
A apreensão de R$ 2 milhões em espécie com dois funcionários da Ceilurb abriu uma investigação sobre a origem e o destino do dinheiro e trouxe para o centro das atenções a relação financeira da empresa com a Prefeitura de Maceió.
Levantamento realizado a partir do Portal da Transparência mostra que a Ceilurb recebeu R$ 320,51 milhões dos cofres municipais entre 2021 e setembro de 2026.
Além disso, a Prefeitura reconheceu em março deste ano um passivo de R$ 212,24 milhões ligado ao principal contrato de iluminação pública mantido com a empresa e fechou acordo para pagar R$ 200 milhões.
Somados os pagamentos já realizados e a obrigação assumida no acordo durante a gestão do ex-prefeito JHC, a relação financeira supera R$ 520 milhões.
O número, porém, não significa que todo esse dinheiro corresponda a um único contrato. A empresa, anteriormente denominada Vasconcelos e Santos Ltda., já mantinha relação com a iluminação pública de Maceió antes da assinatura do atual Contrato nº 187/2022. Os registros de R$ 320,5 milhões incluem pagamentos anteriores ao instrumento firmado em 2022.
Contrato começou em R$ 48 milhões
Na gestão JHC, a relação contratual ganhou novo formato em 2022. O Contrato nº 187/2022 foi firmado entre a Ilumina e a então Vasconcelos e Santos, hoje Ceilurb, por R$ 48 milhões para 12 meses. O objeto compreende serviços, mão de obra, materiais, expansão e gerenciamento do sistema de iluminação pública.
Após reajustes acumulados, o valor contratual chegou neste ano a aproximadamente R$ 67,37 milhões.
O crescimento nominal do contrato, portanto, foi de cerca de 40%. O volume efetivamente movimentado em torno da empresa, contudo, alcançou uma escala muito maior.
Os pagamentos identificados foram de aproximadamente R$ 23,5 milhões em 2021, R$ 13,7 milhões em 2022, R$ 93,2 milhões em 2023, R$ 77,8 milhões em 2024, R$ 60,1 milhões em 2025 e R$ 52 milhões até 18 de setembro deste ano.
Só em 2026, portanto, a Ceilurb já recebeu valor acima dos R$ 48 milhões anuais originalmente previstos quando o Contrato nº 187 foi assinado.
Mais R$ 200 milhões
A maior mudança financeira ocorreu com o reconhecimento de uma dívida acumulada pela Prefeitura.
O Termo de Ajustamento de Gestão firmado com acompanhamento do Tribunal de Contas registra passivo de R$ 212.244.144,94 decorrente do Contrato nº 187/2022.
Desse total, R$ 60,77 milhões correspondem a diferenças de reajustes incidentes sobre processos que já haviam sido pagos. Outros R$ 151,47 milhões correspondem a processos ainda pendentes de pagamento, também com os reajustes contratuais.
Após negociação, Prefeitura e Ceilurb fecharam acordo para quitar o passivo por R$ 200 milhões. A empresa aceitou redução de R$ 12,24 milhões sobre o principal e renunciou ainda à cobrança de aproximadamente R$ 80 milhões que calculava em juros e multas.
Os R$ 212 milhões representam um passivo acumulado durante a execução contratual, formado por reajustes e processos pendentes.
Mas o tamanho dessa dívida levanta outra questão: como um contrato inicialmente fixado em R$ 48 milhões por ano já recebeu R$ 320 milhões e acumulou passivo superior a quatro vezes esse valor?
Cosip pode ajudar a pagar acordo
A resposta passa também pela arrecadação da taxa de iluminação pública.
Maceió prevê arrecadar R$ 203,87 milhões com a Cosip em 2026. Até o terceiro bimestre, já haviam entrado R$ 89,64 milhões.
O TAG firmado com a Ceilurb prevê, entre as fontes possíveis para reforçar a quitação do acordo, o excesso de arrecadação da Cosip.
Isso ganha relevância porque a contribuição vem arrecadando acima das estimativas municipais.
Em 2025, a previsão inicial era de R$ 163,86 milhões. A Prefeitura terminou o ano com R$ 194,32 milhões arrecadados — R$ 30,46 milhões acima da projeção inicial.
Assim, parte do crescimento da arrecadação da taxa paga mensalmente pelos consumidores poderá contribuir para a quitação do passivo reconhecido com a empresa.
R$ 2 milhões em espécie
Toda essa relação financeira passou a receber atenção adicional depois da apreensão ocorrida na sexta-feira (18).
Dois funcionários da Ceilurb foram abordados depois que aproximadamente R$ 2 milhões em espécie foram retirados de uma agência bancária no bairro do Farol. O dinheiro, celulares, documentos e outros materiais foram apreendidos. Os funcionários foram ouvidos e liberados.
A Polícia Civil informou que investiga a origem e a finalidade do dinheiro e pretende analisar também contratos públicos e outros saques de grandes valores atribuídos à empresa.
Segundo o diretor da Dracco, Igor Diego, um dos funcionários confirmou que outras retiradas em espécie já haviam ocorrido.
A polícia também considera diferentes linhas de investigação, inclusive eventual relação com crime eleitoral, mas ressalta que até agora não existe comprovação dessa hipótese. Caso apareçam indícios eleitorais, o material deverá ser encaminhado à Polícia Federal.
Da mesma forma, até o momento não há comprovação de que os R$ 2 milhões apreendidos tenham origem em pagamentos feitos pela Prefeitura de Maceió.
Pagamentos próximos ao episódio
Os registros financeiros, no entanto, também deverão entrar na apuração.
Nos nove dias anteriores à abordagem, segundo levantamento baseado no Portal da Transparência, a Ceilurb recebeu cerca de R$ 8,5 milhões da Prefeitura.
A proximidade entre os pagamentos e o saque não demonstra relação entre uma coisa e outra. Essa eventual conexão, se existir, terá de ser estabelecida pela investigação por meio de documentos bancários, fiscais e contábeis.
É justamente essa trilha que a Polícia Civil afirma que pretende seguir ao examinar a movimentação financeira da empresa e seus contratos públicos.
Mais de meio bilhão
A conta ajuda a mostrar a dimensão dessa relação.
Desde 2021, foram identificados R$ 320,5 milhões em pagamentos à Ceilurb. Agora existe um compromisso para quitar mais R$ 200 milhões de passivo.
São, portanto, mais de R$ 520 milhões entre recursos já pagos e obrigações assumidas pela Prefeitura
O Contrato nº 187/2022, firmado originalmente por R$ 48 milhões anuais, está hoje em aproximadamente R$ 67 milhões. Só em 2026, a empresa já recebeu cerca de R$ 52 milhões
Nada disso comprova relação entre recursos públicos e os R$ 2 milhões apreendidos na sexta-feira.
Mas explica por que a investigação sobre a origem e o destino daquele dinheiro interessa também ao contribuinte de Maceió.