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Entre o sangue, a tela e o vínculo: a anatomia psicológica da violência, das relações tóxicas e do labirinto jurídico

Precisamos olhar para o coração e para a mente humana sob a luz da Psicologia Jurídica e da Terapia Cognitivo-Comportamental


				Entre o sangue, a tela e o vínculo: a anatomia psicológica da violência, das relações tóxicas e do labirinto jurídico

Há dias em que o consultório silencia de uma forma pesada. Não é a ausência de som, mas o eco de histórias onde o afeto, que deveria ser abrigo, se transformou em campo de batalha. Quando lemos os relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e vemos o mapa da violência letal contra a mulher desenhar tragédias crescentes nas regiões Norte e Centro-Oeste — realidades que conheço de perto e que ferem o solo do nosso país —, a estatística nos choca. Mas o que acontece antes de o número virar luto? E, no outro extremo, o que leva um relacionamento a se corromper a ponto de transformar a dor, o patrimônio e as leis de proteção em armas de retaliação e falsas acusações?

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Para responder a isso, precisamos olhar para além dos boletins de ocorrência. Precisamos olhar para o coração e para a mente humana sob a luz da Psicologia Jurídica e da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). É aqui que a "liga" se forma: na compreensão de que o conflito conjugal patológico é um colapso da regulação emocional, onde o outro deixa de ser um sujeito e passa a ser alvo de controle.

Leia também

1. O solo fértil do abuso: da violência silenciosa à destruição material

Na clínica, o que diferencia um desentendimento comum de uma relação abusiva é a assimetria do poder e o padrão de coerção. Sob a perspectiva da TCC, indivíduos abusivos operam sob crenças centrais rígidas de posse e desvalor.

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Muitas vezes, a violência não se inicia pelo corpo, mas pelo bolso e pela mente. A violência patrimonial — frequentemente negligenciada — é uma das armas mais cruéis de subjugação: o controle de dinheiro, a retenção de documentos, a destruição deliberada de bens de trabalho ou pessoais da vítima e o cerceamento da autonomia financeira. É uma estratégia calculada para minar a capacidade de saída daquele ambiente, gerando o desamparo aprendido. Quando a vulnerabilidade social se une a essa teia de controle, a pessoa se vê presa não apenas pelo medo físico, mas pela asfixia de sua própria subsistência.

2.A era do registro: a tecnologia como prova e espelho

Nesse cenário de conflitos que escalam, uma nova ferramenta mudou a dinâmica dos consultórios e dos tribunais: a palma da nossa mão. Hoje, celulares e câmeras de segurança tornaram-se testemunhas silenciosas do cotidiano doméstico.

Temos visto uma enxurrada de gravações virando à tona. De um lado, mulheres acuadas que usam o celular para registrar a frieza e a brutalidade de agressões psicológicas e físicas, buscando provas para salvar a própria vida. Do outro, homens que também se valem de gravações e vídeos para se respaldar de agressões que sofrem ou para se defender de escaladas de hostilidade mútua. A tecnologia escancara a crueza dos lares: o conflito deixou de ser "a palavra de um contra a palavra do outro" e passou a ser exposto em arquivos digitais de áudio e vídeo.

3.A virada do espelho: quando a dor inverte o sentido e a lei

Mas a complexidade humana é vasta, e a prática da Psicologia Jurídica nos coloca diante de um cenário incômodo. Com o avanço e a publicidade dos mecanismos de proteção — tendo a Lei Maria da Penha como o marco legal mais proeminente e vital —, os tribunais também testemunham o avanço de falsas denúncias e o uso instrumental de medidas protetivas em disputas de divórcio e guarda.

O que leva um parceiro a arquitetar mentiras jurídicas? Do ponto de vista psicológico, estamos diante de quadros de desregulação emocional extrema, traços de personalidade marcados por vindita e uma profunda falta de empatia perante o dano colateral — que atinge, de forma cruel, os filhos, transformados em moeda de troca.

Quando a lei, feita para salvar vidas, é manipulada como ferramenta de vingança, ocorre uma fratura social. A falsa denúncia não é apenas um crime; ela descredibiliza a mulher que chora em silêncio e realmente corre risco de morte, ao mesmo tempo em que destrói a honra e a sanidade de inocentes.

4.A responsabilidade do olhar clínico e jurídico

Como psicóloga que transita entre a clínica e a interface jurídica há 16 anos, afirmo: não podemos fechar os olhos para nenhuma das realidades. Ignorar a escalada do feminicídio e a opressão real é desumano. Mas, por outro lado, fechar os olhos para o fato de que existem vidas destruídas por acusações falsas capturadas em vídeos editados ou mentiras processuais é um erro técnico e ético grave.

O sistema de justiça, auxiliado pela perícia psicológica e pela análise forense das provas digitais, precisa afiar seu discernimento. É preciso proteger com unhas e dentes quem está em risco real — seja por violência física, psicológica ou patrimonial —, ao mesmo tempo em que se penaliza a litigância abusiva e a denunciação caluniosa.

Concluo dizendo que cuidar da saúde mental e dos vínculos familiares exige coragem. Exige tirar os óculos da ideologia e colocar os óculos da ciência, da empatia e da verdade. A violência — seja o soco, a asfixia financeira do patrimônio ou a mentira calculada gravada em uma tela — nasce do mesmo lugar: da incapacidade humana de lidar com a frustração, com o término e com o outro em sua alteridade.

Enquanto continuarmos a tratar o sofrimento humano como cabo de guerra político, continuaremos perdendo vidas. E a psicologia existe justamente para lembrar que por trás de cada vídeo, de cada processo, de cada estatística e de cada lágrima, existe uma mente humana que precisa ser curada antes que destrua a si mesma e aos outros.

Referências

* Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: FBSP, 2023/2024.

* Conselho Federal de Psicologia (CFP). Referências Técnicas para a Atuação do Psicólogo no âmbito da Justiça. Brasília: CFP.

* Beck, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3ª Edição. Porto Alegre: Artmed, 2021.

* Artigos e Pareceres em Psicologia Jurídica e Forense: Estudos sobre dinâmicas de litigância familiar complexa, violência patrimonial e o impacto das provas digitais nos Varas de Família e de Violência Doméstica (indexados na SciELO).

Gabriella Matias - Psicóloga Clínica | CRP 20/03139

Especialista em Terapia Cognitiva; Educação Especial e Psicomotricidade; Psicologia Clínica; Psicologia Jurídica; Neuropsicologia e Psicologia Organizacional. 16 anos de experiência clínica | Formada na primeira turma de psicólogos do Estado de Roraima.

Instagram: @gabriellamatias_psi

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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