
A recuperação dos preços do açúcar no mercado internacional ainda não chegou aos fornecedores de cana-de-açúcar de Alagoas. Apesar da valorização recente das cotações na Bolsa de Nova York, o preço líquido do Açúcar Total Recuperável (ATR) caiu 7,5% em outubro, fechando o mês em R$ 1,1644 por quilo, segundo levantamento do Consecana-AL/SE.
A queda surpreendeu os produtores, que esperavam uma recuperação da remuneração da cana depois das dificuldades enfrentadas na safra 2025/2026. O presidente da Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana), Edgar Filho, explica que a diferença entre os preços internacionais e os valores considerados no cálculo do ATR está relacionada à comercialização efetiva do açúcar pelas usinas.
“O preço de tela (da bolsa) não vale para o cálculo do ATR. O que vale é o preço do embarque. Algumas usinas, por necessidade de captação de recursos, terminaram antecipando as vendas e embarcando açúcar este mês com um preço abaixo da tela. Com isso, tivemos uma queda inesperada no ATR”, afirma Edgar, em entrevista ao Blog do Edivaldo Júnior.
A explicação ajuda a entender por que a reação das cotações internacionais, que voltaram a superar os 20 centavos de dólar por libra-peso em outubro, não se refletiu imediatamente na remuneração da matéria-prima em Alagoas.
Açúcar e etanol recuam
De acordo com o Consecana-AL/SE, a maior queda ocorreu no açúcar VHP destinado ao mercado mundial. O preço da saca passou de R$ 112,74 em setembro para R$ 100,20 em outubro, redução de 11,1%. A queda reflete as vendas antecipadas a preços menores, apesar da alta na bolsa.
O VHP comercializado no mercado americano recuou de R$ 192,57 para R$ 190,26. Já o açúcar cristal destinado ao mercado interno caiu de R$ 125,48 para R$ 121,90 por saca. O cristal exportado manteve a cotação de R$ 115,68.
O etanol também perdeu valor. O metro cúbico do anidro, utilizado na mistura com a gasolina, caiu de R$ 3.353,90 para R$ 3.061,80, redução de 8,7%. O hidratado passou de R$ 3.205,44 para R$ 3.084,82, queda de 3,8%.
Com esse desempenho, o preço médio do quilo de ATR nos produtos ficou em R$ 1,9729 em outubro, com acumulado de R$ 2,0020. A tonelada de cana-padrão foi calculada em R$ 132,85 no mês, enquanto o valor acumulado ficou em R$ 134,81.
Fornecedores
Para Edgar Filho, os preços praticados nos embarques são ruins para as usinas e ainda mais preocupantes para os fornecedores, que dependem diretamente da remuneração da cana para manter os investimentos no campo.
“Esse preço não remunera nossa atividade. Estamos vindo de um ano muito difícil e nossa expectativa era de alta. Essa queda agora é muito ruim, desanima os produtores, mas vamos continuar trabalhando para melhorar nossa atividade e esperar que as usinas melhorem os preços nos próximos embarques”, afirma.
Na safra passada, os fornecedores alagoanos enfrentaram uma combinação de queda na produtividade agrícola e redução do ATR, que provocou perdas expressivas no faturamento. Muitos produtores chegaram ao novo ciclo com dificuldades para financiar adubação, renovação dos canaviais e outros tratos culturais.
A situação preocupa porque a safra 2026/2027 começou com expectativa de crescimento da produção. O Sindaçúcar-AL projeta moagem superior a 18,8 milhões de toneladas, com possibilidade de superar 19 milhões, caso as condições climáticas continuem favoráveis.
O aumento da produção, no entanto, não garante recuperação da renda. Para os fornecedores, o resultado financeiro dependerá também dos preços efetivamente praticados na comercialização do açúcar e do etanol.
A expectativa agora é que a valorização observada nas bolsas internacionais se reflita nos próximos embarques e, consequentemente, nos valores do ATR. Depois de uma safra de perdas, os produtores começam um novo ciclo com perspectiva de colher mais cana, mas ainda sem a recuperação de preços que esperavam.