
Assistindo de casa, em licença para tratamento, a leitura do jogo ganha outro ângulo. Sem o calor do Rei Pelé, sobra mais espaço para observar comportamento, repetição de padrões e aquilo que o placar apenas confirma. Contra o Avaí, o CRB voltou a enfrentar um cenário que já havia aparecido diante do Vitória, a retirada do conforto da posse, com marcação em bloco médio alto, pressão sobre a circulação e menos tempo para decidir.
Dessa vez, o CRB até conseguiu sair melhor em alguns momentos. Logo no início, teve boa jogada, chegou com perigo e mostrou que poderia escapar dessa pressão com mais qualidade do que havia feito no jogo anterior. O problema é que o filme voltou a se repetir, posse, volume, presença ofensiva e pouca transformação disso em gol. E esse é o ponto central. Ter a bola, rondar a área e parecer mais presente no campo ofensivo não basta quando a equipe não converte isso em vantagem real.
A própria leitura de Eduardo Barroca após a partida caminhou nessa direção, ao reconhecer que o time foi mal perto das duas áreas.
Com o passar do tempo, veio o risco conhecido. O CRB se lançou mais à frente, perdeu proteção e ofereceu campo para a transição. No lance decisivo, o quadro era ainda mais duro para quem analisa o erro, havia superioridade numérica defensiva do CRB, três jogadores contra apenas um atacante. Ainda assim, Walace França venceu a jogada e marcou o gol da vitória do Avaí aos 39 minutos do segundo tempo. Isso pesa muito porque não era um lance de inferioridade, nem de recomposição impossível. A conta estava a favor do CRB, mas Henri não matou a transição, Kevin não conseguiu bloquear a finalização e o lance terminou do pior jeito possível. No futebol, o castigo costuma vir justamente quando a vantagem numérica existe, mas falta vencer o duelo dentro da jogada.

Na véspera do fechamento da janela, Barroca defendeu elenco e diretoria e afirmou que o que tinha em mãos era muito bom. Como líder, fez o papel que se espera de um treinador. Depois da derrota, repetiu a postura, não terceirizou responsabilidade e disse que vai encontrar soluções. Esse ponto precisa ser registrado. Só que o futebol cobra mais do que discurso de proteção. Maratona não se atravessa com cinco ou seis jogadores decisivos. Exige 16, 18 atletas sustentando nível, intensidade e resposta. E hoje está claro que o banco do CRB não tem conseguido manter o padrão competitivo da equipe.
Agora, novidade no elenco só em 20 de julho, e até lá o caminho é um só, trabalho, silêncio e resposta em campo. Esse mesmo grupo já foi cobrado no Estadual e respondeu coletivamente. Desta vez, esse coletivo forte do CRB não apareceu. A derrota para o Avaí escancarou isso sem maquiagem.
A crítica, portanto, agora é mais honesta. Depois da derrota para o Vitória, muita gente foi buscar retrospecto fora de casa de 2025 para sustentar ataque ao treinador, ignorando o recorte de 2026 como visitante, quando o time tinha 8 jogos, 3 vitórias, 4 empates e apenas 1 derrota, um aproveitamento de 54,1%. Ali, o contexto foi puxado pelo braço para servir ao barulho. Agora não. Com derrota em casa, baixo desempenho e dificuldade de resposta, a cobrança encontra respaldo mais limpo no presente. E esse é o ponto que precisa ser separado.
No futebol, pedido de troca de treinador faz parte do ambiente, é rotina, quase calendário. O que não é justo é fabricar factoide quando o próprio campo já entrega os problemas. Contra o Avaí, não faltou motivo real para a crítica. Faltou foi esconder menos o debate atrás de recortes convenientes. Quando a crítica nasce do jogo, ela é legítima. Quando nasce do engajamento, ela só faz barulho.