
A convocação de Neymar virou mais um retrato do Brasil atual. Tudo parece precisar de lado, carimbo e sentença. Até futebol, que já foi o nosso idioma mais popular, agora entra no moedor da polarização. Se gosta de Neymar, é de um campo. Se critica, é do outro. Francamente, empobrece o debate.
O tema deveria ser mais simples e muito mais sério: Neymar ainda pode ajudar a Seleção Brasileira?

Ancelotti já colocou a discussão no lugar certo. Neymar não está em teste. Ninguém precisa descobrir quem ele é. O que precisa ser avaliado é a condição física. Essa é a fronteira honesta do debate. Não é sobre idolatria, passado ou blindagem. É sobre corpo, ritmo, intensidade e capacidade de competir no nível que uma Copa exige.
Também é preciso reconhecer outro ponto: Ancelotti já mostrou que não existe Neymar dependência. A Seleção não pode mais jogar como se esperasse uma iluminação individual a cada ataque. O time precisa ter estrutura, pressão, equilíbrio, mecanismos coletivos e alternativas. Isso não diminui Neymar. Pelo contrário, pode libertá-lo.
Uma coisa é depender de Neymar. Outra é contar com Neymar.
A primeira é atraso. A segunda é inteligência.
Neymar não chega a esse debate apenas pelo nome. Chega pelos números, pela história e pelo peso que construiu com a camisa da Seleção. É o maior artilheiro do Brasil nas contas da Fifa, com 79 gols. Passou Pelé, Ronaldo, Romário, Zico e tantos outros gigantes. Isso não resolve a discussão sozinho, mas também não pode ser tratado como detalhe menor. Quem fez isso pela Seleção não pode ser analisado como se fosse um jogador comum em busca de uma chance qualquer.
Em Copa do Mundo, nem sempre vence quem joga mais bonito. Muitas vezes vence quem resolve melhor os detalhes. Um passe entre linhas, uma falta sofrida na entrada da área, uma assistência improvável, um drible que desmonta a cobertura, uma decisão tomada antes dos outros perceberem o lance. Esse é o território dos craques.

Tostão, que enxerga futebol com a calma de quem pensou o jogo por dentro, sempre tratou o talento como algo raro, quase artesanal. O futebol moderno ficou mais físico, mais veloz e mais coletivo, mas ainda não inventou substituto para o jogador diferente. Sistema organiza. Craque desorganiza o adversário.
Neymar não é unanimidade. Nunca foi. Talvez nunca tenha querido ser. Sua carreira carrega exageros, lesões, ruídos e escolhas discutíveis. Mas futebol não pode ser julgado apenas pelo incômodo que o personagem provoca. Dentro de campo, Neymar tem uma biblioteca de soluções que poucos jogadores brasileiros possuem.
A pergunta, portanto, não é se Neymar deve ser dono da Seleção. Não deve. A pergunta é se o Brasil pode abrir mão dele estando inteiro.
A resposta, para mim, é não.
Convocar Neymar não é voltar ao passado. É entender que, em um torneio curto, contra seleções fortes, o Brasil precisa de organização coletiva e talento individual. Precisa de plano e precisa de ruptura. Precisa de time, mas também de alguém capaz de mudar o destino de uma tarde / noite.
Se Neymar estiver apto, a convocação não será concessão. Será futebol.
O resto é barulho. E barulho pode até vencer discussão na internet, mas nunca decidiu Copa do Mundo.