Educar sem medo: por que os limites são importantes para o desenvolvimento das crianças
Dizer “não” também é uma forma de cuidado. Quando estabelecidos com respeito, os limites ajudam a criança a desenvolver segurança, responsabilidade e autonomia

Existe hoje uma preocupação muito legítima entre pais e educadores em não repetir modelos antigos de educação baseados em gritos, ameaças, humilhações ou violência. Crianças não precisam ter medo dos adultos para aprender a respeitá-los. Mas, na tentativa de fazer diferente das gerações anteriores, algumas famílias acabaram encontrando outro extremo: o medo de frustrar os filhos.
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A dificuldade em sustentar um “não”, as negociações intermináveis e a necessidade de explicar cada decisão inúmeras vezes podem fazer com que os pais se sintam inseguros diante de situações que, na verdade, fazem parte do processo de educar.
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Precisamos compreender que limite e falta de amor não são sinônimos. Pelo contrário. Quando estabelecido com respeito, o limite pode ser uma das formas mais concretas de cuidado.
Autoridade também não é autoritarismo. O autoritarismo utiliza o poder para controlar e intimidar. A autoridade saudável oferece direção e segurança. Uma criança precisa saber que existem comportamentos que não são aceitáveis, responsabilidades que fazem parte da vida familiar e regras de convivência que continuam existindo mesmo quando ela não está de acordo.


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Isso não significa que os adultos precisem gritar para serem obedecidos. Muitas vezes, uma frase simples é suficiente: “Eu sei que você queria continuar brincando, mas agora é hora de ir para casa”.
A criança pode chorar. Pode ficar contrariada. Pode dizer que não quer. E, ainda assim, o limite pode permanecer.
Esse é um ponto importante: o desconforto diante de um limite não significa que ele esteja errado.
Nenhuma criança atravessará a vida sem ouvir “não”. Haverá momentos em que precisará esperar, abrir mão de algo que deseja, respeitar regras, cumprir responsabilidades e lidar com situações que não escolheu. Por isso, a infância também é um período de aprendizagem sobre a própria capacidade de enfrentar frustrações.
Não precisamos criar sofrimento para ensinar uma criança a ser forte. Mas também não precisamos eliminar toda frustração que aparece em seu caminho.
Existe uma diferença entre acolher a frustração e impedir que ela aconteça. Podemos acolher uma criança que chora porque não ganhou o brinquedo que queria sem comprar o brinquedo para fazê-la parar de chorar. Podemos reconhecer sua tristeza sem mudar nossa decisão.
“Eu sei que você ficou triste. Você queria muito. Mesmo assim, hoje não vamos comprar.”
A criança começa a aprender que uma emoção difícil pode ser atravessada. Que estar frustrada não significa estar desamparada. E que nem tudo o que desejamos estará imediatamente disponível.
Da mesma forma, uma educação respeitosa não exige que os adultos sejam permissivos. É possível corrigir um comportamento sem atacar a dignidade da criança. Em vez de dizer “você é muito malcriado”, podemos dizer: “Eu não aceito que você fale comigo dessa maneira. Você pode tentar novamente”.
Em vez de ameaçar, podemos estabelecer uma consequência coerente com aquilo que aconteceu. Em vez de exigir que a criança pare de chorar imediatamente, podemos permanecer próximos enquanto ela atravessa a própria frustração.
O objetivo não é fazer a criança sentir medo do adulto. É ajudá-la, pouco a pouco, a desenvolver autocontrole, responsabilidade e respeito.
As crianças também precisam de previsibilidade. Quando uma regra existe em um dia, mas deixa de existir no seguinte porque houve choro, insistência ou cansaço dos pais, a criança não recebe uma referência clara. Ela aprende que talvez precise insistir um pouco mais para conseguir o que deseja.
Isso não significa que uma família precise funcionar de maneira rígida. Regras podem ser revistas, circunstâncias mudam e crianças crescem. Mas aquilo que foi estabelecido precisa, na medida do possível, ser sustentado com coerência.
A coerência entre os adultos responsáveis pela criança também faz diferença. Não é necessário que pai e mãe tenham a mesma personalidade ou pensem exatamente da mesma maneira. Mas é importante que exista um entendimento sobre os princípios fundamentais da educação.
Quando um adulto estabelece uma regra e o outro imediatamente a desfaz, a criança recebe uma mensagem confusa. As divergências entre os adultos fazem parte da vida, mas precisam ser conversadas entre eles, sem transformar a criança em espectadora ou árbitra da relação.
Outro aspecto importante é a autonomia. Muitas vezes, fazemos pelos filhos aquilo que eles já poderiam começar a fazer sozinhos. Guardamos seus brinquedos, organizamos seus objetos, resolvemos pequenos conflitos, antecipamos suas necessidades e retiramos de seu caminho qualquer dificuldade.
Tudo isso pode nascer do amor e do desejo de proteger. Mas, quando fazemos constantemente aquilo que a criança já tem condições de fazer, também diminuímos suas oportunidades de experimentar responsabilidade.
Autonomia não é deixar a criança sozinha. É permitir que ela assuma, progressivamente, responsabilidades compatíveis com sua idade, enquanto o adulto continua presente para orientar e ensinar.
Talvez uma das mudanças mais importantes na maneira de pensar a educação seja compreender que vínculo e limite não são opostos. Podemos ser firmes e afetuosos. Podemos dizer “não” e continuar disponíveis. Podemos corrigir sem humilhar. Podemos frustrar sem rejeitar.
Uma criança pode não gostar de uma decisão dos pais e, ainda assim, sentir-se profundamente amada por eles.
Educar sem medo não significa criar crianças que nunca sejam contrariadas. Significa não utilizar o medo como instrumento de educação.
A criança não precisa temer o adulto para respeitá-lo. Ela precisa encontrar nele uma referência segura, alguém que saiba acolher, orientar, corrigir e, quando necessário, sustentar um “não” com serenidade.
No fim, o objetivo da educação não é criar uma criança que obedeça apenas quando alguém está olhando. É ajudá-la a desenvolver, pouco a pouco, os recursos internos necessários para fazer boas escolhas quando o adulto já não estiver por perto.
Limites não diminuem o afeto. Quando oferecidos com respeito, ajudam a criança a construir segurança, responsabilidade e autonomia.
E talvez educar seja justamente isso: amar o suficiente para acolher e amadurecer o suficiente para também saber dizer não.
Rafaela Bacim
Cirurgiã-dentista, especialista em Ortodontia, com formação em Psicoterapia e mais de dez anos de estudos dedicados ao desenvolvimento humano. Atua com mulheres, mães e famílias, auxiliando no fortalecimento da identidade, na reconexão consigo mesmas e na reconstrução após relações que as fragilizaram, além de orientá-las na construção de uma maternidade mais consciente e na educação de filhos emocionalmente mais seguros. Atualmente, realiza atendimentos de psicoterapia de forma on-line.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
