Entre saber e fazer: como pensamentos e crenças podem influenciar nossas escolhas alimentares
Mais do que falta de informação, algumas dificuldades no emagrecimento podem estar relacionadas à forma como interpretamos nossas escolhas, nossos erros e a nós mesmas

“Eu sei o que preciso fazer.”
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Essa frase aparece com frequência quando converso com mulheres que querem emagrecer.
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Elas sabem que precisam melhorar a alimentação, organizar as refeições, beber água, praticar atividade física. Muitas já fizeram dietas e conhecem as principais orientações sobre emagrecimento.
Ainda assim, existe uma distância entre saber e conseguir colocar em prática.


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E talvez exista algo importante acontecendo justamente nesse intervalo.
Imagine uma mulher que decide reduzir o consumo de doces. Depois do almoço, sente vontade de comer chocolate e come.
A escolha poderia terminar ali. Mas ela pensa:
“Eu não deveria ter comido.”
“Eu não tenho controle.”
“Já estraguei tudo. Começo de novo na segunda.”
O chocolate foi apenas um chocolate. Mas a interpretação daquela escolha pode desencadear culpa, frustração e o famoso pensamento de tudo ou nada.
Agora imagine que, diante da mesma situação, ela pense: “Eu estava com vontade e escolhi comer. O que estava acontecendo comigo naquele momento?”
A pergunta muda.
Em vez de transformar o episódio em prova de fracasso, ela pode investigar: era fome? Vontade? Hábito? Restrição? Cansaço? Ansiedade? Aconteceu no automático?
A situação é a mesma. O que muda é a forma de olhar para ela.
Ao longo da vida, construímos muitas regras sobre alimentação:
“Se eu comer doce, perdi o dia.”
“Eu não tenho disciplina.”
“Se eu não fizer perfeitamente, não adianta.”
Quando essas ideias se repetem, podem influenciar nossas escolhas sem que percebamos.
E uma regra muito rígida costuma deixar pouco espaço para a vida real, que tem cansaço, imprevistos, trabalho, filhos, viagens, finais de semana e dias em que simplesmente não conseguimos fazer tudo como planejamos.
Por isso, duas pessoas podem receber a mesma orientação nutricional e ter dificuldades completamente diferentes para colocá-la em prática.
Uma pode precisar de mais organização. Outra, de rever uma regra alimentar. Outra pode descobrir que passa o dia se controlando e chega à noite exausta.
A orientação nutricional continua sendo importante. Mas compreender como cada pessoa se relaciona com aquilo que sabe também faz parte do processo.
Para quem já sabe muito sobre alimentação, talvez a pergunta não seja apenas: “O que eu deveria fazer?” Mas: “O que acontece dentro de mim entre saber o que fazer e escolher o que fazer?”
Essa resposta pode revelar padrões, pensamentos e crenças que influenciam escolhas que, muitas vezes, parecem acontecer simplesmente “porque eu não tenho controle”.
Quando conseguimos enxergar aquilo que antes acontecia no automático, surge a possibilidade de fazer diferente.
Não porque passamos a acertar todas as vezes.
Mas porque uma escolha deixa de ser uma prova de fracasso e passa a ser informação.
E informação pode ser investigada.
Pode gerar novas escolhas.
Pode ampliar possibilidades.
A mudança na alimentação nem sempre começa no prato. Às vezes, começa quando aprendemos a olhar para o que acontece antes dele.
Juliana Aloy
Nutricionista e engenheira de alimentos, especialista em comportamento alimentar e nutrição funcional, com atuação especialmente voltada à saúde da mulher. É criadora do Método Raíz, uma abordagem que integra nutrição, comportamento e autoconhecimento para ajudar mulheres a construir uma relação mais consciente e possível com a alimentação.
Contatos:
@julianaaloy.nutri
(31) 99687-8428
*Os artigos assinados são de responsabilidade dos seus autores, não representando, necessariamente, a opinião da Organização Arnon de Mello.
