
O Flamengo não perdeu o Mundial nos pênaltis por acaso. Perdeu depois de jogar de igual para igual com o PSG durante 120 minutos. Isso não é pouca coisa. É raro. É mérito.
Luis Enrique não elogiou por educação. Falou de compactação, de organização defensiva, de pressão alta e de mentalidade. Em bom português, disse que o Flamengo sabe jogar futebol em alto nível. Disse mais, colocou Filipe Luís num patamar que poucos treinadores brasileiros alcançam hoje, pronto para treinar em qualquer liga do mundo.
Em campo, o abismo técnico não apareceu. O Flamengo competiu, criou, sofreu, controlou fases do jogo. Poderia ter vencido no tempo normal, teve chances na prorrogação e caiu apenas porque um goleiro reserva fez o jogo da vida.
E aí mora o ponto que incomoda.

Safonov custou 20 milhões de euros. Reserva. No PSG, isso é investimento. No Brasil, isso é exceção histórica. Aqui, apenas quatro jogadores custaram mais do que isso. Lá, é o preço de um plano B, uma peça de segurança para noites grandes como a de Doha.
O Flamengo sai maior do Mundial. Sai respeitado. Sai com elogios públicos de um campeão europeu e com R$ 22 milhões no bolso. Mas sai também com um lembrete duro, competir é possível, sustentar isso por anos exige uma estrutura financeira que o futebol brasileiro ainda não alcançou.
Nelson Rodrigues dizia que o futebol é o território onde a lógica costuma ser desmentida. O Flamengo quase provou isso. Mas o mercado, esse, segue implacável. No fim, o jogo encurtou. O dinheiro, não.