
A primeira rodada da fase de grupos terminou ontem e deixou um recado simples: quem entrou achando que camisa ganha jogo já precisou rever o próprio roteiro.
Foram 24 partidas, 75 gols e uma média superior a três gols por jogo. Para uma rodada inicial, em que normalmente as seleções entram mais cuidadosas, estudando o ambiente, o gramado, o clima e o tamanho da camisa adversária, é muita coisa. A bola não esperou ninguém se adaptar.
E não foi só dentro de campo que a Copa mostrou força. Os estádios estão cheios, alguns lotados, outros com pequenos vazios que ainda chamam atenção pelo preço dos ingressos, mas o volume geral impressiona. A competição já passou de 1,3 milhão de torcedores, com média acima de 65 mil por jogo. Em um único dia, 281.223 pessoas foram aos estádios, o maior público diário da história das Copas. Copa do Mundo tem esse defeito: mesmo quando a organização complica, o povo aparece.
Dentro das quatro linhas, a primeira rodada misturou goleadas, sustos, personagens improváveis e favoritos com cara de quem ainda procura o próprio time.

A Alemanha aplicou 7 a 1 em Curaçao e, para o brasileiro, esse placar sempre chega com notificação emocional. Não tem jeito. A Suécia fez 5 a 1 na Tunísia, os Estados Unidos atropelaram o Paraguai por 4 a 1, a Noruega venceu o Iraque por 4 a 1, a França passou pelo Senegal por 3 a 1 e a Inglaterra largou forte ao bater a Croácia por 4 a 2.

Aliás, olho nessa Inglaterra.
A vitória sobre a Croácia foi um dos grandes cartões de visita da rodada. Não apenas pelo placar, mas pelo peso do adversário. A Croácia não é seleção de festa de abertura. É equipe cascudíssima, habituada a jogo grande, semifinalista em 2022 e finalista em 2018. Por isso, quando a Inglaterra faz quatro gols em uma seleção desse tamanho, o recado precisa ser levado a sério. Talento individual ela sempre teve. A pergunta, agora, é se vai transformar esse talento em time quando a Copa apertar.
A Argentina venceu a Argélia por 3 a 0 com Messi fazendo hat-trick. Aos olhos do mundo, ele segue jogando como quem não aceita virar apenas lembrança. Haaland apareceu com dois gols pela Noruega, Mbappé decidiu pela França e Harry Kane começou a Copa lembrando que centroavante ainda é uma profissão necessária, apesar de alguns moderninhos tentarem aposentar a área.
Mas a primeira rodada não foi apenas dos favoritos.

Cabo Verde segurou a Espanha em um 0 a 0 histórico. Vozinha, goleiro de 40 anos, virou personagem de Copa. E Copa precisa disso. Precisa do craque consagrado, mas também precisa do goleiro quase anônimo que entra em campo conhecido por poucos e sai carregando um país inteiro nas costas.
Portugal também tropeçou. O empate por 1 a 1 com a RD Congo não pode ser tratado como acidente qualquer. A seleção portuguesa teve posse, nome, camisa e Cristiano Ronaldo, mas faltou agressividade real. A RD Congo voltou ao Mundial depois de 52 anos e pontuou contra uma das seleções apontadas como candidata ao título. Quando a lógica cochila, a Copa pega no contrapé.
O Brasil também saiu devendo.

O empate por 1 a 1 com Marrocos não foi tragédia, mas foi alerta. E aqui é preciso separar as coisas: Marrocos não é mais surpresa exótica de Copa. Foi semifinalista do último Mundial, eliminou gigantes, consolidou uma geração competitiva e joga com uma confiança que não nasceu ontem. Quem ainda trata Marrocos como zebra está analisando o passado, não o presente.
A Seleção Brasileira teve dificuldade de construção, pouca fluidez no meio e passou parte do jogo correndo atrás de um adversário organizado, corajoso e tecnicamente confortável. O jovem Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, foi um símbolo desse jogo. Tocou muito na bola, acertou mais de 90% dos passes e jogou com uma maturidade que o meio-campo brasileiro não conseguiu controlar.

O ponto brasileiro veio, mas a sensação deixada foi de time ainda em busca de encaixe. Ancelotti tem material humano, isso ninguém discute. A questão é transformar talento em funcionamento. Em Copa, nome ajuda. Organização classifica.
A primeira rodada também mostrou uma tendência clara: as seleções de menor tradição estão menos inocentes. Elas defendem melhor, competem fisicamente, sabem baixar bloco, atacam espaço e não se intimidam com currículo. Algumas ainda perdem pela diferença técnica, claro. Mas poucas entram apenas para cumprir tabela.
A Copa de 48 seleções poderia ter começado com cara de torneio inchado. Não começou. Pelo contrário. Teve gol, estádio cheio, surpresa, frustração, drama, personagem e favorito levando puxão de orelha.
O que fica da rodada inicial é uma fotografia interessante: Alemanha, Argentina, Inglaterra, França e Estados Unidos largaram fortes. Brasil, Portugal e Espanha ganharam dever de casa. Cabo Verde, RD Congo e Austrália mostraram que futebol não respeita crachá. E Marrocos confirmou que já não pode ser tratado como visitante indesejado no salão principal.
A Copa começou grande.
E começou do jeito que o futebol gosta: derrubando certezas.