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A vida não espera que você se sinta pronto

Quantas coisas importantes você está adiando até se sentir pronto para fazê-las? Pense no que você disse, na semana passada, que faria. O que saiu do plano? O que continua esperando? E, principalmente, qual foi a justificativa que você deu a si mesmo para deixar aquilo para depois?


				A vida não espera que você se sinta pronto

A frase que postei em minhas redes na semana passada que foi visualizada por mais de meio milhão de contas, é atribuída a Carl Gustav Jung: “Você é o que faz, e não o que diz que vai fazer.” Certamente seu sucesso está no fato de nos leva a uma reflexão que pode ser bastante incômoda. Temos o hábito de considerar as nossas intenções quando avaliamos a própria vida. Sabemos o que gostaríamos de ter feito, o quanto pensamos em determinado projeto e quantas vezes tivemos vontade de começar. Entretanto, os resultados vêm daquilo que foi efetivamente realizado. O que imaginamos e não fizemos continua sendo uma possibilidade, por mais interessante que ela seja.

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E é nesse cenário que nos tornamos usuários típicos das seguintes frases: “Preciso estudar mais”, “preciso planejar melhor”, “ainda não está bom o suficiente”, “quando eu tiver mais segurança, começo”. Provavelmente você já tenha usado alguma dessas frases, e pode ser que, naquele momento, realmente precisasse se preparar melhor. A questão é perceber se essa preparação tem um objetivo definido ou se você apenas acrescenta uma nova exigência toda vez que se aproxima da hora de começar. Isso guarda relação com a sua narrativa interna: a história que você conta a si mesmo sobre quem é, o que consegue fazer e quais condições precisa reunir para agir. É por meio dela que você interpreta as próprias dificuldades, atribui significado às experiências e explica as suas decisões. Inclusive a decisão de continuar esperando.

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Se, diante de qualquer oportunidade, a sua primeira resposta é “não estou preparado”, vale prestar atenção no que você está chamando de preparo. O que falta, exatamente? Um curso? Uma informação? Experiência em determinada atividade? Você consegue identificar essa necessidade e estabelecer como vai resolvê-la? Ou, mesmo depois de estudar, trabalhar e se dedicar, continua se sentindo no mesmo lugar? Essa distinção é essencial, porque uma dificuldade que pode ser resolvida acaba, muitas vezes, sendo incorporada à maneira como a pessoa se vê. Ela começa dizendo que não sabe fazer alguma coisa e, com o tempo, passa a acreditar que não tem capacidade para fazê-la. O que antes era uma questão de aprendizado passa a justificar a desistência antes mesmo da tentativa.

Uma técnica interessante é escrever o seu raciocínio. Colocar no papel o que você deseja fazer, por que ainda não fez e o que acredita que precisa acontecer para começar. Depois, ler com atenção. Às vezes, aquilo que parecia fazer todo o sentido enquanto estava apenas na nossa cabeça fica bastante questionável quando é escrito. Você pode perceber que está exigindo de si uma experiência que só terá depois de começar ou esperando uma segurança que nenhum curso, doutorado ou conversa com uma referência será capaz de oferecer.

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O perfeccionismo também aparece aqui como maquiagem. Há quem adie durante anos um trabalho porque ainda não considera que ele esteja à altura do que gostaria de entregar. Revisa, muda, recomeça, abandona por um tempo e depois volta. A preocupação com a qualidade é necessária, mas precisa haver um momento em que seja possível concluir. Caso contrário, o trabalho fica submetido a uma expectativa que muda a cada nova revisão. E quem já escreveu ou acompanhou a escrita de um livro ou tese de doutorado sabe que a regra mais importante é: depois de finalizado um capítulo, jamais volte a ele para incluir, alterar, modificar, aperfeiçoar, pois é nesse caminho que muitos estudiosos e escritores experientes percebem que ocorre a “amputação textual”, muitas vezes entregando um resultado inacabado e pior do que versões anteriores. E o mais incrível é que quem o reescreve 300 vezes entrega ainda sentindo a pressão do perfeccionismo, ou seja, as 300 vezes não se encerram numa sensação de satisfação mais permanecem na sensação de falta.

E vale se perguntar com honestidade: você está tentando melhorar o que faz ou tentando eliminar qualquer possibilidade de ser criticado? Porque essa possibilidade continuará existindo. Você pode estudar muito e ainda assim cometer um erro. Pode fazer um trabalho cuidadoso e alguém não gostar. Pode tomar uma decisão com as informações disponíveis e, mais adiante, precisar revê-la. Nenhuma dessas situações é particularmente agradável, mas elas fazem parte da vida de quem realiza alguma coisa, é como caminhar! Fazemos isso há anos, e ainda assim topamos com o dedo mindinho do pé na quina do móvel, escorregamos na escada, viramos o tornozelo mesmo de tênis. Sabe por quê? A grande verdade é que só quem faz mais daquilo que erra. É proporcional. Veja o caso do jogador Michael Jordan que precisou tentar, arriscar, treinar para mais de 24537 arremessos para acertar 12345. E isso se repete até mesmo no mundo das artes. Se você não executar por medo nunca irá aperfeiçoar e muito menos dominar o campo, como uma referência.

