Você tem sono de quê?
Há um "sono" que se refere não apenas ao estado neurofisiológico, mas à possibilidade de desligar-se das pressões externas

O sono é uma necessidade fisiológica fundamental para a manutenção da saúde física e mental. No entanto, na sociedade contemporânea, marcada por altas demandas e pela valorização da produtividade incansável, dormir se transformou em obstáculo ou "tempo perdido".
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O modelo 24 horas por dia, 7 dias por semana é cada vez mais introjetado como virtude e como sinal de eficiência. A exaltação da vigilância e da hiperdisponibilidade resulta em uma cultura de privação crônica de sono e, nessa lógica, dormir se tornou um ato quase subversivo.
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Pensando nisso, comecei a cantarolar uma música da minha adolescência, a célebre "Comida", da banda Titãs. Lançada em 1987, a letra da música afirma: "A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte." E, assim como o corpo não se alimenta apenas de calorias, mas também de experiências sensoriais, cognitivas e afetivas, o sono não se restringe a um fenômeno biológico. O sono é um espaço simbólico de elaboração psíquica e criatividade.
A música evidencia que, para além das necessidades básicas, existe uma fome, ou, neste caso, um "sono", de sentido, de prazer e de expressão. A privação de sono, portanto, vai além da falta de horas dormidas. Representa também a falta de descanso psíquico, afetivo e existencial.


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Há um "sono" que se refere não apenas ao estado neurofisiológico, mas à possibilidade de desligar-se das pressões externas, de nutrir-se emocionalmente e de sonhar, no sentido literal e no sentido amplo de desejar e de imaginar futuros possíveis. Por isso, talvez, tantas pessoas vivam em estado de cansaço ou desânimo persistentes. Estão privadas de sono e de silêncio, de arte, de afeto, de experiências que proporcionem sentido e pertencimento
É preciso dormir e é preciso um sono que reconecte o indivíduo consigo mesmo e com sua humanidade. Transcendemos, assim, o "quantas horas você dorme" para o “Você tem sono de quê”.
Na prática clínica, reconhecer essa dimensão ampliada do sono implica olhar para as pessoas que assistimos não apenas em termos de horas dormidas ou de eficiência do ciclo vigília-sono. Implica em percebemo-nos como sujeitos inseridos em um contexto sociocultural que frequentemente desvaloriza o cuidado de si.
Assim, em uma sociedade que glorifica as engrenagens do desempenho, dormir e sonhar se tornam formas de resistência. De reivindicação do direito de existir para além da função produtiva.
Dra. Lívia Gitaí
Neurologista é médica do sono pela USP e professora da Ufal e do Cesmac.
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
