Clínica de hipnose no DF garante 'cura gay' em até 6 meses; prática é proibida
Estabelecimento na Asa Sul anuncia 'garantia vitalícia' para 'tratamento do homossexualismo'; G1 tenta contato com dono
Uma clínica de hipnose que oferece, em Brasília, a "garantia vitalícia" para "tratamento do homossexualismo" (sic) será investigada pelo Conselho Regional de Psicologia (CRP). A prática da terapia de reversão sexual, a chamada "cura gay", é vedada pelo órgão e, em 2019, foi suspensa a partir de um entendimento do Supremo Tribunal Federal
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No site da Hipnoticus, Gabriel Henrique de Azevedo Veloso, garante ainda tratamento contra depressão e doenças autoimunes "antes mesmo da primeira sessão". O procedimento custa a partir de R$ 29,9 mil e, segundo ele, é o "equivalente a 70 anos de terapia".
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Até a publicação desta reportagem, o G1 tentava contato com o hipnoterapeuta. Ele atende na Asa Sul.
Para o Conselho Federal de Psicologia, terapias de reversão sexual representam "uma violação dos direitos humanos e não têm qualquer embasamento científico". A presidente do CRP-DF, Thessa Guimarães, explicou que, mesmo que Henrique não se apresente como psicólogo, as práticas oferecidas pelo estabelecimento dele "podem configurar exercício ilegal da profissão".


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"É vedado praticar curar gay ou cura trans. A resolução e o código de ética da psicologia dizem que é tarefa do profissional trabalhar para eliminação de qualquer forma de opressão racial, de identidade de gênero e econômica."
Na internet, o hipnólogo se diz filiado ao Conselho de Autorregulamentação da Terapia Holística (CRT) e se autointitula o "criador da psicoterapia sem falhas". A reportagem aguarda um posicionamento do órgão sobre o caso.
LGBTfobia
A prática de "reversão sexual" para gays, lésbicas e transgêneros oferecida pela clínica Hipnoticus também chamou a atenção da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do DF.
Presidente da comissão, o deputado distrital Fábio Félix (Psol) disse ao G1 que tomou conhecimento do caso por meio de uma denúncia anônima.
"Chegou até nós que a clínica estaria tentando tratar pessoas e se referindo à homossexualidade como doença, inclusive usado o sufixo 'ismo' como referência", disse o parlamentar. Desde 1990, a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde.
"É um absurdo completo. Nós vamos comunicar ao Ministério Público, à delegacia especializada [Decrin] e à Defensoria Pública para combater esse caso. Está sendo analisado como LGBTfobia, que, inclusive, já foi qualificado pelo STF como crime no Brasil."
Em abril de 2019, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, suspendeu uma decisão da Justiça Federal de Brasília que permitia a prática da "cura gay". Ela atendeu a pedido do Conselho Federal de Psicologia, que entrou no Supremo contra decisão do juiz da 14ª Vara Cível em Brasília, que autorizou psicólogos a realizarem terapias do tipo.
Resolução atual do conselho, no entanto, impede que psicólogos colaborem "com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades".
Já em janeiro deste ano, segundo informou o jornal "O Globo", Cármen Lúcia cassou a decisão da Justiça do DF e determinou o arquivamento do caso.
Hipnose
O G1 também ouviu a Sociedade Brasileira de Hipnose. Criada em 2016, a associação reúne cerca de 300 hipnólogos de todo país. O presidente, Erick Heslam Resende Ribeiro explica que a hipnose "não é uma terapia em si" e deve ser usada "como ferramenta para práticas éticas".
"A hipnose tem que seguir a mesma lógica da psicologia. O profissional não consegue mudar um traço de personalidade", diz. "Tratar vícios e doenças autoimunes.... Esses são problemas das especialidades médica e psicológica. Se o profissional não tem formação na área, isso se enquadra como exercício ilegal da profissão".
"Ser homossexual é um traço de personalidade e não se muda. Oferecer esse tipo de tratamento e muito antiético e beira ao charlatanismo."
Erick explica ainda que "nenhum tipo de terapia pode dar esse tipo de garantia e alerta para que as pessoas estejam alertas quando forem contratar profissionais da área. "O hipnoterapeuta que oferecer garantia de resultados não está sendo ético".
"O que a hipnose pode fazer é ajudar a aceitar a condição. Melhorar estratégias de relacionamento de pessoas homossexuais com a família. Não se trata a homossexualidade, porque ela não é uma doença."
O hipnoterapeuta Guilherme Alves, que atua em casos de disfunções sexuais, explica que a hipnose é um estado de transe. "O lado crítico, racional e mais analítico da pessoa fica reduzido, fazendo com que ela fique mais aberta para receber sugestões".
"Nesse estado, é possível tratar doenças psicossomáticas e fazer mudanças de hábitos, mas uma pessoa homossexual não tem nada a ser tratado, porque não é uma doença", explica Guilherme. "A técnica da hipnose não é perigosa, o risco é encontrar profissionais despreparados".
