
Posso tolerar a falta de tempo para treinar. O que não dá é naturalizar uma Seleção que continua dependendo muito mais da inspiração individual do que de uma ideia coletiva.
Contra a Austrália, vi pragmatismo demais e futebol de menos.
Em alguns momentos, Vini Jr. e Raphinha pareciam naquela pelada de fim de ano: talento, aceleração, vontade de resolver, mas cada um tentando encontrar a própria jogada. Enquanto isso, alguns dos que receberam uma oportunidade pareciam entender exatamente o tamanho dela.
E talvez esteja aí uma das discussões deste novo ciclo.
Seleção não pode ser lugar para cumprir contrato com o passado. Tem que ser lugar para disputar o presente.
Os números podem até sugerir domínio brasileiro. Mais posse, mais passes, mais finalizações e presença maior no campo ofensivo.
Mas domínio territorial não é necessariamente domínio do jogo.
O Brasil teve bola. Faltaram mecanismos para transformar essa posse em vantagem. Faltaram aproximações, movimentos coordenados, ocupação melhor dos espaços e, principalmente, um coletivo capaz de potencializar tanto talento individual.
Ancelotti colocou em campo jogadores que atuam no mais alto nível do futebol mundial. Só que juntar grandes jogadores não significa, automaticamente, construir um grande time.
Do outro lado, uma Austrália tecnicamente inferior mostrou em vários momentos algo que deveria incomodar: parecia saber melhor o que queria fazer com a bola e sem ela.
Ancelotti precisa de tempo. Claro que precisa.
Treinador de Seleção trabalha com poucas sessões, jogadores chegando de clubes diferentes, ideias diferentes e pouco espaço para repetir movimentos. Seria desonesto ignorar isso.
Mas tempo não pode virar salvo-conduto.
A Seleção Brasileira precisa começar a mostrar algo diferente. Uma ideia reconhecível. Um time em que o talento individual seja a cereja, não a receita inteira.
E quero ver outra coisa neste ciclo: camisa conquistada a cada convocação.
Quem estiver jogando mais, joga. Quem estiver abaixo, espera.
Não importa o sobrenome, o clube, os milhões de seguidores ou aquilo que já fez pela Seleção.
Convocação não pode ser aposentadoria por tempo de serviço.
Talvez o futebol tenha produzido a melhor provocação da noite justamente do outro lado.
Muita gente foi ao estádio para ver Vinicius Júnior. Saiu conhecendo Nestory Irankunda.

O jovem extremo australiano mostrou força, diagonal, coragem para atacar por dentro e finalização. Não se intimidou com a camisa amarela nem com os nomes que estavam do outro lado.
E ainda deixou o dele.
É uma das belezas cruéis do futebol: você pode entrar no estádio para ver uma estrela mundial e sair falando de um garoto que talvez nem conhecesse quando a bola começou a rolar.
O 1 a 1 importa pouco.
O que importa muito mais é o recado que esse novo ciclo precisa entender: