolsa brasileira.

Esses dados nos mostram alguns sintomas do problema. Mas quais seriam suas principais causas? Certamente uma combinação de vários fatores. Podemos citar alguns que fizeram parte da história mais recente da bolsa.

Primeiro, problemas de gestão e governança que ocorreram com grandes companhias listadas. Algumas empresas estatais, como é o caso da Petrobras e Eletrobras, foram talvez os maiores expoentes desses problemas. Com uma combinação explosiva de má qualidade na gestão, casos internos de corrupção e desrespeito aos minoritários, essas empresas acabaram contribuindo para afugentar muitos investidores da bolsa.

Tivemos também uma série de IPOs [aberturas de capital] fracassados naquela onda de 2007. Muitas empresas que abriram capital naquela época, como várias construtoras e bancos médios, lançaram suas ações cotadas a preços astronômicos. Em seguida viria ainda o IPO da finada OGX. Com a chegada da crise de 2008, em pouco tempo muitas dessas empresas perderam boa parte do valor de mercado. E muitas delas até hoje não se recuperaram.

Por fim, uma das principais causas da falta de evolução do mercado é, sem dúvidas, a forte cultura da renda fixa presente no Brasil. Com juros reais historicamente altos e retornos atrativos de investimentos em renda fixa, o brasileiro cultivou ao longo dos anos a postura do rentista. Uma postura bastante cômoda, que gera como consequência uma aversão natural ao risco. O cidadão pensa: “Por que devo alocar meu capital em algum instrumento de risco ou por que devo empreender, se no conforto da renda fixa já consigo ter um bom rendimento?”. A cultura da renda fixa possui também um forte componente de agiotagem, uma vez que “investir na renda fixa” nada mais é que emprestar dinheiro mediante juros ao governo ou a alguma outra instituição.

Tomar riscos faz parte da essência do capitalismo. Mas curiosamente, ao longo dos anos, o brasileiro passou a “terceirizar” essa tomada de riscos principalmente para os gestores de fundos de investimentos. Assim, prefere delegar essa tarefa a um terceiro a fazê-la por conta própria.

O fato é que nenhum país sobrevive a uma situação como essa, onde sombra e água fresca geram mais benefícios (em teoria) que correr riscos e acreditar no incerto. Simplesmente a conta não fecha.

Um mercado de capitais forte é condição básica para que um país possa se desenvolver de forma sustentável. É através desse mercado que as companhias irão buscar financiamento para suas atividades empresariais e industriais. E essas, por sua vez, são o motor do crescimento econômico.

Mas todas essas constatações sobre a bolsa e a cultura de investimentos do brasileiro só evidenciam uma coisa: o enorme potencial do nosso mercado de capitais.