
Donald Trump voltou-se contra o Brasil da pior maneira possível — com uma medida econômica embalada por motivação política e revanchismo ideológico. A decisão do presidente dos EUA de sobretaxar em 50% os produtos importados do Brasil a partir de 1º de agosto fere as leis internacionais e ameaça a soberania brasileira.
Não se trata de uma taxação técnica ou econômica. Trump alega que o Brasil, sob o governo Lula, estaria perseguindo seu "amigo" Jair Bolsonaro. Sim, os Estados Unidos, uma das maiores economias do planeta, penalizando exportações brasileiras para protestar contra uma decisão da Justiça brasileira que ainda nem foi tomada.
Se fosse no Brasil, já teria gerado pedido de impeachment por abuso de poder. Lá, Trump é Trump.
O problema é que, na ânsia de ajudar Bolsonaro, Trump pode acabar fortalecendo o adversário. A "trumpalhada" deu munição política ao presidente Lula, que saiu logo em defesa da soberania nacional.
A narrativa é simples e eficaz: o Brasil não pode se curvar aos caprichos de um presidente americano ou de qualquer outro país.
De quebra, Trump também conseguiu por a batata quente nas mãos de governadores bolsonaristas que, ao contrário do discurso ideológico, dependem — e muito — do comércio com os Estados Unidos.
São Paulo, por exemplo, governado por Tarcísio de Freitas, exportou US$ 6,39 bilhões para os EUA no ano passado. Rio de Janeiro e Minas Gerais, também sob comando da direita, vêm logo atrás, com US$ 3,19 bilhões e US$ 2,48 bilhões, respectivamente. Ou seja: o americano quis ajudar, mas acabou atrapalhando os próprios aliados.
E em Alagoas?
Em Alagoas, o impacto da medida é mais localizado. O estado exportou US$ 79 milhões para os Estados Unidos em 2024. Desses, cerca de US$ 76 milhões vieram do setor sucroenergético — basicamente da exportação de açúcar. É aí que mora o prejuízo.
A boa notícia, se é que dá pra chamar assim, é que o resto da economia estadual escapa praticamente ileso. O comércio exterior de Alagoas com os EUA representa cerca de 9% das exportações e 5% das importações. Produtos como coque e betume de petróleo, dicloretano e ingredientes para a indústria alimentícia seguem sendo importados, mas num volume que dificilmente terá impacto sistêmico.
Em resumo: quem sente o baque são as usinas, que terão que correr atrás de novos compradores para seu açúcar — tarefa difícil, mas não impossível, num mercado global ainda carente de oferta estável.
Palanque
A decisão de Trump escancara os riscos de uma política externa feita com base em palanque e não em planejamento. A depender da reação do governo Lula — que já acena com retaliações via OMC e com base na Lei da Reciprocidade —, o cenário pode azedar de vez entre os dois países.
No fim das contas, Trump tentou ajudar Bolsonaro, mas acabou ajudando Lula. Prejudicou São Paulo, Rio, Minas e muitos outros estados governados pela direita. A trumpalhada pode muito bem virar um tiro pela culatra. E se depender do humor do mercado e das urnas, o estrago pode ser ainda maior.
Veja comentário no vídeo : https://www.youtube.com/watch?v=GvGlpFO7pXs