
A audiência pública no STF expôs uma contradição que o futebol não pode driblar. Quando os contratos das bets estão ameaçados, surgem cifras, projeções e argumentos sobre o futuro dos clubes. Mas onde entram as pessoas que sofrem os danos associados às apostas?
Os clubes falaram de contratos, receitas e do prazo de dez dias para adaptação. O Flamengo estimou perder R$ 430 milhões por ano. O Botafogo lembrou que seu plano de recuperação judicial considera o patrocínio master. São preocupações legítimas. Segurança jurídica e sustentabilidade financeira importam. Mas a discussão não pode terminar no balanço de quem recebe o patrocínio.
Dados apresentados pelo Ministério da Saúde apontam que 28 milhões de brasileiros apostaram nos últimos 12 meses. Desse total, 10,9 milhões fizeram apostas de forma arriscada e 1,4 milhão apresentam sinais de transtorno do jogo. Segundo a OMS, a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com esse transtorno. O dado não determina o destino de cada apostador, mas mostra a gravidade de um problema que não cabe em nota de rodapé.
Há uma máxima não escrita nesse mercado: quem ganha conta; quem perde, muitas vezes, se cala. A vitória vira print, resenha e propaganda. A perda fica escondida pela vergonha de admitir o prejuízo e pedir ajuda. Na audiência, foi citado que 65% das mulheres que apostam ou já apostaram não procuraram ajuda por vergonha.
Camisas, placas e transmissões ajudaram a colocar as apostas no centro do espetáculo. Defender contratos é legítimo. Mas, quando a defesa do caixa ganha voz e a dor de quem perde fica em silêncio, o interesse legítimo corre o risco de virar egoísmo.
Proibir, por si só, não resolve tudo. É preciso fiscalizar, prevenir, oferecer tratamento e enfrentar o mercado clandestino. Mas o futebol também precisa olhar para o espaço que deu às bets e para quem ficou fora da conta.
Os clubes foram ao STF defender o que podem perder. Quem vai defender quem já está perdendo? Essa é a pergunta que o futebol não pode deixar fora de campo.