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Imagem ilustrativa da imagem ANDANÇAS NA MINHA CIDADE | Vanessa Omena

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Letras de Alagoas

ANDANÇAS NA MINHA CIDADE | Vanessa Omena

Um dos livros que mais me encantaram e me fez viajar por lugares sonhados e em passado distante foi Viagens Na Minha Terra, do escritor português Almeida Garrett (1799-1854). No percurso pelo interior de seu país, desde Lisboa a Santarém entre montanhas, vales e planícies rio Tejo acima (ribatejo), o escritor descreve lugares perdidos no tempo, pitorescas vilas, monumentos e cidades históricas e decadentes, amores dramáticos e vales dos mais verdejantes e encantadores onde a beleza estava em pequenos detalhes de quem enxerga com as lentes do coração, do tempo e da imaginação.

Assim acontece em viagens quando nos deparamos com o inesperado e transformamos em relatos que podem acessar lugares ainda desconhecidos dentro do universo de cada um. E nem precisa ir tão longe para desfrutar presencialmente cenários de encantamentos e histórias. Em nossa própria rua, quarteirão, bairro, cidade e nos passeios de sempre deparamos com paisagens e situações que muitas vezes nos deslocam para outro tempo e espaço.

De carro com a minha mãe, agora octogenária e sem a mobilidade de outras épocas, costumo fazer trajetos desde a casa dela, na Pajuçara, até o centro da cidade e adjacências, passeios que ela tanto gosta por reviver em suas memórias os lugares de ontem e de hoje, e que amanhã serão de novo memórias do que passou. Costumo chamar esses breves passeios de "City Mãe", onde todos aqui nascidos, criados ou adotados, como bem se diz dos que não nasceram por aqui, mas aqui vivem desde sempre, vão deixando suas marcas e memórias de vida.

Hoje mesmo, uma segunda-feira ensolarada desse recém - nascido ano de 2024, regido pelo planeta Saturno, o Senhor do Tempo, saí do consultório médico no final da Pajuçara e fui caminhando até a agência bancária no bairro vizinho de Jaraguá, debaixo do sol de verão que tanto alegra os turistas que nos visitam.

No percurso de ida e volta ia observando os lugares de sempre e me embrenhado pelas ruas, becos e praças do velho bairro que aqui e ali tem as marcas desses novos tempos, mas sem perder as características do seu passado. De repente, como de costume nessas andanças, parei para fotografar um conjunto de casinhas que parecem saídas das páginas de algum livro infantil, cada uma pintada de uma cor diferente onde hoje ficam escritórios e que antes, soube, eram casas que abrigavam as mulheres que trabalhavam nos bares e "sobrados suspeitos" de Jaraguá, o bairro portuário onde os marinheiros do além-mar, bem como senhores da época, iam se divertir nas noites quentes e boêmias.

Depois segui até a rua onde tem um velho casarão abandonado com as ameias ainda expostas em uma espécie de torre como tantas outras construções do passado que o tempo levou. Como de outras vezes que por aqui passei queria entrar no casarão para fotografar o que ainda restava da construção, mas não foi possível entrar. Me contentei em fotografar a fachada acima dos tapumes, e ainda perguntaram se eu era fiscal da prefeitura ou se era do patrimônio histórico. Sem ser nada disso e apenas uma caminhante curiosa dei meia volta na rua sem saída e segui com as minhas divagações e reflexões passando pela praça da igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, onde meus pais se casaram em 1957 quando o bairro de Jaraguá tinha uma dinâmica diferente dos tempos atuais.

Mais adiante passei pelos velhos armazéns de estocar açúcar e da outrora estação de trem, e que atualmente serve como um depósito para guardar os adereços de blocos do carnaval que está por vir. Do outro lado avistei os trilhos novos por onde hoje passa o VLT (Veículo Leve Sobre Trilho) e segui adiante cruzando ruas que ficam escondidas aos olhos de muitos que fazem o percurso no transporte habitual. Ao chegar ao destino a caminhada continuou enquanto olhava e deletava algumas fotos do celular e ia compondo um quadro cheio de imagens dessas pequenas andanças que sempre nos surpreende, e que em algum lugar do futuro vão ser re-visitadas por outros olhares. O tempo passa, mas a cidade segue com suas vidas e história.

Vanessa Omena

Mini Curriculum: "Natural de Maceió, a Cidade Mãe, e apaixonada por Portugal, sua pátria espiritual onde aliás publicou seu primeiro livro " O Caminho se faz caminhando...".Exerceu o jornalismo mas é como "Peregrina" que se identifica fazendo de suas andanças, vivências e descobertas um motivo para seguir escrevendo e, quem sabe, informando".