Jardins filtrantes e telhados verdes: as soluções que podem evitar enchentes
Na última semana, temporal causou transtornos e deixou cinco mortos no Recife

Nos últimos dias, a cidade do Recife ficou, mais uma vez, debaixo d´água. A combinação de chuva forte com maré alta fez canais transbordarem e encharcou o solo de morros e encostas, deixando ruas e avenidas alagadas e causando deslizamentos de barreiras. Só na capital, cinco pessoas morreram em acidentes provocados pelo temporal.
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Problema histórico no município, as inundações estão ligadas às falhas no sistema de drenagem, que existe para fazer a água da chuva escoar e evitar que ela se acumule nas áreas urbanas (veja vídeo acima). Diante disso, o g1 e a TV Globo conversaram com especialistas em busca de soluções que podem resolver o problema de forma mais sustentável e definitiva.
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De acordo com o engenheiro Jaime Cabral, professor de drenagem urbana da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (UPE) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a geomorfologia do Recife torna a cidade mais suscetível a desastres naturais, já que está próxima ao nível do mar e tem muitos morros. O cenário é agravado pela vasta quantidade de solo asfaltado.
“A água, quando chove, converge toda para a parte da planície. Fora isso, a impermeabilização é um processo que foi muito prejudicial. Nos últimos 40, 50 anos, cada vez mais se asfaltou, concretou, encheu de pedra a cidade. Então a água não tem onde se infiltrar. [...] Além da geomorfologia desfavorável, a impermeabilização contribuiu bastante com os problemas que temos de drenagem”, comentou o professor.


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Procurada, a prefeitura do Recife disse que, nos últimos anos, investiu em obras de infraestrutura para eliminar os pontos de alagamento e reduzir o risco de deslizamentos de terra
Soluções de engenharia
Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE), Roberto Salomão do Amaral e Melo, há diversas soluções de engenharia, utilizadas em todo o mundo, que podem ser adotadas para reduzir os impactos causados pelas chuvas. Ele elencou cinco delas:
- Jardins filtrantes
- "Renaturalização" das margens dos rios e canais
- Sensores inteligentes em comportas de canais
- Infraestrutura permeável e telhados verdes
- Revegetação, muros permeáveis e drenagem subterrânea
Jardins filtrantes
- Do que se trata: são canteiros feitos com material permeável que usam a vegetação para absorver, filtrar e purificar a água da chuva, reduzindo a carga sobre o sistema de drenagem.
- Onde se aplicam: podem ser construídos não só em espaços públicos, como parques e praças, mas também em imóveis privados, principalmente em locais abertos perto da rua.
- Benefícios: redução do risco de enchentes, melhoria da qualidade da água drenada nos canais e aumento da permeabilidade do solo e da recarga dos aquíferos.
- Exemplo no mundo: os jardins filtrantes de Paris.
Em 2024 a prefeitura do Recife inaugurou um "parque alagável", com esse tipo de tecnologia, às margens do Rio Tejipió, na Zona Oeste da cidade. No entanto, para o presidente do CAU, ele por si só é insuficiente para resolver o problema dos alagamentos.
"Você precisa de muito mais numa cidade como o Recife. É preciso ter um olhar sistêmico, para a cidade como um todo. Não dá para resolver isso pontualmente", disse Roberto Salomão.
"Renaturalização" das margens dos rios e canais
- Do que se trata: são obras para retirar, ao menos parcialmente, o concreto impermeável que cobre as margens de rios e canais, alargar os cursos d'água e recompor a vegetação nativa.
- Benefícios: redução da velocidade do escoamento da água e do assoreamento dos rios, aumento da biodiversidade, absorção de poluentes e melhoria da qualidade da água.
- Exemplo no mundo: a despoluição do Rio Han, em Seul.
Também há obras desse tipo nas margens do Rio Tejipió. Entretanto, segundo o presidente do CAU-PE, Roberto Salomão, para que o projeto dê resultados em toda a cidade, seria necessário implantá-lo noutras áreas, com a desapropriação e a realocação de comunidades que vivem às margens de rios, córregos e canais — o que exigiria mais investimentos em moradia popular.
Sensores inteligentes em comportas de canais
- Do que se trata: instalação de sensores inteligentes que monitoram o fluxo das águas dos canais, alertando para o risco de transbordamento e fazendo a água escoar automaticamente.
- Onde se aplicam: nas comportas de canais que servem para armazenar a água quando o nível de acúmulo sobe drasticamente em dia de chuva, evitando que ela transborde para a rua.
- Benefícios: acompanhamento e controle em tempo real do nível das águas dos canais e prevenção de inundações com mais agilidade e eficiência.
- Exemplos no mundo: sistemas de monitoramento em canais de Amsterdã e Copenhague.
Hoje o Recife tem duas comportas no canal Derby/Tacaruna, que corta a Avenida Agamenon Magalhães. Elas foram construídas em 1999 para regular o fluxo da maré e impedir — ou ao menos dificultar — que a água invada a via. No entanto, funcionam manualmente e não dão conta dos estragos causados em dias de chuva.
“Temos que atualizar essas comportas, para elas ficarem bem ágeis para abrir e fechar, podemos colocar sensores [...] para quem for tomar a decisão poder tomar uma decisão mais acertada. E colocar as bombas. Tem poucas bombas, então tem que aumentar o número”, afirmou o professor Jaime Cabral.
Infraestrutura permeável e telhados verdes
- Do que se trata: uso de cobertura vegetal e pavimentos permeáveis, com microporos que facilitam a absorção de água pelo solo.
- Onde se aplicam: na pavimentação de ruas, nas estruturas de prédios e outros imóveis e em canteiros centrais de vias públicas.
- Benefícios: melhor infiltração da água no solo, redução da sobrecarga nos sistemas tradicionais de drenagem e diminuição da formação de enxurradas e erosões.
- Exemplos no mundo: a infraestrutura verde de Nova York.
Em 2015, o então prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), sancionou uma lei que institui a implantação de telhados verdes em novas edificações. Porém, ela não costuma ser respeitada e há pouco estímulo para que a legislação seja posta em prática, de acordo com o presidente do CAU-PE.
"A gente até tem uma lei de telhado verde aqui no Recife, só que a gente não estimula. Apesar de ter a lei, ela não é cumprida e tem toda uma mudança de cultura que precisa ter", disse Roberto Salomão do Amaral e Melo.
Revegetação, muros permeáveis e drenagem subterrânea nos morros
- Do que se trata: uso de muros de contenção feitos de concreto permeável, recomposição da vegetação nativa e sistema de remoção da água que se infiltra no solo.
- Onde se aplicam: nas encostas dos morros.
- Benefícios: redução dos riscos de deslizamento, melhoria da estabilidade do solo, prevenção de erosão, redução dos custos de manutenção e melhor recuperação das áreas atingidas.
- Exemplo no mundo: obras de infraestrutura verde na periferia de Medellín, na Colômbia.
Na avaliação de Roberto Salomão do Amaral e Melo, para implantar essas medidas, a cidade também precisa atualizar o Plano Municipal de Redução de Riscos Climáticos e investir na melhoria do sistema de monitoramento e alerta de riscos para a população.
"Está tudo disponível para a gente. O investimento é alto. Mas, se a gente não começar fazer isso de forma sistêmica, dentro da cidade como um todo, a gente sempre vai ficar atrás dos prejuízos", comentou o presidente do CAU-PE.
O que diz a prefeitura do Recife
Procurada, a prefeitura do Recife enviou uma nota informando que:
- nas áreas planas, investiu na recuperação e na macrodrenagem de limpeza de canais, além de barragens móveis, microdrenagem e eliminação de 21 pontos de alagamento;
- está finalizando a primeira etapa da dragagem do Rio Tejipió para solucionar os alagamentos na região;
- ainda em 2025 vai começar os estudos para modernizar o sistema de comportas no canal da Avenida Agamenon Magalhães;
- desde 2021 investiu R$ 494,5 milhões em obras em áreas de morro na cidade, promovendo 6.231 intervenções e beneficiando diretamente mais de 70 mil pessoas;
- do total de obras, 5.918 foram concluídas, incluindo construção de contenção de grandes encostas, recuperação de escadarias e implantação de corrimãos;
- a Autarquia de Urbanização do Recife (URB) concluiu 139 obras de contenção definitiva de encostas em toda a cidade, que beneficiaram mais de 20 mil pessoas, totalizando R$ 237,2 milhões em investimentos;
- outras 24 intervenções estão em andamento, com aporte de R$ 87 milhões;
- serão investidos mais R$ 75 milhões na construção de 15 contenções de barreira no município, por meio do Programa Promorar.
