Supermercados reforçam segurança para evitar furto de carne

A embalagem de isopor era etiquetada e o cliente só poderia pegar o produto depois que a compra fosse concluída.

O que antes era reservado a produtos como uísques e pacotes de cigarros chegou também aos alimentos, principalmente às carnes. Sensores, alarmes e embalagens vazias estão sendo adotadas por redes de supermercados na tentativa de conter furtos ou o abandono de produtos antes do pagamento.
A prática, segundo o Procon-SP, não é ilegal, mas pode ser considerada discriminatória quando é adotada sem critério -por exemplo, em apenas algumas unidades, ou em determinados bairros.
Nesta terça-feira (19), o órgão de defesa do consumidor paulista informou que vai multar uma unidade da rede Extra do Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, que estava entregando bandejas vazias a quem pedia carne porcionada no açougue. O valor da sanção ainda não foi definido.
A embalagem de isopor era etiquetada e o cliente só poderia pegar o produto depois que a compra fosse concluída -e paga. O relato foi feito pela produtora cultural Fabiana Ivo, que compartilhou sua experiência de compra em uma rede social.
"Isso é uma afronta a toda a população das quebradas, duvido que o mesmo aconteça no Extra do Morumbi", escreveu, em referência ao bairro de alto padrão na zona oeste da capital paulista. O caso foi contado na segunda-feira (18) pelo colunista do UOL Rodrigo Ratier.
"É inaceitável [a existência de] critérios de discriminação em razão do local. Se em outros estabelecimentos ou em outros bairros não existe esse tipo de exigência, não se justifica que a população do Jardim Ângela seja submetida a um vexame", diz Fernando Capez, diretor-executivo do Procon-SP.
A rede Extra diz em nota que a adoção da medida não faz parte da política de atendimento das lojas e considerou a prática uma falha interna.
"Desde que teve conhecimento dos relatos, a rede tem tomado providências para que a prática seja imediatamente descontinuada, reforçando com todo o time das lojas, inclusive, as orientações com respeito às normas e procedimentos operacionais autorizados pela empresa, para que tais fatos não voltem a ocorrer", afirma a empresa, que faz parte do Grupo Pão de Açúcar.
Desde a divulgação do caso relatado por Fabiana, consumidores relataram em redes sociais que passaram por situações similares, nas quais receberam a bandeja vazia até a conclusão da compra, em unidades da mesma rede na região central e na zona leste da capital, e também para outras compras de produtos fracionados, como frios.
"Se não existe um aviso prévio e ostensivo, uma informação de que é um critério objetivo e igual para todos, de que primeiro se paga e depois se pega o produto, isso passa a ser uma discriminação, uma surpresa para o consumidor e um método vexatório", diz Capez, do Procon-SP.
Alarmes de segurança e sensores, mais comuns em lojas de departamento, também aparecem em gôndolas, freezers e geladeiras.
Grupos como Carrefour e Big, que utilizam esses procedimentos de segurança, dizem que o padrão foi adotado há alguns anos para todas as lojas e não tem relação com a alta de preços. Alguns cortes de carne embalada, peças inteiras já pesadas, recebem uma tela de proteção e um sensor de segurança.
A rede Big e Sam's Club diz que os dispositivos -uma peça de plástico com um sensor que é retirado no caixa- são utilizados há muito tempo e integram o procedimento padrão de segurança das lojas. Os sensores são colocados, segundo a rede, em produtos de todos os tipos e que tenham valor elevado.
A Apas (Associação Paulista de Supermercados) diz que o que aconteceu no Extra foi um fato isolado e, por isso, não dará recomendação quanto aos procedimentos de segurança adotados pelas empresas.
A elevação de preços dos alimentos, ao mesmo tempo em que a economia -e, portanto, a geração de emprego e renda- ainda não se recuperou do baque da pandemia, tem tornado comuns situações como o garimpo de ossos e pelancas, como registrado no Rio de Janeiro (RJ), filas para doações de ossos e aparas, em Cuiabá (MT), e pessoas buscando comida em um caminhão de lixo em Fortaleza (CE).
Monitoramento de preços do varejo feito pelo IEA (Instituto de Economia Agrícola), ligado ao governo de São Paulo, mostra que o quilo da carne moída de segunda custava, em média, R$ 34,46 no setembro, após o pico de R$ 36,19 no mês anterior. Somente em 2021, o produto já acumula alta de 13,48%.
A picanha, corte popular entre os admiradores de churrascos, acumula alta de 15,10% desde janeiro. O preço por quilo, em setembro, ficou em R$ 68,67.
Segundo o IPCA, índice oficial de inflação calculado pelo IBGE, as carnes acumulam alta de 24,84% em 12 meses. A variação considera os principais tipos de carnes -bovina, suína e de frango.
Em setembro, esse grupo de despesa registrou queda de 0,21%, movimento que pode estar relacionado à queda das exportações para a China, mas que leva um tempo para chegar ao consumidor.
A suspensão das vendas, que já dura seis semanas, ocorreu devido à existência de casos de vaca louca. A coluna Vaivém das Commodities, da Folha de S.Paulo, de segunda (18) mostrou que a arroba do boi estava em R$ 267,80, distante dos R$ 322 da segunda quinzena de julho.
Paulo Bellincanta, presidente do Sindicato das Indústrias de Frigoríficas de Mato Grosso, maior exportador do Brasil, afirma em nota que a queda de até 20% na arroba não chega a varejo e que "balcões dos açougues e supermercados precisam se engajar na cadeia e não se apresentarem como inimigos."