Médica e mãe de 4 filhos alerta: o maior erro das famílias na alimentação infantil é buscar perfeição
Período que vai da gestação até os dois anos da criança são decisivos para a formação da saúde infantil

Por muito tempo, a alimentação infantil foi tratada como uma lista rígida de regras. Horários perfeitos, pratos impecáveis, crianças que comem de tudo sem dificuldade. Mas a realidade dentro das casas brasileiras está muito distante disso e talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores problemas da infância atual.
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Como médica e mãe de quatro filhos, defendo um ponto que ainda incomoda muitas famílias: a pressão excessiva por uma alimentação “perfeita” pode prejudicar mais do que ajudar.
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Os primeiros 1000 dias de vida, período que vai da gestação até os dois anos da criança, são decisivos para a formação da saúde infantil. É nessa fase que o organismo se desenvolve intensamente e recebe estímulos capazes de impactar a imunidade, o desenvolvimento cerebral, o metabolismo e até a relação da criança com a comida ao longo da vida.
Mas existe um erro silencioso que vem crescendo entre muitas famílias: transformar a alimentação infantil em um ambiente de medo, culpa e cobrança constante.


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Dentro da minha casa, com quatro crianças, também existem dias difíceis. Dias em que um filho não quer experimentar determinado alimento, outro pede sempre a mesma coisa e a refeição não acontece como imaginei. E foi justamente vivendo a maternidade que entendi algo importante: crianças saudáveis não são aquelas que comem perfeitamente todos os dias, mas aquelas que crescem em um ambiente sem medo, sem pressão e com boas oportunidades alimentares ao longo do tempo.
Na prática clínica, é comum encontrar pais angustiados porque o filho recusou legumes, não aceitou determinada fruta ou passou dias comendo menos. Nas redes sociais, a realidade também costuma ser distorcida. Crianças sorrindo diante de pratos impecáveis fazem parecer que alimentar bem um filho deveria ser algo simples e linear. E não é.
Muitas crianças precisam entrar em contato várias vezes com o mesmo alimento até aceitá-lo. Isso faz parte do desenvolvimento alimentar esperado. O problema é que muitos pais interpretam a recusa como fracasso e acabam criando um ambiente de tensão durante as refeições.
Isso não significa ignorar os riscos do excesso de ultraprocessados ou do consumo exagerado de açúcar na infância. Pelo contrário. Os primeiros anos de vida são fundamentais para a construção dos hábitos alimentares, e crianças expostas precocemente a alimentos naturais, frutas, legumes e refeições em família tendem a desenvolver uma relação mais saudável com a comida no futuro.
O ponto central é entender que alimentação saudável não é sinônimo de rigidez extrema.
Um bolo em um aniversário, um doce ocasional ou um alimento fora da rotina não definem a saúde de uma criança. O verdadeiro problema surge quando produtos ultraprocessados deixam de ser exceção e passam a ocupar diariamente o espaço da comida de verdade.
Outro ponto importante é compreender que mães e pais reais enfrentam cansaço, rotina corrida, inseguranças e recusas alimentares. E isso não os torna menos cuidadosos. A culpa excessiva materna em torno da alimentação infantil tem adoecido emocionalmente muitas famílias.
A infância não precisa de pratos perfeitos. Precisa de adultos presentes, conscientes e consistentes.
Mais do que nutrir o corpo, alimentar uma criança é construir vínculo, memória afetiva e segurança emocional. É ensinar equilíbrio em vez de radicalismo. É mostrar que comida também pode ser acolhimento, convivência e afeto.
Talvez esteja na hora de abandonarmos a ideia de perfeição alimentar e começarmos a falar mais sobre algo muito mais importante: relações saudáveis com a comida desde a infância.
Dra. Amuny Gobato Abou Adile Santos
CRM: 239043-SP
Pediatria | Especialista em nutrição infantil
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
