
Rafael Brito (MDB) sabe da importância das redes sociais para uma eleição. O deputado federal foi reeleito com 117.115 votos, praticamente o dobro dos 58.134 recebidos em 2022, e terminou a campanha como o candidato a deputado federal por Alagoas com maior número de interações no Instagram.
Mas nem por isso está satisfeito com os rumos da política nas redes sociais. Em entrevista ao Congresso em Foco, Rafael criticou o que considera uma inversão de valores nas eleições: candidatos que conseguem viralizar com vídeos e polêmicas acabam recebendo mais reconhecimento do que parlamentares dedicados à apresentação de projetos e à solução de problemas.
“Quem trabalha, quem dá resultado, tem tido inclusive menos votos do que quem viraliza na rede social”, afirmou.
A declaração parte de um deputado que também tem forte presença digital. Rafael terminou a campanha com cerca de 349 mil seguidores e 946 mil interações no Instagram, segundo levantamento do Ranking Digital dos Políticos de Alagoas.
Além disso, sua votação cresceu mais de 100% em quatro anos, resultado de um trabalho que combina a atuação parlamentar, especialmente na área da educação, com uma presença constante nas redes sociais.
Mais polêmica, menos trabalho?
Na avaliação de Rafael, a busca por repercussão digital está mudando a forma de atuação dos parlamentares e o próprio comportamento do eleitor. “O trabalho não está dando notoriedade eleitoral. O que está dando notoriedade eleitoral é você ser polêmico com qualquer causa”, afirmou.
O deputado considera preocupante que conteúdos marcados por confrontos e acusações possam receber mais atenção do que propostas legislativas e iniciativas voltadas à solução de problemas.
“Hoje é mais fácil você apontar dedo sem precisar apontar solução do que trabalhar por uma solução para aquele problema”, disse.
Rafael compara dois perfis de parlamentares: aquele que começa o dia preocupado em destravar projetos, conseguir recursos para municípios e resolver problemas orçamentários e outro que dedica parte importante de sua rotina à produção de vídeos para as redes.
A crítica também atinge o eleitor. Para ele, o consumo crescente de conteúdos polêmicos acaba estimulando políticos a adotar esse comportamento.
Viralizando
A conclusão de Rafael Brito é que o trabalho parlamentar, por mais consistente que seja, já não basta para conquistar reconhecimento eleitoral. “Infelizmente a eleição vai fazer com que as pessoas que acordam pensando nos problemas da vida real passem também a pensar em que vídeo vão gravar no dia”, afirmou.
A declaração abre uma discussão sobre o papel das redes na política. Afinal, o problema está na utilização dessas plataformas ou na maneira como políticos e eleitores passaram a valorizar determinados conteúdos?
O próprio resultado de Rafael oferece um contraponto à sua análise. O deputado conseguiu dobrar a votação, apoiado numa atuação ligada à educação, ao mesmo tempo em que liderou as interações digitais entre os candidatos a deputado federal de Alagoas. Seu desempenho mostra que trabalho parlamentar e presença digital não são necessariamente caminhos opostos.
A questão levantada por ele é outra: até que ponto a necessidade de conquistar atenção nas redes pode levar parlamentares a dedicar mais tempo às polêmicas do que às atividades do mandato?