Uso com meus clientes do Vale do Silício que precisam apresentar suas startups a grandes investidores o conceito de que o ser humano está em modo beta, bem como suas empresas. Aprende, testa, identifica falhas, corrige e continua. Isso significa que você também vai precisar fazer coisas enquanto ainda está aprendendo. Evidentemente, respeitando os limites e as responsabilidades de cada atividade. Há trabalhos que exigem formação, habilitação e conhecimento técnico específico. Mas mesmo quem reúne essas condições continua tendo o que aprender ao longo da prática. E vamos combinar: quando você entende que não existe um momento em que o trabalho seja consigo ou com um projeto está 100% pronto, ou seja que ele está sempre em modo beta evoluindo, isso tira muito da pressão, certo?

Parte do preparo que você procura depende justamente dessa experiência. Você pode estudar sobre escrita, mas terá de escrever para entender as suas dificuldades com um texto. Pode se preparar para uma conversa importante, mas não conseguirá prever tudo o que a outra pessoa vai dizer. Pode planejar um projeto com cuidado e ainda assim encontrar problemas que não havia considerado durante a execução. É preciso reservar algum espaço para lidar com aquilo que só será conhecido durante a realização efetiva. E enquanto a sua narrativa interna exigir uma versão perfeita de você para iniciar o primeiro passo, coisas importantes continuarão esperando. E cada adiamento pode reforçar a ideia de que você ainda não é capaz. Depois de algum tempo, a pessoa olha para tudo o que deixou de fazer e usa isso como prova de uma incapacidade que nunca chegou a colocar à prova.

Por isso, é importante dar uma dimensão concreta ao que se pretende realizar. Se você quer escrever um livro, por exemplo, precisa encontrar espaço na sua rotina para escrever. Qual dia? Em que horário? Por quanto tempo? O desejo pode acompanhar você durante décadas sem que uma página seja produzida. Em algum momento, será necessário sentar e trabalhar, inclusive quando o texto não sair como você gostaria. O mesmo vale para aquela ligação que você precisa fazer, para a proposta que ainda não apresentou ou para a decisão que continua adiando. O entusiasmo de imaginar uma mudança não sustenta, sozinho, o trabalho necessário para realizá-la. Haverá dias em que você estará cansado, terá dúvidas ou preferirá fazer outra coisa, e é também nesses dias que aquilo que você decidiu precisa ter algum peso sobre a maneira como organiza a própria vida.

É claro que nem todo adiamento depende apenas de uma decisão pessoal. Falta de dinheiro, problemas de saúde, excesso de trabalho e responsabilidades familiares são condições reais. Precisam ser consideradas com seriedade. Justamente por isso, escrever e examinar o próprio raciocínio pode ajudar a compreender o que está acontecendo: o que depende de você, o que exige ajuda e o que, naquele momento, realmente não pode ser feito. Essa análise também precisa incluir o custo de continuar esperando. Quando pensamos em começar alguma coisa, costumamos avaliar o risco de dar errado. Mas quanto custa passar mais um ano sem tentar? O que acontece com aquele projeto, com aquela relação ou com a sua vida profissional se tudo continuar exatamente como está?

A vida passa também enquanto você se prepara para vivê-la, e a parte mais difícil de aceitar é que: o tempo dedicado a imaginar o que faremos não nos será devolvido para que possamos, finalmente, fazer. Tudo aquilo que você imaginou, planejou e prometeu a si mesmo precisa encontrar alguma forma de existir fora da sua cabeça. Pode exigir tempo, trabalho, ajuda e várias correções. Mas precisa começar a acontecer. Então, volte à pergunta: quantas coisas você disse, na semana passada, que faria e não fez? Escolha uma delas. Escreva o que está impedindo você de realizá-la e examine a resposta com a mesma atenção que daria à justificativa de outra pessoa. Talvez você descubra que já tem condições de começar e que está há muito tempo contando a si mesmo que ainda não.

Por: Chris Kumakola

Chris é historiadora, com pesquisa no Museu Campo de Auschwitz sobre Narrativa. É autora de duas obras e ghostwriter de outros 42 livros.

Como gestora, foi a mulher mais jovem do Brasil a assumir e recuperar uma holding em recuperação judicial, reavendo aos cofres da companhia mais de 15 milhões de reais em um ano.

Foi fundadora de uma legaltech e uma edutech. Atualmente é CEO do ecossistema Efeito Narrativa, onde direciona senadores, deputados, grandes empresários, multinacionais frente a arquitetura narrativa que sustenta poder e blindagem reputacional no mercado.

*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.

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