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Violência contra a mulher em Alagoas. Onde vamos parar?

Crescimento da denúncia, sem ampliação da rede, instala um estado de caos


				Violência contra a mulher em Alagoas. Onde vamos parar?
Paula Lopes é advogada e ativista pelos direitos das mulheres. Arquivo pessoal

As atuais notícias que circulam na mídia relacionadas à violência contra a mulher são cada vez mais recorrentes.

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Isso demonstra que os cartazes do tipo: DENUNCIE!, propagados durante anos, começam a surtir efeito.

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O entrave está justamente: onde denunciar se você não morar na capital? Até qual horário? Onde posso me proteger?

O crescimento da denúncia, sem ampliação da rede, instala um estado de caos.

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São casos expostos nas mídias sociais que refletem um quadro absurdo de crimes cruéis, carregados de misoginia e machismo, em que os homens (autores da violência) se manifestam de forma truculenta como donos do corpo e da vida da mulher. Segundo a escritora Buchi Emecheta, colocando a mulher como o ser menos valorizado socialmente, como uma cidadã de segunda categoria.

Essa forma de pensar e agir dos homens, que se acreditava defasada e inaceitável em pleno século XXI, tem amedrontado as mulheres da capital Maceió e de diversas cidades do interior, onde a rede de proteção ainda é escassa.

Na data de hoje, contamos com 9 feminicídios somente em 2025, um crime evitável, denunciado veementemente em 2018, por meio da CDDM – Centro de Defesa dos Direitos da Mulher – e de grandes mobilizações em 2022 com passeatas alavancadas pelo Movimento Levante Feminista. Porém, seguimos até o momento sem estratégia ou programa para dirimir essa violência em nível estadual e municipal. Sem falar nos casos absurdos de espancamento, estupro, stalking e outras violências que têm vindo cada vez mais à tona através da internet.

Um último vídeo que acompanhamos mostra uma mulher sendo espancada em via pública no centro da cidade. Um taxista que aguarda o suposto agressor vê a cena de violência e finge não ver. O que chama atenção é a real crueldade com que se manifesta o violento e o nível de complacência e invisibilidade tratado por outro homem que finge não acontecer nada com aquela mulher. Se não fossem as câmeras do sistema de videomonitoramento da SSP, a palavra da vítima talvez fosse questionada diante da afirmação de dois homens que diriam o contrário.

Em outra rede social, chama atenção o caso de um pai que pede ajuda para sua filha que foi violentada em uma festa, numa chácara de uma cidade pequena de Alagoas, e a distância e complexidade que é o acesso à justiça para mulheres no interior. Já se passaram quatro meses, e a menina de 19 anos se encontra em estado vegetativo diante das violências que sofreu, e o agressor segue solto, vivendo sua vida normalmente – até que o vídeo viralizou.

Nesse caso, o pai do agressor, fazendo as vezes de patriarca, veio também às redes sociais defender o filho, expondo, mais uma vez, as funções de pai de família e homem trabalhador como virtudes que validariam mais do que a agressividade do filho. Com o vídeo, ficou ainda mais claro que esses papéis sociais relatados acima não têm nada a ver com a violência e o estupro, reforçando ainda mais que não há um estereótipo para um homem que é violento com as mulheres, podendo ser qualquer um.

Vejam que crueldade é pensar que, neste caso, o corpo da mulher solteira é público, podendo quem quiser violentar; e, no caso citado anteriormente, o corpo da mulher casada pertence ao marido, portanto, ele poderia ser violento sem que outros interfiram em sua "propriedade". Vale lembrar de Simone de Beauvoir, a filósofa que, no início do século XX, já falava que as mulheres precisam ser reconhecidas como seres humanos (“O Segundo Sexo”) e, por isso, têm direitos.

Mas, voltando a falar da morte de mulheres por condição de gênero – ou, dito popularmente, a morte de mulheres por serem mulheres – não queremos chegar à décima morte. Não queremos ser a próxima vítima.

A violência contra a mulher em Alagoas é cultural e nos atravessa a garganta e a alma, nos faz sentir medo e revolta, nos faz sentir inseguras e tristes. Por isso escrevo, para que possamos, juntas, lutar e exigir soluções palpáveis para a preservação da nossa vida e da vida das nossas filhas.

Um Estado construído dentro da cultura da violência precisa, mais do que nunca, introjetar políticas de Estado com estratégias para construir uma cultura de paz – e, com isso, que os homens parem de se matar entre si e também deixem de violentar as mulheres.

Precisamos parar de pensar que é somente a segurança pública que vai resolver todos os problemas do Estado, porque, quando a polícia chega, tudo já aconteceu. Logo, quem fará esse trabalho antes? A ministra Cármen Lúcia declarou, semana passada, que vivemos uma guerra contra as mulheres, onde cerca de 21 milhões de nós fomos vitimadas no Brasil somente no ano de 2024, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Mas sabemos que não se combate uma guerra apenas depois dos mortos. É preciso desconstruir o inimigo – que, nesse caso, não é o homem, mas sim o machismo que atrapalha a vida em sociedade. Enquanto isso não acontece, assistiremos a mais vídeos, seremos, a cada dia, um número maior nas estatísticas e continuaremos com a rede de proteção furada e os abrigos cada vez mais cheios.

Paula Lopes

Advogada e ativista pelos direitos das mulheres.

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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