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HOME > blogs > LETRAS DE ALAGOAS
Imagem ilustrativa da imagem AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA - I | Benedito Ramos

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Letras de Alagoas

AS MARCAS DA ESCRAVIDÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA - I | Benedito Ramos

Representado apenas como um meio de produção, o escravo, mesmo sem ter nenhuma posição na sociedade senhorial brasileira, tornou-se peça fundamental no futuro de uma nova geração que iria compor a base da pirâmide social do país pela miscigenação. Esta, se forçada ou voluntária deu ao Brasil uma feição de falsa harmonia entre as principais raças, onde o negro, estereotipado como etnicamente, inferior, não pôde dispor da sua liberdade com o propósito de crescimento material ou espiritual. Ao contrário, permaneceu no limbo, das relações periféricas, do tipo compadres e comadre, padrinho e afilhado na fidelidade tacanha da autoridade do Senhor. E isto foi fator decisivo para a formação do caráter brasileiro, onde o preconceito racial se disfarça, nesta aparente relação de cordialidade e respeito, mas que culturalmente, reflete o mesmo ranço ancestral do sectarismo racial que permeou com tanto vigor os primeiros anos deste país. É o que nos conduz a leitura de autores como Herbert S. Klein, Maria Helena Pereira Toledo Machado, Jacob Gorender, Caio Prado Jr. e Emília da Costa Viotti, cujas obras traçam o esboço, de um panorama, das relações escravistas na sociedade brasileira, a partir do período colonial assim como os seus reflexos na atualidade. A origem desta saga se faz em um paralelo histórico rumo ao desenvolvimento econômico, onde a mão de obra cativa se torna fator decisivo ao crescimento da produção.

O que hoje assinalamos como início da idade moderna, na Europa é marcado por inúmeras diferenças regionais motivadas, principalmente, pela falta de unidades estatais amplas com a mesma cultura, língua e poder, que fazia com que a estrutura medieval ainda prevalecesse ativa. Havia, no entanto, uma ampla expansão urbana e o crescimento da riqueza fora da esfera aristocrática e fundiária – o comércio. O renascimento devolvia ao homem a grandeza perdida, da Roma Imperial e fazia com que os italianos se tratassem mutuamente de: “nós os latinos”. Todo este cenário de fausto buscava um comércio ativo que fizesse circular produtos de vestuário e especiarias e novas tecnologias que exigiam rotas marítimas diferentes e novos nichos de mercado. Principalmente, porque os mouros eram donos de todo o mediterrâneo.

A partida inicial da Espanha de Fernando e Isabel ao continente americano deu impulso a Portugal para a mesma iniciativa. O Brasil representou, desde o princípio do descobrimento, uma fonte de exploração de riquezas destinadas a suprir um mercado cada vez mais exigente e competitivo. Razão pela qual tornou-se interessante a exploração da monocultura do açúcar e a implantação dos primeiros engenhos. É o que assevera Caio Prado Jr. em seu livro Formação do Brasil Contemporâneo, ed. Brasiliense p. 22: “ (...) no essencial, todos os grandes acontecimentos desta era, que se convencionou com razão chamar dos “descobrimentos”, articulam-se num conjunto que não é senão um capítulo da história do comércio europeu. Tudo que se passa são incidentes da imensa empresa comercial a que se dedicam os países da Europa a partir do século XV, e que lhes alargará o horizonte pelo oceano afora. Não tem outro caráter a exploração da costa africana e o descobrimento e colonização das Ilhas pelos portugueses, o roteiro das Índias, o descobrimento da América, a exploração e ocupação de seus vários setores. ” Isto corrobora para desmitificar a idéia de um propósito colonizador fora de uma esfera de interesse comercial da coroa portuguesa. Como volta a salientar o mesmo autor, na p.23: “ (...)A idéia de povoar não ocorre inicialmente a nenhum. É o comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primitivo e vazio que é a América; e inversamente, o prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis. ”

A esta altura dos acontecimentos, a urbe surge num processo paralelo ao desenvolvimento dos meios de produção, do engenho das casas de colonos e do próprio desmatamento inevitável para abrir as terras à lavoura. Se Portugal esperava ganhar na extração de riquezas naturais, considerando que o ouro, a prata e pedras preciosas não apareceram no primeiro instante, a transformação da cana-de-açúcar em produto de exportação, exigia bem mais que o trabalho indígena disponível, mas uma estrutura urbana que pudesse garantir a defesa do empreendimento. E isto é fator preponderante para vinda de militares. “ (...) A idéia de ocupar, não como se fizera então em terras estranhas, apenas como agentes comerciais, funcionários e militares para a defesa, organizados em simples feitorias destinadas a mercadejar com os nativos e servir de articulação entre as rotas marítimas e os territórios ocupados; mas ocupar com povoamento efetivo, isto só surgiu como contingência necessidade imposta por circunstâncias novas e imprevistas. ” (Caio Prado Jr. P.24)

Vem então a questão do trabalho, propriamente dito, nas primeiras lavouras, no desmatamento, no plantio da cana. À luz do que nos adverte Caio Prado Jr. P.39: “ Nas demais Colônias tropicais, inclusive no Brasil, não se chegou nem a ensaiar o trabalhador branco. ” Quem então integrou esta mão de obra? Diz Alexandre Marchant em seu livro Do Escambo à Escravidão, publicada em 1943 pela Companhia Editora Nacional, com tradução de Carlos Lacerda, p.20: “O aspecto mais negligenciado, nos estudos sobre o primeiro século da história do Brasil, é o das relações econômicas entre os portugueses e os nativos. Essa negligência é surpreendente, pois ainda que seja recente e comparativamente pequeno o interesse pelos aspectos econômicos da história do Brasil, não se pode esquecer que durante quase um século os indígenas e os portugueses estiveram quase sozinhos no Brasil”. A realidade é que a primeira leva de escravos, só veio chegar oficialmente ao Brasil, a partir de 1549, se bem que alguns autores tenham mencionado a existência de escravos em São Vicente, a partir de 1535. O certo é que, segundo Roberto Simonsen – História Econômica do Brasil, p.171, entre 1560 e 1570 o Brasil tinha 60 engenhos que exportaram 160 mil arrobas de açúcar para Lisboa.

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Benedito Ramos Amorim

Pesquisador, Crítico de Arte e Coordenador de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió, tem livros publicados a partir de 1974: Mona Lisa Um Autorretrato de Leonardo da Vinci - Pesquisa, em 1979 Lamento Derradeiro que recebeu o Prêmio Moinho Nordeste da Academia Alagoana de Letras – Contos, 2003 A Construção do Palácio do Comercio – Pesquisa, Edufal, 2005, Um Amor Além do Tempo – Romance, HD Livros, 2006, Doce de Mamão Macho – Novela, Editora Catavento. Articulista em diversos jornais da capital alagoana desde 1976, no extinto Jornal de Alagoas desde 1976, a partir de 2002 no O Jornal e Jornal Gazeta de Alagoas. Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras com o romance inédito Pensamentos Mágicos em 2006, ano em que assumiu a cadeira número 9 da Academia Alagoana de Letras. Editor por 5 anos do jornal O Palácio publicado pela Coordenadoria de Ação Cultural e Social da Associação Comercial de Maceió. 2019 Prêmio Editora Gracialiano Ramos com edição dos livros, Nadi e 2ª Edição do livro Doce de Mamão Macho.