Coluna

Julie Alves

com Dan Nascimento

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Raissa de Oliveira, o trono é dela!

Há 18 anos a frente da bateria da Beija Flor no carnaval do Rio de Janeiro

Julie Alves

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Foto: Divulgação/Marcos Serra Lima

Moradora de Nilópolis, cidade do Rio de Janeiro. Ela era uma menina, que se tornou mulher, mãe, e não perdeu a majestade! Há 18 anos é ela quem conduz a 'Soberana' bateria da Beija Flor de Nilópolis na avenida do Carnaval do Rio!

Com exclusividade, Raissa de Oliveira bateu um papo com a coluna

Você é a figura do carnaval carioca. Como é estar há 18 anos à frente da bateria da Beija Flor de Nilópolis?

Estar a frente da bateria da Beija-Flor por todos esses anos pra mim, é motivo de muita honra, representar os integrantes, a escola, o carnaval, eles depositarem essa confiança em mim e no meu trabalho, só tenho que agradecer! Nós lidamos com muitas adversidades no mundo do carnaval, mas estamos sempre ali. Acredito no diferencial, no amor e na paixão pelo que você faz e pela escola. Acredito na história e no samba no pé de uma mulher, uma rainha de comunidade, acredito que isso faça todo um diferencial.

Quando começou era uma menina. Te assustou tão nova assumir um cargo como esse em uma escola de títulos?

Assim que comecei, com 12 anos de idade, eu estava acostumada com a ala de passista mirim, de repente eu saio para ficar ao lado dos adultos, nessa parte me assustei um pouco sim! Mas depois foi super de boa pois sempre gostei do carnaval, desde a barriga da minha mãe. Com o tempo deu para tirar de letra pois sempre recebi o apoio da escola, comunidade e bateria, foi fácil (risos).

E para se manter, já que existem indícios que em algumas escolas o cargo é posto à venda?

A minha escola é muito tradicional, apostam nas pratas da casa, dificilmente vamos ver a Beija-Flor mudar a cara ou ficar de troca troca. Temos esse diferencial que é trazer pessoas da própria comunidade, apoiá-las e incentivá-las, nossa agremiação nunca deixou se atrair por outras coisas. Nós temos o apoio do nosso presidente, Almir, que tem feito de tudo por nossa comunidade nilopolitana. E o que me mantém além disso tudo é eu estar sempre disposta e entregue de corpo e alma para minha escola e esse entrosamento que procuro ter com a minha comunidade que merece, dá para ver a afinidade que temos, isso tudo faz a diferença.

Mas vamos falar um pouco da Raissa mãe?

Raissa mãe tá uma loucura, Rhayallinha tem me deixado de cabelo em pé (risos), mas você sabe que essa idade é a melhor, nos entregamos, temos muito envolvimento e novas experiências. Mas ao mesmo tempo é um período de muita adaptação, você sabe que nós que trabalhamos, ainda temos que cuidar de casa, marido e filho. Além disso tudo nos metemos em novos projetos, é um misto de muitas surpresas, descobertas e experiências únicas. A gente se questiona, ainda mais sendo uma mãe de primeira viagem. Muitas das vezes já coloquei minha cabeça no travesseiro e me perguntava "será que vou conseguir, será que serei uma boa mãe?", mas graças a Deus tenho uma família maravilhosa, eles me ajudam muito e no mais importante que é no suporte, no crescimento e desenvolvimento da minha filha. Posso trabalhar com minha cabeça tranquila pois sei que a Rhayalla é muito bem amparada.

E como fez para voltar a forma? Isso te preocupou?

Eu sempre fui muito dedicada em tudo que eu fiz, sei que meu trabalho exige muito do meu corpo, eu desfilei 4 meses após ter tido a Rhayalla. Ela nasceu de 7 meses pois eu estava passando muito mal, então tive que interromper a gestação. Me submeti a uma cesárea e 5 dias após eu já estava bem desinchada, mas respeitei resguardo e todos os protocolos, após a liberação médica voltei a malhar, me dediquei e me entregue aos treinos e a minha escola, Nem eu acreditei, 4 meses é muito pouco, ainda mais recém saída de uma gestação. Minha família me deu total apoio.

Faz parte dos planos ter mais filhos?

No momento não faz parte dos meus planos, pois tenho projetos futuros de vida e profissionais. Meu marido 'Drigão', quer tentar (risos), ele pretende ter um menino, pois só tem meninas, ao todo são 4. Faz parte do projeto dele. Fazemos de tudo para nos prevenir, mas nosso futuro sempre está nas mãos de Deus e do nosso senhor Jesus Cristo.

E como está conciliando a maternidade, o cargo de subsecretária de cultura de Nilópolis e o carnaval, que já está nos preparativos?

