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HOME > blogs > BLOG DO MARLON
Imagem ilustrativa da imagem Leões de Treino, Filhotes de Jogo

BLOG DO
Blog do Marlon

Leões de Treino, Filhotes de Jogo


				Leões de Treino, Filhotes de Jogo
Leões de Treino, Silêncios de Jogo. Marlon Araújo

O futebol brasileiro convive há décadas com a figura do leão de treino. A gíria virou folclore, mas o fenômeno é real. É aquele atleta que domina a semana, encanta nos coletivos, atropela na intensidade e vira referência de desempenho interno. Quando chega o jogo, porém, o brilho some. A energia vira ansiedade, a confiança vira tensão, e o jogador que parecia pronto para voos maiores se transforma num filhote assustado.

O curioso é que essa crença persiste porque seduz. Dirigentes, comissões técnicas e até a imprensa se deixam levar pelo encantamento do treino controlado. O ambiente é mais previsível, menos caótico, sem torcida, sem peso de tabela, sem narrativa de competição. Ali, o talento aparece limpo. No jogo, aparece filtrado.

Para completar, o próprio futebol reforça crenças que limitam a leitura:

quem não faz toma; treino é treino, jogo é jogo; craque só nasce na favela; câimbra é falta de preparação; trocar treinador salva temporada; saber driblar significa jogar bem; e por aí vai. No fim, essas frases moldam decisões e criam ilusões.

E quando falamos de leões de treino, a ilusão custa caro.

A prática mostra que essa figura não só estagna, como também atrapalha processos de formação. Clubes prendem vagas da base acreditando que aquele garoto “vai virar”, quando o jogo já deu todas as pistas de que não vai. O clube insiste. O atleta estaciona. A base trava. O ciclo se arrasta.


				Leões de Treino, Filhotes de Jogo
Everton Felipe - Meia confessa que era leão de treino e gatinho nos jogos do São Paulo. alexandrezanquetta - Blog do SP

Esse tema não é teórico. Dias atrás, um caso público ganhou repercussão e reforçou exatamente esse ponto. Everton Felipe, ex-meia do São Paulo, admitiu com uma sinceridade rara: “Eu era bom nos treinos. No jogo, não jogava nada. Era um leão nos treinos e um gatinho nos jogos.”

Quando um jogador de Série A verbaliza isso sem rodeios, entrega a chave do problema. O treino revela eficiência. O jogo revela identidade. E não é todo atleta que se adapta à lógica emocional da competição.

Por isso, alguns clubes vivem presos a promessas eternas.

O jogador faz 23 anos, acumula semanas brilhantes e domingos discretos, segue valorizado internamente, recebe aumentos, elogios, mais ciclos de “talento que vai estourar”, mas nunca estoura. Não por maldade. Por limite. Por contexto. Por falta de adaptação psicológica ao ambiente de jogo.

E isso acontece em qualquer lugar. Há quase duas décadas, um clube liberou um artilheiro da base que vivia esse ciclo. A decisão gerou revolta, xingamento de pai, ruído interno e muita pressão. Anos depois, com a carreira encerrada e uma nova profissão consolidada, o próprio ex-atleta agradeceu. Disse que a liberação o obrigou a encarar a vida real, estudar, crescer e construir um futuro longe da bola. Às vezes, cortar é cuidar.

O grande ponto é que treinar bem é requisito, mas jogar bem é filtro.

O professor Alcides Scaglia bate nessa tecla com simplicidade desconfortável: treino é jogo e jogo é treino. Se o atleta não responde no ambiente competitivo, o caminho não é proteger. É expor com responsabilidade.

O futebol brasileiro precisa encarar isso com maturidade.

Porque insistir onde não há resposta é adiar o inevitável.

Porque elogiar treinos brilhantes não substitui decisões difíceis.

Porque potencial não paga folha.

E porque promessa que não entrega vira crença — e crença, quando toma o lugar da evidência, faz estrago.

No fim, a grande pergunta é simples:Queremos formar jogadores que performam… ou personagens que treinam?