Quem é você no aeroporto?
Se existe alguma vantagem em estar num aeroporto, certamente é a possibilidade de fazer uma espécie de estudo antropológico

Observar como as pessoas se comportam: se levam consigo a casa, muitas vezes carregando mais do que conseguem, ou se são minimalistas; se usam roupas confortáveis ou completamente desconexas; se carregam sinais de alguma religião específica; como interagem com o espaço incômodo das cadeiras de espera; se deixam os filhos livres para fazer o que lhes dá na cabeça ou se tiram da bolsa do Gato Félix 348 artimanhas para mantê-los entretidos. Se falam alto, se mudam de idioma ao longo de uma conversa, se estão com cecê ou chulé, se passaram no free shop.
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Esses detalhes parecem absolutamente bobos. Mas alguns deles, especialmente quando combinados e observados em contexto, podem oferecer pistas sobre como uma pessoa se vê, se trata e estabelece suas prioridades. Podem sugerir hábitos, referências de educação e até pouca familiaridade com uma viagem. São códigos. E vale lembrar: não existe narrativa sem código.
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Há cerca de um ano, uma grande amiga esqueceu algo importante em casa e me pediu para levar até ela no aeroporto. Essa amiga sempre foi uma pessoa extremamente educada e, no geral, se vestia bem — do contrário, não saía comigo.
Quando cheguei ao aeroporto, praticamente não a reconheci. Ela usava uma legging preta daquelas tão gastas que chegam a ter bolinhas, com meias por cima, esticadas até o meio da canela. Carregava uma mochila que parecia de acampamento, com aqueles fechos na altura do abdômen. A mochila estava prestes a explodir. O tênis implorava por um pano. A camiseta parecia daquelas de campanha eleitoral, embora tivesse outro desenho na frente. Havia ainda um apoio de pescoço, os cabelos completamente desgrenhados e uma pochete por cima da camisa.


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Eu me assustei e perguntei se ela estava indo passar férias na Colômbia ou voltando de uma frente de batalha da Guerra dos Farrapos. Nós rimos.
E talvez você se pergunte: as pessoas mudam o comportamento e, consequentemente, os códigos quando sabem que vão voar e passar horas amassadas na mesma posição? Sim e não. Elas podem alterar a maneira de se vestir para lidar com a viagem. Mas, no caso daquela amiga, que eu conhecia para além daquele aeroporto, aquilo me pareceu uma caricatura extravagante de sua narrativa interna. Características que, numa situação de controle e normalidade, não ficavam tão aparentes estavam ali, ampliadas. A perspectiva de enfrentar restrições de espaço, comida e banheiro havia colocado uma lupa sobre suas prioridades. Então, vamos aos detalhes.
Sabe por que a mochila estava explodindo? Porque ela não quis pagar por uma bagagem extra. “Mão de vaca” que só. Economizar, por si só, não era o problema. Mas até onde ela estava disposta a transferir o incômodo dessa economia para os outros? Uma mochila daquele tamanho, se acomodada de maneira inadequada, não poderia ocupar o espaço de outro passageiro? Ela se preocuparia com isso? Eu tinha meus motivos para duvidar. Pouco antes, havia feito um escândalo, seguido de uma profunda chantagem emocional ao telefone, para que eu saísse do meu compromisso e levasse mais uma peça de roupa para se juntar àquela mochila. Naquele momento, não estava se importando com o meu tempo. Por que eu presumiria tanto cuidado com o espaço dos demais?
Mas e os cabelos desgrenhados? Ela não se vestia sempre tão bem? Sim. E era justamente essa contradição que me chamava a atenção. Sempre priorizou roupas e acessórios, sem compreender que o cuidado consigo também envolve aquilo que uma roupa bonita não resolve. Um dente da frente, que havia escurecido depois de um acidente na adolescência e precisava de tratamento, continuava sendo adiado. Enquanto isso, as compras de besteiras na Shein seguiam firmes. O que era um cabelo bagunçado ou uma roupa feia diante de um cuidado tão importante, repetidamente deixado para depois?
Voltei dirigindo para casa e percebendo que os sinais estavam todos ali: na vestimenta, no comportamento, na fala, nas prioridades e na relação com o dinheiro. Alguns apareciam sob uma lupa; outros, mais discretos, já faziam parte do cotidiano. Eu não havia descoberto aquela amiga no aeroporto. Havia reconhecido, numa versão exagerada, comportamentos que já conhecia. Isso também me fez pensar na leitura que fazemos dos desconhecidos. Às vezes, a desordem que alguém externaliza parece um espelho de sua maneira de viver. É uma hipótese, não uma sentença: uma viagem difícil, uma noite sem dormir ou uma emergência também deixam marcas. Mas, quando aquilo se repete em diferentes espaços, vale prestar atenção.
Daí, caro leitor, você vai me dizer: “Ninguém ama a desordem.” Ama, sim. Ou, pelo menos, se acostuma tanto com ela que deixa de percebê-la. Quanta bagunça você aguenta ao seu redor? Como está a mesa do seu trabalho? Seu closet? Sua estante de livros? A gaveta ao lado da cama? O armário embaixo da pia do banheiro? A bolsa que você usa todos os dias? Quando a desordem ocupa tantos lugares, cabe perguntar o que a mantém ali. Falta de tempo? Excesso de coisas? Prioridades adiadas? O hábito de deixar para depois até que o incômodo alcance alguém?
No aeroporto, tudo isso pode ganhar uma vitrine: as três sacolas velhas, o jeito atrapalhado de quem esbarra em todos, procura um documento que não sabe onde guardou e pede desculpas ora em português, ora em espanhol, ora em inglês. O idioma muda. O atropelo continua. Então, eu te pergunto: quem é você no aeroporto?
Se fizesse um simples deslocamento de perspectiva e se observasse como quem olha um desconhecido, que leitura faria de si a partir dos códigos que usa? Eu fiz a minha. E descobri que a minha bagunça estava em manter uma antiga amizade pelo histórico que compartilhávamos e pela minha própria insegurança emocional (esse sim, um código bastante pesado) no fundo não tínhamos nada em comum nem mesmo princípios.
Por: Chris Kumakola
Chris Kumakola é historiadora, com pesquisa no Museu Campo de Auschwitz sobre Narrativa. É autora de duas obras e ghostwriter de outros 42 livros.
Como gestora, foi a mulher mais jovem do Brasil a assumir e recuperar uma holding em recuperação judicial, reavendo aos cofres da companhia mais de 15 milhões de reais em um ano.
Foi fundadora de uma legaltech e uma edutech. Atualmente é CEO do ecossistema Efeito Narrativa, onde direciona senadores, deputados, grandes empresários, multinacionais frente a arquitetura narrativa que sustenta poder e blindagem reputacional no mercado.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
