Operação federal deixa famílias de garimpeiros à beira do Rio Madeira

Mobilização de Polícia Federal e de órgãos ambientais contra o garimpo ilegal na Amazônia ocorreu no sábado (27/11)

Enviados especiais a Autazes (AM) – A Operação Uiara, deflagrada pela Polícia Federal e por órgãos ambientais nesse sábado (28/11) em um trecho do Rio Madeira, no Amazonas, deixou dezenas de famílias de garimpeiros com a roupa do corpo ou poucos pertences às margens do curso d’água.

Os garimpeiros reconhecem a ilegalidade da atividade, mas reclamam da truculência das forças federais na ação, que queimou ao menos 69 balsas na região, segundo informações do ministro da Justiça, Anderson Torres.

8a9fb642-97e8-4169-94b5-b75a6cdbd62e.webp - Foto: Igo Estrela/Metrópoles

Esses garimpeiros atuam há décadas no Rio Madeira e em outros cursos d’água da região amazônica no garimpo fluvial, que puxa água e sedimentos do fundo da água e aplica uma espécie de filtragem para buscar metais preciosos. O maior risco ambiental desse tipo de garimpo, segundo as autoridades, ocorre na fase final de separação do ouro, quando é utilizado mercúrio, metal neurotóxico, que, em contato com a água, contamina os peixes e, por consequência, quem os consome, como populações indígenas e ribeirinhas.

A mobilização federal ocorreu após a suposta descoberta de grande quantidade de ouro num trecho do Rio Madeira, a cerca de 100km de Manaus, na altura da cidade de Autazes. A notícia mobilizou centenas de balsas que estavam mais mais acima no rio, para o lado de Rondônia, que se juntaram em uma alça, produzindo imagens impactantes e chamando a atenção das autoridades.

As primeiras informações da PF divulgadas na tarde de sábado sobre a operação davam conta de que a maioria das balsas incendiadas havia sido abandonada às margens do Madeira pelos garimpeiros em fuga. A reportagem do Metrópoles na região encontrou, porém, dezenas de garimpeiros, boa parte com suas famílias, em barrancos ao longo do rio.

Alguns disseram que teriam de passar a noite no mato, mas a maioria foi acolhida pela população ribeirinha da região. Barqueiros de Autazes e de Nova Olinda do Norte passaram a tarde checando as margens do Madeira, recolhendo os garimpeiros e abrigando-os em suas próprias casas.

Apesar de admitirem estarem errados — o garimpo no Rio Madeira chegou a ser regulamentado pelo governo estadual, em 2017, mas as permissões foram derrubadas pela Justiça Federal em agosto deste ano —, os garimpeiros reclamaram de truculência na ação federal e relataram que, em outras fiscalizações ao longo dos anos, o protocolo era exigir a retirada deles dos locais, não a destruição imediata das balsas, como ocorre desta vez.

“Eles chegaram umas 14h e foram logo mandando sair da balsa, atirando, jogando bomba. Não deu tempo para nada. Quisemos pegar as nossas coisas e não deixaram. Vieram jogando gás lacrimogênio e metendo logo fogo. Eu estava com meus dois filhos e minha esposa, que choraram muito. Isso nunca houve aqui no Rio Madeira, onde a gente trabalha há 30 anos”, relatou o garimpeiro Aderson Pinheiro.

“Só o nosso patrimônio perdido foi de R$ 300 mil. Queimou tudo, a roupa, o dinheiro que a gente tinha, ourinho que a gente tinha, queimou tudo. Agora, é saber como vai pagar as contas, contas grandes, de R$ 200 mil. Como a gente vai pagar? Só Deus, mesmo, por nós”, completou.

“Tenham piedade”

Natural de Borba, cidade mais acima na margem do Madeira, a garimpeira Nilda (foto em destaque) ficou desempregada durante a pandemia e se juntou ao marido e aos filhos para montar uma balsa de garimpo. “Eu era condutora de alunos em Borba, mas veio a pandemia, e ficamos todos desempregados: eu, meu esposo, minha família. E fomos fazer uma balsinha pra trabalhar, que era o único modo de sobreviver sem passar muitas dificuldades”, contou ela, na margem, após o resgate por ribeirinhos.

“Conseguimos a balsinha, começamos a trabalhar, e estávamos com mais ou menos 6 meses trabalhando, eles vieram e queimaram nossa balsa. Meus netos estão aqui, era a nossa casa, tudo o que nós tínhamos era aquela casa. Nessa balsa nós dávamos trabalho para uma cozinheira, trabalhavam mais quatro pessoas conosco, pessoas com família. E, hoje, estamos todos na beira. Não tirei nada, até a minha roupa está molhada, vou pedir roupa para a vizinha [ribeirinha que a acolheu]”, disse, emocionada.

“Por que fizeram isso com a nossa família? Era pra terem avisado que não queriam mais o garimpo, que nós retirávamos, voltaríamos para casa. Mas fizeram essa humilhação. Estão acabando com a nossa família. Nós vamos passar muitas dificuldades daqui para a frente. Não sabemos nem como vamos voltar para a nossa cidade. Autoridades, tenham piedade de nós, misericórdia de nós, que somos apenas seres humanos”, apelou a garimpeira.

Moradores da margem do Madeira já na área de Nova Olinda do Norte, bem ao lado de onde as balsas se concentraram, os ribeirinhos Josué Correia e a esposa, Francisca, acolheram garimpeiros logo quando a operação começou, mas tiveram de se refugiar eles mesmos na mata quando o fogo ameaçou a residência, que é de madeira.

A operação no Rio Madeira

Batizada Uiara, que é uma entidade do folclore brasileiro também conhecida como “Mãe-d’água”, a operação federal contra o garimpo ilegal continua neste domingo (28/11). Agentes da PF, da Força Nacional e de órgãos ambientais, como Ibama e ICMBio, montaram base em Autazes e estão usando aeronaves e lanchas rápidas para procurar as balsas no Rio Madeira.

A maioria das balsas deixou a região a partir da quinta-feira da semana passada (25/11), mas os veículos são lentos, muitos dependem de rebocadores, e as forças federais estão conseguindo interceptar a fuga.

As primeiras informações dão conta de ao menos uma prisão e da apreensão de porções de mercúrio e de ouro, mas ainda não há um balanço.

Na manhã deste domingo, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cumprimentou o ministro da Justiça pela operação por meio de uma postagem no Twitter.

jair-e-torres.webp - Foto: Reprodução