Como o Barcelona transformou o futebol feminino em potência esportiva e comercial
Formação de talentos, investimento em estrutura e conexão com a torcida impulsionaram o crescimento do clube

O Barcelona transformou o futebol feminino em uma das principais referências do esporte mundial ao combinar resultados dentro de campo com planejamento de longo prazo, formação de atletas e estratégias comerciais. Eleito o melhor clube feminino do mundo na cerimônia da Bola de Ouro, realizada em Londres nesta segunda-feira (26), o time catalão consolidou um modelo que une competitividade, identificação com a torcida e geração de receitas.
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O reconhecimento é resultado de um projeto desenvolvido ao longo de mais de uma década. Desde a profissionalização da equipe, em 2015, o Barcelona ampliou os investimentos na modalidade e estruturou um processo de desenvolvimento que abrange desde as categorias de base até o elenco principal. O trabalho contribuiu para a conquista de oito títulos da Liga F, oito Copas da Rainha e quatro Champions League no período.
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Na última temporada, o clube voltou a demonstrar sua força ao conquistar a tríplice coroa, com os títulos da Liga F, da Copa da Rainha e da Champions League. O desempenho esportivo, no entanto, representa apenas uma parte do projeto: o Barcelona também conseguiu ampliar o alcance comercial do futebol feminino e transformá-lo em um ativo relevante para a instituição.
La Masia e formação de atletas sustentam o projeto


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Um dos pilares do modelo adotado pelo Barcelona é a formação de jogadoras. A La Masia, tradicional estrutura de desenvolvimento de talentos do clube, passou a integrar o planejamento do futebol feminino, criando um caminho para que atletas avancem pelas categorias de base até alcançar a equipe profissional.
O sistema contribuiu para o surgimento de nomes que se tornaram referências internacionais, como Aitana Bonmatí e Alexia Putellas. Bonmatí conquistou a Bola de Ouro feminina em 2023, 2024 e 2025, enquanto Putellas recebeu o prêmio em 2021, 2022 e 2026.
Além de aproveitar talentos formados em casa, o Barcelona também investe em contratações de destaque internacional. Entre os nomes que integram essa estratégia estão a atacante norueguesa Caroline Graham Hansen, a polonesa Ewa Pajor e a brasileira Kerolin, apontada no material como a contratação brasileira mais cara da história do futebol feminino.
A combinação entre formação, metodologia de trabalho e reforços de alto nível permite ao clube manter um elenco competitivo e preservar uma identidade de jogo. Para Camila Estefano, diretora executiva do Estrelas, iniciativa voltada ao desenvolvimento do futebol feminino de base, o diferencial está na continuidade do trabalho.
"O grande diferencial do Barcelona é entender que o alto rendimento começa muito antes da atleta chegar ao time principal. Existe um trabalho de formação, uma metodologia, uma estrutura de desenvolvimento e uma identidade que são construídos ao longo dos anos", afirma.
Na avaliação da executiva, o investimento nas categorias de base também produz efeitos fora do campo, ao favorecer a criação de ídolos, ampliar a identificação com a torcida e abrir novas oportunidades comerciais. Ela defende que o Brasil fortaleça esse modelo diante da proximidade da Copa do Mundo Feminina de 2027.
Receitas do Barcelona com o futebol feminino crescem
O desempenho esportivo também ajudou a ampliar o potencial comercial da equipe. Na temporada 2024/25, o Barcelona registrou € 22 milhões em receitas provenientes do futebol feminino, valor que representa um crescimento de 185% em relação a três temporadas antes.
De acordo com os dados apresentados no material, o clube alcançou a terceira maior receita entre as equipes analisadas, atrás apenas de Arsenal e Chelsea. O resultado reforça a capacidade de transformar visibilidade, desempenho esportivo e interesse do público em oportunidades de negócio.
Para Rafael Soares, especialista em gestão e marketing esportivo, o Barcelona demonstrou que o futebol feminino pode funcionar como uma unidade de negócios com capacidade própria de atrair patrocinadores e gerar receitas.
"O grande mérito do Barcelona foi entender que o futebol feminino pode ser uma unidade de negócios independente e rentável, gerando valor e atraindo patrocinadores", avalia.
O especialista aponta que o futebol brasileiro já apresenta sinais de evolução, com valorização e transferências de atletas para o exterior, aumento de público e de arrecadação nos jogos e interesse crescente de marcas. Para consolidar esse movimento, porém, os clubes precisam profissionalizar a gestão, desenvolver propriedades comerciais próprias e investir na experiência dos torcedores.
Torcida e patrocinadores ampliam o alcance da modalidade
A aproximação com o público é outro componente do projeto catalão. O Barcelona conseguiu levar mais de 40 mil torcedores ao Camp Nou em uma partida de futebol feminino, estabelecendo uma marca histórica de público para a modalidade no estádio e na Liga F.
A estratégia de visibilidade também envolve parcerias comerciais, como a firmada com o Spotify, além de iniciativas realizadas em datas comemorativas. Essas ações ajudam a ampliar a exposição da equipe e criam oportunidades de relacionamento com torcedores, patrocinadores e outros parceiros.
Na avaliação de Mônica Esperidião, CSO da FSports, agência que detém os direitos de comercialização do futebol feminino da CBF no ciclo 2025–2029, o resultado comercial está relacionado à integração entre as diferentes áreas do projeto.
"O sucesso comercial do Barcelona reflete um ecossistema integrado, em que a estrutura prepara talentos desde a base, gera identificação com a torcida e atrai patrocinadores", explica.
Segundo ela, marcas também buscam associação com histórias de desenvolvimento, transformação social e formação de novos ídolos. Nesse cenário, o crescimento das receitas depende da capacidade dos clubes de conectar o trabalho esportivo a uma estratégia comercial consistente.
Danielle Vilhena, diretora de Operações e Projetos de Marcas da Agência End to End, destaca que o envolvimento dos torcedores precisa acompanhar os investimentos em estrutura e elenco.
"O Barcelona fez uma coisa que parece simples, mas exige muita consistência: tratou o futebol feminino como parte do projeto do clube. Houve investimento em estrutura, formação e equipe, mas também um trabalho muito forte para aproximar o torcedor", afirma.
A executiva acrescenta que a presença do público nos estádios, a formação de atletas de destaque e o interesse de patrocinadores ajudam a consolidar a relevância comercial da modalidade dentro da instituição.
O que o modelo do Barcelona ensina ao futebol brasileiro?
A trajetória do Barcelona mostra que a consolidação de uma potência no futebol feminino exige mais do que contratações de impacto ou resultados pontuais. O clube desenvolveu uma estrutura que conecta formação de atletas, investimento esportivo, construção de ídolos, presença de público e exploração comercial.
Para o futebol brasileiro, o desafio é adaptar essa lógica às condições de cada instituição, com planejamento, profissionalização e continuidade dos investimentos. A Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil, também representa uma oportunidade para ampliar o interesse pela modalidade e fortalecer sua estrutura.
O exemplo catalão indica que o crescimento sustentável depende da integração entre futebol e gestão. Quando os resultados esportivos são acompanhados por uma estratégia de formação, relacionamento com a torcida e desenvolvimento de receitas, o futebol feminino ganha espaço tanto dentro dos clubes quanto no mercado esportivo.
