
O futebol não “curou” nada. No máximo, começou a admitir o tamanho do problema. Agora, a contaminação ficou explícita em outra modalidade. A Polícia Federal abriu investigações sobre possíveis manipulações de resultados em partidas profissionais de basquete no Brasil, com casos ligados ao NBB, ao Campeonato Paulista Feminino e, em paralelo, um inquérito da Polícia Civil de Mato Grosso relacionado a um jogo da LBF.
O ponto que muda o tom do debate é simples. Não foi alguém que “achou estranho”. Foram relatórios técnicos de integridade, com leitura de mercado, padrão de apostas e comportamento incompatível com a lógica do jogo.
O caso mais avançado envolve Santo André x Mesquita, pela LBF, disputado em 22 de abril. A suspeita é direta, apostadores teriam informação privilegiada de que o Santo André perderia por, no mínimo, 14 pontos. O placar final foi 89 a 65. O relatório, iniciado após alerta do Rei do Pitaco e alimentado por sinais da SportRadar, descreve algo que grita para qualquer analista de integridade, concentração pesada de apostas exatamente na margem, com cerca de 60 por cento do volume total indo para a vitória do Mesquita acima de 13,5 pontos. A partir daí, o material foi encaminhado, e o caso seguiu para apuração em Mato Grosso, estado de origem das apostas.
No Campeonato Paulista Feminino, o Taubaté também aparece em alertas disparados por monitoramento. Um exemplo didático, no jogo contra o São José, em 23 de outubro, o mercado apontou volume fora do comum em “total abaixo de 132 pontos”. O placar final foi 87 a 43, somando 130. Jogadoras ouvidas negaram participação, mas citaram a figura de um gestor ligado à administração do time e a uma empresa que era marcada nas redes sociais, perfis que depois desapareceram. Isso não condena ninguém sozinho, mas é o tipo de rastro que investigação séria precisa seguir.
No masculino, o NBB entrou no radar com jogos envolvendo Rio Claro e Botafogo. Um confronto de 20 de novembro virou referência nos relatórios por supostas evidências consideradas “claras” de manipulação, com indicação de que apostadores já sabiam que o total de pontos não passaria de um limite específico. Em outra partida, dias depois, uma derrota larga voltou a acionar o alarme, desta vez por apostas concentradas em margem mínima de derrota.
A Liga Nacional de Basquete confirmou que foi informada e comunicou autoridades, Polícia Federal, polícias civis, ministérios, CBB e FIBA. O Rio Claro, por sua vez, vive um capítulo que acende sinal extra, retorno recente após período inativo, investimento estrangeiro, presença de profissionais de fora no projeto e, com as investigações avançando e visita de representantes da FIBA, rompimentos e desligamentos anunciados.
Agora vem a parte que precisa ser dita com frieza. O basquete só está repetindo o que o futebol já viu. A lógica do crime é a mesma, escolher mercados fáceis de “modelar” e difíceis de provar na hora, trabalhar com margens e totais, explorar atleta vulnerável, usar informação antecipada como arma.
No futebol, o cardápio era cartão, escanteio, pênalti, resultado combinado, jogador apostando até contra o próprio time, endividamento, vício, pressão de agiota, aliciamento. No basquete, a ferramenta muda, total de pontos, diferença no placar, ritmo de jogo. O objetivo não muda, transformar competição em produto, e o resultado em planilha.