Julie, quando eu engravidei eu montei um cronograma e ali coloquei todas as minhas responsabilidades. Carnaval, meu trabalho, minha ONG, pois eu já sabia que as coisas iriam apertar e eu teria que trabalhar. Tem um período que nos dedicamos somente ao bebe, mas uma hora temos que sair dessa caixa, sempre falo isso para as mulheres. Depois que a Rhaylla nasceu, nasceu uma outra mulher, uma outra Raissa. Não nasceu só a mãe. Minha filha é meu principal ponto positivo para que eu vá à luta todos os dias, sem medo de ser feliz. Se antes eu já tinha isso comigo, hoje se tornou maior dentro de mim! Ela depende de mim. Tudo hoje é por ela, pela família que construí com meu marido, pela minha mãe e meu irmão. Dizem que não dá para conciliar, há dias que durmo de madrugada ou não consigo dormir, mas Deus é tão maravilhoso que ele me renova a cada dia e me coloca em uma força que é tão grande, que consigo conciliar tudo e com muita responsabilidade. Às vezes saio de casa às 6 da manhã com minha filha ainda no colo dormindo nos meus braços, deixo ela com minha mãe. Porque eu sei que tem outras pessoas na rua dependendo de mim, pra mim é gratificante, não é que eu esteja cumprindo com minha responsabilidade, mas sim com a minha missão com Deus, isso me deixa muito grata.

Ah, nos conta como está está sendo fortalecer a cultura de sua cidade, já que assinou neste ano o cargo de subsecretária de Nilópolis?

É a maior satisfação, eu que respiro cultura desde criança. Fortalecer e incentivar a cultura do meu município pra mim foi um convite único do meu prefeito Abraãozinho David. Onde eu posso estar diretamente lhe dando com famílias e artistas, poder incentivar crianças, adolescentes, jovens e idosos toda essa galera a se descobrir, Nilópolis tem artistas que brotam do chão. Poder contribuir com eles, só me faz mais feliz e satisfeita com o meu trabalho e com o trabalho que meu prefeito vem desenvolvendo na cidade, é sinal que estamos no caminho certo.

Pensa em avanços políticos?

Eu como uma cidadã nilopolitana, sempre vou pensar em avanços políticos, falando pelo lado feminino, as mulheres cada vez mais ganham espaço. Nós avançamos e começamos a ter voz, mas ainda temos que quebrar muitos tabus. De fato temos que ter mais representatividade em cargos públicos e parlamentares, tiro pela minha cidade que há muito tempo não tem uma mulher vereadora na câmara. Sinto falta dessas representantes femininas em todas as esferas públicas e políticas. Por isso, penso muito na minha carreira política.

Você é formada em jornalismo, pensa em algo focado nisso?

Me formei em jornalismo a 8 anos atrás, tenho pensado em voltar a estudar, fazer uma pós em políticas públicas talvez, mas ainda estou vendo. Agora você vê um monte de coisas que já abraçamos e ainda voltar a estudar, será uma loucura (risos)! Acredito que temos que tirar um tempo e nos dedicar a isso sim, aprender é necessário, todos os dias aprendemos com alguém, não só dentro das escolas. O conhecimento ninguém pode nos tirar. Quero voltar com tudo, até mesmo para poder contribuir para o meu futuro.

Você e a rainha que está a mais tempo no posto, já passou pela sua cabeça uma aposentadoria do cargo? (risos).

Minha vida foi escrita por Deus, acredito muito em ciclos e em tudo que Deus tem reservado para nossas vidas, Ele me colocou lá! A escola é algo que eu amo, acredito também em oportunidades, como a que me foi dada através do Anísio que me apoiou desde pequena, e de toda família Beija Flor. Foi e ainda é incrível!

E seu projeto social. Quando foi tocada que deveria usar seu conhecimento para levar oportunidade de educação às crianças e jovens de Nilópolis? Nos fala um pouco.

Em 2009! No momento em que eu tive e pude oferecer oportunidade para novos talentos. Saem profissionais da minha instituição. Deus tocou não só no meu coração, mas de toda a minha família, para juntos fazermos da ONG Raydi uma experiência para a formação de adolescentes e jovens e encaminhá-los diretamente para o mercado de trabalho. Trabalhos em prol do próximo, 'Fazer o bem sem olhar a quem', minha vida sempre foi pautada dessa forma. Essa é a minha motivação, ver pessoas que chegam destruídas emocionalmente e saem como uma outra perspectiva de vida. Sinceramente o que me importa é a vida do próximo.

E os planos pós pandemia? Acredita que conseguiremos ter carnaval?

Tenho colocado meus projetos em prática, venho me dedicando mais a minha família e trabalho. Tenho buscado melhorar como pessoa e me auto conhecer. Ligo a TV e vejo a luta do povo brasileiro buscando por dignidade, mesmo com a pandemia eles têm buscado o conhecimento e trabalho. Acredito que o carnaval possa existir no próximo ano, a vacinação já está bem avançada. A folia é um meio de colocar o alimento na mesa dessas pessoas, já que a parte de eventos foi afetada diretamente com a pandemia. As escolas de samba se reuniram para dar um suporte a essas famílias, mas sabemos que não é só o alimento, as contas chegam e as pessoas precisam sim voltar a trabalhar. As agremiações já estão se reinventando, acredito que esse carnaval será bem mais consciente por parte da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), da liga e de todos nós que fazemos essa grande festa. Acredito que dentro do possível teremos carnaval!